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Artistas que já morreram entre os mais ouvidos

Daniel Silveira

3 de agosto de 2022

O cantor Chorão, vocalista da banda Charlie Brown Jr. - que atualmente figura entre as 200 mais tocadas no Spotify./ Foto: Reprodução.

“Só o que é bom dura tempo o bastante pra se tornar inesquecível”, já dizia Chorão, líder do Charlie Brown Jr na música Vícios e Virtudes. A banda santista marcou tanto o rock nacional que, atualmente, figura entre as 200 mais tocadas no Spotify. O grupo entrou no ranking semanal da plataforma em outubro de 2021 e, na última semana, está na 34.ª posição.

Uma das explicações para essa presença pode ser o lançamento do disco ao vivo Chegou Quem Faltava em julho do ano passado. Outra razão é a força das músicas entre os fãs, que seguem escutando as músicas do catálogo da banda. “As músicas são eternas, estão incrustadas na sociedade”, avalia o cantor DZ6, fã da Charlie Brown Jr, banda da qual tem um cover. “É reflexo da capacidade de Chorão de falar com a alma, com o coração, de expor o personagem dele de um modo que algumas pessoas não conseguem mais”, continua.

A Charlie Brown Jr não é a única que chama a atenção por estar nos charts da plataforma de streaming mesmo depois de encerrada. Legião Urbana (103.º), Linkin Park (123.º), Queen (148.º) e O Rappa (179.º) são outros artistas que, mesmo após o fim de suas bandas (por morte ou por decisão de separação), continuam encantando fãs pelo Brasil, suficientemente para aparecerem na lista de 200 mais ouvidas do país. Outros como Marília Mendonça também aparecem em altas posições, mas não foram considerados para análise porque estão lançando canções inéditas póstumas.

Os dados não são restritos ao Brasil. Um estudo recente sobre a indústria musical nos Estados Unidos verificou que músicas de catálogo, que são aquelas com, pelo menos, 18 meses de lançamento, representam 72,4% do mercado, em comparação com 27,6% de novidades (as lançadas de 18 meses atrás para cá).

O relatório, feito pelo monitor de mercado Luminate e divulgado pelo portal americano Music Business Worldwide, analisa uma métrica chamada consumo total de álbuns, que leva em consideração serviços de streaming, downloads e vendas de música digital e física. Além disso, leva em consideração também artistas que ainda estão na ativa. A interpretação do levantamento sugere que o interesse do público por músicas mais antigas parece predominar em relação ao que está sendo lançado atualmente.

Menos antigas

Apesar da alta porcentagem, é importante pontuar que as músicas antigas que estão sendo mais ouvidas não são exatamente tão antigas assim. Mais de um terço desse consumo é de música lançada entre 2017 e 2019, segundo o estudo. “Indica, de alguma forma, que existe um interesse do público em música de catálogo”, explica o compositor e produtor musical João Marcello Bôscoli.

Os números falam muito sobre o comportamento, principalmente, os das plataformas de streaming, pois analisam o que está sendo ouvido, quase que em tempo real pelas pessoas. No entanto, a pesquisadora Dani Ribas, que é doutora em sociologia pela Unicamp, especialista em consumo musical e comportamento de público, além de diretora da Sonar Cultural Consultoria, explica que muitas variáveis são necessárias para entender essa tendência. “Não é um cálculo racional de custo-benefício quando a gente escolhe uma música para ouvir”, pontua.