Passense conta como é viver em quarentena na Lombardia

23 de março de 2020

ITÁLIA – O biólogo e tosador de animais passense Fran Lima trabalhou arduamente por dois anos para juntar recursos e se mudar para a Itália para a realização de um sonho: morar na região da Lombardia, especificamente na cidade de Villa Nuova Sul Clisi. Se mudou no dia 6 de fevereiro e viu seu sonho se transformar em pesadelo já no dia 14, quando apareceram os primeiros casos. A região da Lombardia é o epicentro dos casos de coronavírus na Itália. Ele contou à Folha como tem sido o dia a dia de quarentena, praticamente trancafiados num prédio onde moram seis famílias, das quais duas são brasileiras.No 9º dia de quarentena, Fran explica que é de perder o humor ficar em casa o dia todo. Ele, que já participou das seletivas do programa global Big Brother Brasil (BBB) e foi convocado, mas não foi, diz que tem se sentido praticamente um brother.A convivência com o filho Gianluca Casalnovo, de 13 anos, tem sido intensa e precisa ficar ‘inventando’ atividades para fazer dentro de casa. “Nestes dias em que no Brasil também as escolas suspenderam as aulas, meu filho fica ao celular com os colegas brasileiros, fazemos brincadeiras com jogos de tabuleiro, assistimos filmes e sair, apenas no entorno do prédio, para tomar um solzinho, pois aqui está bastante frio”, disse o biólogo.Fran conta que seu emprego, que estava arrumado em uma área de camping, assim como tudo na região da Lombardia, está suspenso. “Nem cheguei a trabalhar. A princípio, as pessoas não estavam levando as coisas a sério aqui, levaram a doença na brincadeira e ficou na situação que está, uma pandemia, com mais de 2 mil mortes na Itália”, disse.Questionado sobre o dia a dia, Fran disse que para sair às ruas e fazer compras é necessária uma autorização e junto à ela ser anexado o recibo da compra. “Se a polícia para a gente e não tivermos a autorização podemos ser presos. E, no carro só podem andar no máximo duas pessoas, sendo uma na frente e outra atrás. Só estão funcionando farmácias, hospitais e supermercados. Já chegou a ficar sem produtos nos mercados, mas agora isso tem se normalizado. E, os hospitais estão dando prioridade para pessoas abaixo de 60 anos”, afirmou.Quando Fran chegou ao prédio onde mora, a maioria das pessoas estava gripada. “O único que não pegou a gripe foi meu filho, mas já sabemos que jovens são assintomáticos, carregam o vírus, passam pra frente, mas não adoecem”, contou.Sobre a possibilidade de voltar ao Brasil, Fran disse não ter sequer cogitado em nenhum momento. “Sabíamos que iria chegar também ao Brasil, assim como está chegando a todos os outros países. Não é brincadeira e devemos cumprir com as regras de orientações das autoridades sanitárias e de saúde. Não precisa ter vergonha de usar luvas, máscaras, evitar contato com as pessoas. O vírus dissemina muito rápido mesmo”, disse.Vivendo a situação há nove dias de quarentena, Fran orienta que os brasileiros devem levar a sério. Não fazer como os italianos fizeram, de achar que era brincadeira. “No início, as pessoas ficam apavoradas, mas devem seguir as orientações. Não tenham em mente que a suspensão das aulas é férias. Principalmente os jovens precisam se tocar de que é pra ficar em casa. Enquanto não acharem a cura, o ideal é seguir as regras”, disse o passense.Fran explica que ainda deve ficar até o dia 3 de abril em quarentena. “No dia 21 de março entra a estação da primavera e parece que o vírus não sobrevive ao calor. Mas, precisamos fazer o que nos orientam e rezar para que tudo acabe logo. Falo diariamente com meus familiares em Passos, eles preocupados conosco aqui e nós aqui preocupados com eles aí. O erro dos italianos foi levar na brincadeira. Não gostaria que o Brasil passasse por isso, por conta das consequências. O que tenho sabido e tem me trazido mais tristeza e angústia é que os familiares das pessoas contaminadas não podem receber visitas e morrem sozinhas”, finaliza.