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Gil diz que eleição mostra ABL mais ‘pop’

16 de novembro de 2021

Compositor revela que já havia recebido e recusado acenos de imortais para integrar a instituição

O cantor e compositor Gilberto Gil, eleito nesta quinta-feira para a Academia Brasileira de Letras, afirmou que sua nomeação como imortal “denota um sentido de ampliação de campo, de escopo, da Academia”, e que com isso a instituição fica “mais pop”.

“Eu nunca pleiteei com muita voracidade, com desejo profundo, foi uma coisa que foi aparecendo aos poucos”, afirma Gil sobre a ideia de fazer parte da ABL. “Alguns anos atrás, tive acenos de membros da Academia e eu sempre descartava. Nunca tive ansiedade com relação a isso. Assumi recentemente esse pequeno desejo.”

O cantor passa a integrar a ABL, ocupando a cadeira 20, antes pertencente ao advogado, escritor e jornalista Murilo Melo Filho. Sua nomeação ocorre poucos dias após a eleição da atriz Fernanda Montenegro para a instituição, outra personalidade que também não trilhou sua trajetória por meio da escrita propriamente dita.

“A Academia que esperam que contemplem escritores, gente que lida com a escritura, contempla, no meu caso, como foi com Fernanda Montenegro, outro campo da vida cultural”, afirma o músico. “Isso denota um sentido de ampliação de campo, de escopo da Academia. Ela deixa de ser exclusivamente entidade de escritores e amplia o campo mais vasto. Acho que minha chegada significa um pouco isso. Como disse a Fernanda, fica mais pop.”

Para o crítico Júlio Maria, antes da honrosa insígnia que a Academia Brasileira de Letras agora lhe outorga, Gilberto Gil já havia atingido o lugar dos sobre-humanos não por um suposto alto letrismo para intelectos elevados, mas por tudo o que criou justamente nos campos livres da não academia classista. Gil fez a ideia poética mais profunda pulsar e se tornar viva ao inventar lugares factíveis feitos de matérias antes antagônicas e inconciliáveis. São dele, e agora nossos, o sertanejo científico, a indignação doce, a fé cética, a tecnologia do barro e o amor que também é feito de vãos. Por ser na escrita melhor do que na fala, os jornalistas riram quando ele disse em uma coletiva de imprensa em São Paulo: “Eu falo sempre que tudo é uma coisa só”.

Criado na oralidade de Dorival Caymmi, João Gilberto e Luiz Gonzaga, sábios letrados pelos ouvidos, Gil intelectualizou-se antes de se tornar um mediador dessas vozes a partir dos tempos tropicalistas. Mas sua presença na ABL produz, mais do que o efeito de justiçamento e equilíbrio racial, uma admissão um pouco mais cara às academias. Uma voz não oficialmente literária pode estar entre nós? Nem sempre, diz a história. Assim que o nome de Bob Dylan foi anunciado como vencedor do Nobel de Literatura, em 2016, o autor peruano Mario Vargas Llosa, ele também um Prêmio Nobel, levantou-se cheio de instintos de preservação: “Este deve ser um prêmio para escritores, não para cantores”. Mandou mais alguns impropérios e fechou: “Quem sabe no ano que vem não premiam um jogador de futebol”.