Passense ‘de coração’ conta sua rotina morando em Xangai sob o risco do coronavírus

10 de fevereiro de 2020

Jessica Bahia Galvão Santos nasceu em Goiânia, mas, aos 8 anos de idade, sua mãe Salma Bahia Carreiro Leite da Silveira se casou com o passense Edilberto Maia da Silveira, que ela chama carinhosamente de ‘paidrasto’ desde então, fazendo com que Passos se tornasse sua segunda cidade natal, onde visita os parentes e amigos com certa frequência. E, sua terceira casa, nos últimos dois anos, é Xangai, onde a jovem graduada em Relações Internacionais mora e trabalha como gerente de marketing da empresa UK Fang Education China, prestando serviços para alunos chineses que querem estudar no Reino Unido. Pós-graduada em Negócios Internacionais, a bisneta de coração de Francisco Avelino Maia acompanha de perto a evolução da epidemia do coronavírus na China e que tem gerado medo e muitas fake news. A goiana com alma passense visita intermitentemente a China desde 2012, tendo estudado a língua chinesa naquele país na Fudan University. Sobre a reação do governo chinês com relação ao coronavírus, Jessica conta que a resposta.

 

Folha da Manhã – Como você analisa a questão da epidemia do coronavírus?

 

Jessica – É uma questão muito séria. Não só o país inteiro está em alerta, mas o mundo todo tem visto que é um problema grave, principalmente por se tratar de um novo vírus, então, não temos conhecimento de tratamento, vacinas, apesar de que as entidades médicas chinesas, assim como do mundo, estão trabalhando em conjunto para desenvolver um tratamento, inclusive tiveram sucesso com o coquetel de drogas que são utilizadas para o HIV, porém, cada organismo reage de uma forma, o que não tem possibilitado dar certo para todos os casos. Acredito que a situação é muito séria e esperamos que em breve seja resolvida.

 

FM – E a situação especificamente onde você mora, que é em Xangai?

 

Jessica – A situação não é tão crítica aqui. Os casos não chegam a 300, há 281 confirmados, apenas uma morte e 41 recuperações, as quais vêm aumentando diariamente. A população total é de 26 milhões de pessoas. A média de idade dos mortos é de 75 anos e são pessoas com sistema imunológico fragilizado. Por isso, sempre alertam para a importância da hidratação e dieta equilibrada. Além disso, existem os casos de recuperação, o que é positivo. Xangai está a um mil quilômetro de distância da província de Hubei e 800 km da cidade de Wuhan, onde estão os focos da epidemia e as duas cidades estão altamente em quarentena. Lá, a situação é totalmente diferente da minha realidade. Temos um grupo de brasileiros residentes em Xangai. Não tenho contato com os brasileiros que moravam em Wuhan. Com os daqui, conversamos por meio de um programa parecido com o Whatsapp. Sabemos que os de Wuhan estão sendo repatriado e eles devem chegar a Anápolis (GO), neste sábado, 8, por volta da meia noite (horário de Brasília).

 

FM – Como é o dia a dia aí em Xangai após o surgimento do vírus?

 

Jessica – Xangai é uma cidade que não para e a qualquer hora do dia tem muito movimento. Mas, nestes últimos dias, está um pouco mais tranquila, tenho percebido a cidade vazia, com poucos carros, apenas alguns entregadores, porque franquias de restaurantes ainda fazem delivery. Eu não estou saindo de casa, não sei se restaurantes continuam recebendo pessoas, mas estão fazendo entregas, bem como supermercados. As entregas estão sendo realizadas, porém, os entregadores não são permitidos a entrar nos condomínios. Cada indivíduo deve buscar suas entregas na portaria. Aqui, o ano novo chinês se iniciou em 24 de janeiro e, desde aquela semana, já tínhamos conhecimento do vírus, mas o estado de alerta não era tão grande quanto foi na semana seguinte. Mas, depois da primeira semana, toda a população estava ciente, o governo também tem feito ações rápidas e ampliado a divulgação de como agir. O feriado terminaria no dia 2 de fevereiro. Algumas empresas voltariam no dia 30 de janeiro, porém, o governo de Xangai estendeu até o dia 9 e algumas empresas só voltarão a funcionar na primeira semana de março. Escolas estão aguardando até o próximo dia 17 de fevereiro para voltar às atividades normais. E, aqui na China, trabalhamos um dia a mais para compensar dias que não trabalharemos no feriado. Então, para fazer isso, é sinal de que a coisa está séria mesmo. Lazer? Esquece. Até salas de cinema estão fechadas.

 

FM – Como o governo chinês tem lidado com o novo coronavírus?

 

Jessica – O governo chinês está superconsciente do problema e orienta a população a ficar em casa. Fecharam lugares de grandes aglomerações como parques, bares, boates, templos, restaurantes e pontos turísticos, justamente para evitar a proliferação do vírus. Aqui em Xangai tem uma sede da Disney, que se mantém fechada. Além disso, orienta a população a manter uma alimentação saudável e tomar bastante líquido para melhorar o sistema imunológico, usar máscaras, lavar as mãos corretamente e fazer gargarejos. As orientações são dadas inclusive por meio de algumas telas, até mesmo em ônibus, que passam propagandas e também estão passando as orientações. Alguns supermercados e restaurantes ainda estão se mantendo abertos. Aqui tem um dos supermercados que tem no Brasil, que é da rede Carrefour, que está funcionando normalmente. As prateleiras não estão muito cheias, porém, ainda não faltam produtos e, com relação a entregas, ainda tem pessoas realizando o serviço.

 

FM – As aulas estão suspensas, e como será para os estudantes?

 

Jessica – As escolas não podem voltar a funcionar até o dia 17 de fevereiro. Mas vi casos de algumas instituições de ensino que estão dando videoaulas para que os alunos não percam o ritmo do ano letivo e cada local funciona de uma forma diferente. As empresas estão optando por abrir por um período. Tem casos em que empresas vão abrir apenas em março, variando de caso a caso. Essa é a realidade de Xangai, diferentemente de onde está o foco. Claro que as pessoas evitam sair de casa mesmo aqui.

 

FM – Você tem medo? E percebe a sensação de medo nas pessoas de Xangai?

 

Jessica – Sim, o sentimento de medo é normal por conta do desconhecido. Não se sabe de tratamento, de vacina, mas, no geral, a população está bem consciente, mas, devido a esse medo, as pessoas optam por ficar em casa, fizeram estoques de comida e água para não terem que ficar saindo durante os dias, e se prevenirem. E, justamente por essa consciência toda da população é que o vírus não se espalhou mais. Nesta segunda-feira, 10, minha empresa voltaria a trabalhar no escritório. Nesses dias, trabalhei de casa, porém, a orientação dada neste sábado, 8, foi para continuarmos os trabalhos de casa. Muitas famílias que moram em Xangai, mas são naturais de outras localidades, voltaram para passar as festividades do ano chinês em suas cidades natais e devem voltar nesta próxima semana. Com relação ao medo, eu estou muito tranquila, mas tenho preocupação. Vinda do Brasil onde se vive uma realidade que é muito diferente.

 

FM – Você saiu nas ruas nestes últimos dias?

 

Jessica – Neste sábado, 8, saí pela primeira vez em dez dias, com intuito de visitar minha amiga, entretanto, não foi permitida a minha entrada no condomínio dela. Apenas condôminos entram e saem, não somente do condomínio dela, mas da grande maioria em Xangai.

 

FM – Os hospitais também têm prestado bons atendimentos?

 

Jessica – Na China, os hospitais são muito lotados, porque a população é muito grande; com essa situação, estão mais lotados ainda. O governo decidiu criar e construiu dois hospitais do zero para atender às vítimas do coronavírus. Foram feitos em apenas dez dias, uma coisa impressionante. São muito conscientes do problema. Estão pedindo para as pessoas chegar com quatro horas de antecedência a voos porque fazem um check-up médico assim que se chega ao aeroporto. A província de Hubei está basicamente fechada, não há transportes entrando ou saindo da cidade. Médicos estão sob muita pressão, trabalhando em turnos de 20 horas com três horas de descanso. Tiveram de cancelar todos os eventos com família para cuidar da situação. Acreditamos que essa semana será crítica, porque o período de incubação do vírus é de 14 dias, havendo um pico previsto até o dia 10 de fevereiro. Mas, mesmo que haja muitos casos, é uma situação controlada quando se pensa no número de habitantes.

 

FM – Como é o atendimento nas residências, tem agentes como os da dengue no Brasil?

 

Jessica – Condomínios residenciais também estão passando as recomendações e são visitados por agentes de saúde que medem a temperatura. O principal sintoma do coronavírus é uma febre muito alta. O que ouvi de amigos que trabalham em hotéis é que, quando se faz check in, há alguém para medir sua temperatura.

 

FM – E como estão os tratamentos nas companhias aéreas?

 

Jessica – Praticamente todas as empresas aéreas estão cancelando voos de e para a China. São pouquíssimas companhias que ainda estão operando. A Airchina está com dois voos semanais para Pequim. O aeroporto de Guarulhos colocou autofalantes alertando os passageiros a fazerem as medidas preventivas como utilizar máscaras e levar as mãos com frequência. Companhias aéreas como Air Canada, American Airlines, British Airways, entre outras, suspenderam viagens para a China – em parte por uma razão econômica, já que muitas pessoas estão cancelando seus voos, mas também em parte pelo medo de espalhar a doença.

 

FM – Sobre a sopa de morcego, é mesmo real?

 

Jessica – Sim, a sopa de morcego é uma iguaria por aqui. Não é algo que comemos todos os dias, mas a população mais antiga tem suas crenças e, de fato, às vezes comem esse tipo de carne, mesmo que não seja comum. Já vi morcego, cérebro de macaco, cobra, besouros em restaurantes. Existem também mercados de animais silvestres que vendem animais como morcego, macaco, faisão, leopardos, porcos-espinhos.

 

FM – Você percebe algum tipo de preconceito com os chineses após essa epidemia?

 

Jessica – Sim, e essa é uma questão preocupante. Realmente, precisamos chamar a atenção das pessoas para a xenofobia e o preconceito, não somente com os chineses, mas com os asiáticos. Uma loja de coreanos em São Paulo foi fechada porque as pessoas pararam de ir com medo do vírus. A questão é complicada, mas o Brasil não tem nenhum caso confirmado. Xenofobia é crime grave. Esses brasileiros que estão indo nesta madrugada da China para o Brasil estão saudáveis. Os chineses não têm culpa do coronavírus, assim como os brasileiros não têm culpa da dengue, do H1N1. Essas coisas acontecem. Vi posts chamando os asiáticos de coronavírus. Vamos nos colocar no lugar das famílias que perderam entes queridos para o vírus. Piada não é legal em nenhum caso de preconceito.

 

FM – Você foi bem recebida aí na China?

 

Jessica – Fui muito bem recebida. Os chineses adoram os brasileiros, adoram nossa cultura, as nossas relações com a China são muito amistosas. Não é justo um país que acolhe tão bem os nacionais do Brasil sofrer qualquer tipo de preconceito. Eu nunca tive problema com nenhum chinês. Tenho amigos próximos e não somente comigo, mas com a grande maioria dos brasileiros.