Literatura

Clarke e a curiosidade humana

24 de março de 2020

“Aquela carruagem se assemelhava a uma nuvem reluzente no céu… e o rei Rama entrou, e a excelente carruagem, ao comando de Raghira, ascendeu à alta atmosfera.” Poderia ser uma ficção científica espacial, mas é um excerto do poema épico hindu Ramaiana (“A Viagem de Rama”, em tradução literal), composto por Valmiki entre 500 e 100 a.C. A carruagem de Rama foi um dos mais antigos protótipos de espaçonaves na literatura universal. Objetos voadores como esse – presentes na pintura egípcia, na mitologia grega e nas Mil e Uma Noites – provam que a humanidade sonha com os insondáveis mistérios do espaço desde que se tornou capaz de se expressar por meio da arte.
Essa ligação umbilical entre a curiosidade humana e a vastidão do universo norteia o romance “Encontro com Rama” (1973), de Arthur C. Clarke, com nova edição no Brasil pela Aleph. Fortemente influenciada pela experiência do autor britânico no Sri Lanka – país asiático onde ele viveu de 1956 até sua morte, em 2008 -, a obra medita sobre o estranhamento proveniente do choque entre culturas de valores distintos.
Encontro com Rama se passa em 2130, quando a humanidade colonizou a Lua, Marte, Mercúrio e os satélites naturais de Júpiter, de Saturno e Netuno. As comezinhas tensões políticas interplanetárias se desenrolam nesse cenário futurista até que os telescópios se voltam para um misterioso corpo celeste, um intruso no Sistema Solar, a princípio um suposto asteroide desgarrado que vai se revelando singular à medida que se aproxima.
Batizado de Rama, porque o panteão grego já estava esgotado, o objeto “era um errante solitário entre as estrelas, fazendo sua primeira e última visita ao Sistema Solar – pois movia-se tão depressa que o campo gravitacional do Sol jamais poderia capturá-lo.” A sonda Sita é enviada para estudá-lo – no Ramaiana, Rama parte em uma jornada para resgatar Sita, sua mulher, de Ravana, que a captura. As descobertas transmitidas pela sonda são perturbadoras: “Em um bilhão de telas de televisão, eis que aparece um cilindro pequeno e uniforme, aumentando rapidamente a cada segundo. Quando dobrou de tamanho, ninguém mais pôde fingir que Rama era um objeto natural.”

ENCONTRO COM RAMA. Autor: Arthur C. Clarke. Tradução: Susana I. de Alexandria. Editora: Aleph. 288 págs., R$ 54,90