Opinião: Um certo espírito de natal

26 de dezembro de 2019

Ando pela Serra Gaúcha colhendo imagens e histórias. Passei por Gramado, e o espírito de Natal, creio, baixou em mim. São tantos Papais Noéis, sentados, de pé, com um saco nas costas, tantas luzes, estrelas, presépios.

Há dois anos passei por aqui e entrevistei um Papai Noel que vivia numa aldeia temática. Passava os dias sentado numa poltrona, deixando-se fotografar ao lados dos turistas. Desta vez, vi um Papai Noel no banco de carona de um carro. Aproximei-me e perguntei se era ele o Papai Noel da Aldeia.
— Trabalho em outra empresa — disse.

Ho, ho, ho, pedi desculpas e segui em frente. De noite, vi um show chamado “Illumination”. Começa com a voz de Cid Moreira narrando a criação do mundo, segundo a Bíblia. Narrava com tanta emoção que cheguei a pensar que ele esteve lá quando tudo começou.

Recebo muitas críticas pelo que escrevo. Parte do jogo. Mas o espírito de Natal orientou minhas respostas. A um leitor que considerou uma piada de mau gosto minha frase sobre a importância da cultura africana, respondi com meu conceito de cultura e um Feliz Natal, Grande Ano Novo.

Da mesma forma, a um cético sobre o papel humano no aquecimento planetário mencionei a Revolução Industrial e também terminei com Feliz Natal e Boas Festas, porque é isso que desejo a eles, apesar das divergências ocasionais.

No momento em que escrevo, sinto-me no meio de um conto de Natal. É a história de um cervo vermelho, chamado Chico. Ele apareceu em São Francisco de Paula, perdido e desorientado. Acolhido por uma família, foi adotado por ela.

Chico tornou-se um filho e um irmão. Mas as autoridades ambientais gaúchas souberam de sua existência e o apreenderam, levando-o para um zoo de Sapucaia do Sul. Vi as imagens da partida, e eram de cortar o coração. Chico foi metido num armário com alguns buracos para respirar. As crianças e os velhos estavam desolados.

Um grande movimento chamado “Volta, Chico” surgiu aqui na Serra. Foram 200 mil assinaturas. Chico ganhou uma liminar, mas, em seguida, foi de novo reconduzido para o zoo.

Compreendo os aspectos legais e técnicos do problema. Espécie exótica é uma categoria bem definida. Ainda assim, sonho com um pouco de flexibilidade. Conheci um cervo vermelho na Aldeia de Papai Noel, em Gramado, inclusive o fotografei. Cheio de galhos, também veio da Europa.

Conheci um cervo-do-pantanal rejeitado pelos outros no zoo de Gramado. A solução foi transferi-lo para o viveiro das araras, onde vive em paz. E então me pergunto: se um cervo pode viver feliz entre araras, por que não poderia entre seres humanos que o amam?

Um jornal de Canela, vizinha a São Francisco de Paula, recebeu um milhão de acessos na página que pede a volta de Chico, apesar da decisão judicial.

Isto não estava no meu plano de trabalho, viajar até o zoo de Sapucaia, falar com a família que cuidou de Chico, entrevistar as autoridades ambientais. Achar uma saída negociada.

Certamente, alguém poderia perguntar se não tenho algo mais importante para fazer, ainda mais hoje em dia, tempos rudes de comunicação virtual. Nunca deixei de trabalhar duro. É quase tudo que faço, além da leitura, um mergulho e ver uma partidinha de futebol.

Ítalo Calvino dizia que a leveza seria uma qualidade da literatura de nosso século. Nosso profeta carioca dizia que gentileza gera gentileza. Sou muito crítico à ideia de ficar bonzinho e solidário numa época do ano, apenas porque bimbalham os sinos, e há uma forte propaganda comercial em torno disso.

Mas o espírito de Natal, de certa forma, baixou, por cansaço da rudeza do debate, da grossura dos atores políticos, das próprias transformações vertiginosas que o mundo vive, desorientando as pessoas, tornando-as cada vez mais inseguras.

No passado, costumávamos dizer que a verdade é revolucionária. Hoje, diria que talvez uma certa elegância fosse revolucionária.

Nada a ver com moda ou sofisticação. Apenas o resgate de um lado humano afogado em pixels e bytes numa época em que, pela primeira vez, a sobrevivência da humanidade já não é mais uma certeza. Feliz Natal e um Grande Ano Novo, antes que desapareçam o Natal e, conosco, o conceito de tempo e ano novo.

FERNANDO GABEIRA é escritor, jornalista e ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro.

COSTUMÁVAMOS DIZER QUE A VERDADE É REVOLUCIONÁRIA