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Ana Cañas grava clássicos de Belchior

29 de outubro de 2021

A cantora e compositora Ana Cañas estreitou laços com a obra de Belchior durante a pandemia

Ana Cañas não sabe dizer exatamente o ano em que travou contato com a obra de Belchior (1946-2017), mas sabe que foi na adolescência, quando ouviu “Como nossos pais”, muito provavelmente na voz de Elis Regina (1945-1982). Já adulta, ela voltou a se interessar pelo trabalho do cantor e compositor cearense, e a música “Alucinação” passou a fazer parte do repertório de seus shows. Mas foi somente em 2020, em plena pandemia da Covid-19, que a obra de Belchior passou a ocupar boa parte do tempo da cantora e compositora paulistana.

Em julho do ano passado, ela realizou uma live integralmente dedicada ao repertório dele. O show teve mais de duas horas de duração e gerou pedidos para que Ana Cañas registrasse em disco suas versões das músicas do rapaz latino-americano. E assim nasceu “Ana Cañas canta Belchior”, produzido via financiamento coletivo.

“Foi um pedido tanto dos meus fãs quanto dos fãs do Belchior. Como estávamos todos trancados em casa por conta do vírus, muita gente se engajou na apresentação, e eu recebi mensagens do Brasil inteiro pedindo para que gravasse o disco”, ela conta. “Quando a coisa vem da vida, eu recebo e escuto. Quando uma coisa se impõe, ela precisa ser atendida.”

Na ativa desde antes de estrear em disco, Ana Cañas lançou seu primeiro álbum, “Amor e caos”, em 2007. Em 2009, ficou nacionalmente conhecida ao gravar com Nando Reis “Pra você guardei o amor”. Depois disso vieram “Hein?” (2010), “Tô na vida” (2015) e “Todxs” (2018). Esse é seu primeiro trabalho unicamente como intérprete.

“Eu vinha escrevendo canções, estava pré-produzindo um disco autoral. Essas músicas estão guardadinhas. De certa forma, a pandemia nos exauriu também. Admiro muito os artistas que conseguiram produzir muito num momento em que a gente viveu em meio a tanto descaso e morte. Eu não fui um deles”

“Como eu já cantava Belchior nos meus shows e a reação do público era sempre muito bonita, sempre achei que tinha um borogodó entre mim e ele. Como cantora, eu sabia que, em algum momento da minha carreira, eu faria um disco como intérprete. Calhou de ser com as músicas do Belchior porque foi um pedido das pessoas. Elas assistiram à live e perceberam que tinha acontecido uma coisa forte ali. E eu topei, sem saber da densidade, da dificuldade e das idiossincrasias que as músicas dele possuem”, afirma.

Segundo ela, a principal característica das músicas de Belchior é a mensagem, e não a melodia.

“Ele escolhe privilegiar as ideias, por isso vários versos se transformam em poemas que as pessoas carregam em suas vidas. Atualmente, acho que o Caetano está numa fase assim. Os últimos discos dele exploram mais as ideias e as letras do que propriamente a sonoridade e as melodias.”

Isso não torna a interpretação mais fácil, ela afirma.

“É extremamente desafiador. Ele tem o hábito de colocar frases que aparentemente não cabem na melodia, mas acabam cabendo. Mas o que importa é o texto e a mensagem que ele procura passar.”