Opinião: Trump engrupiu o presidente brasileiro

11 de dezembro de 2019

Como já disse aqui “en passant”, pelo regime de Suserania e Vassalagem que imperou durante toda Idade Média, de maneira mais diluída na Idade Moderna, e caudatariamente até na Idade Contemporânea, esse sistema baseado nos costumes (consuetudinário), consistia de juramento solene de um senhor feudal (latifundiário poderoso), a outro mais poderoso, de submissão total e pagamento de altos tributos em troca apenas de presumida proteção militar. Pronto, uma vez cingido vassalo de algum soberano superior, estava selado esse pacto “ad aeternum”, atingindo até os descendentes.

Dessa maneira, foi que num ato de grande espontaneidade o presidente Bozonaro submeteu, no começo de seu governo, não só a si próprio, como também a soberania nacional ao todo poderoso, prepotente e arrogante presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que, doravante, tornara-se nosso suserano. Todavia, um grande mérito ninguém pode tirar do presidente Bozo: conseguiu um retrocesso histórico de pelo menos 1000 anos. Conseguiu mais que o deus do tempo, Kronus, voltamos à Idade Média. Tá certo que ficamos com a contrapartida da garantia militar americana, afinal estamos cercados de inimigos poderosos e belicosos que representam para o Brasil tanto quanto representou para os americanos algumas tribos de índios Sioux, quando da colonização sangrenta rumo ao Oeste dos Estados Unidos. Se esses inimigos nos atacarem de repente, como por exemplo, o Paraguai, a Bolívia, a Guiana, estaremos protegidos pelo arsenal atômico das forças ianques. Que bom, hem?

E ainda, para demonstrar sua lábia, ou melhor, baba, tão peçonhenta quanto a de um dragão de Komodo, o que Trump fez? Determinou que o Brasil se retirasse da condição de membro especial da OMC (Organização Mundial do Comércio), em troca o suserano garantiria seu apoio ao “Brasil Pátria Nada” ao ingresso na OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), órgão da ONU, onde gravitam as grandes potências mundiais. Ato contínuo, o presidente Bozonaro, amadoristicamente, acreditou em tudo que ouviu nos jardins da Casa Branca (estava deslumbrado), tanto que caiu fora da OMC. Só que, na hora do apoio para a OCDE o Trump indicou foi a Argentina e a Romênia. Aí, como diria minha saudosa mãe, “nem doce nem biscoito”; ficamos chupando no dedo. E o pior é que nesse caso, para o presidente Bozo, não sobrou nem o direito do “jus sperniendi” (direito de espernear), como já havia saído da OMC, onde poderia recorrer, sobrou apenas o direito de dizer amém.

 

Mas, como miséria pouca é bobagem, poucos meses depois daquela patacoada o suserano Trump saiu com outra ainda mais contundente: ou o Brasil aceitava uma sobretaxa tarifária de 25% sobre o aço e o alumínio, nossas principais commodities exportadas para aquele país (cerca de 3,5 milhões de toneladas), ou uma cota cerca de 50% a menos na exportação. Foi um verdadeiro desastre mas tivemos que engolir; afinal, somos vassalos e ponto final.

Presentemente, como se não bastasse tudo isso, vem novamente o suserano e diz que vai sobretaxar de novo ou duplicar a sobretaxa, sabe-se lá o que, desses dois fatídicos produtos nacionais, área de grandes geradores de empregos. Agora, ganha um pirulito o leitor que adivinhar o que o Bozo falou que vai fazer… nada! No máximo, dizer amém.

Pelas alegações do presidente Trump o Brasil está desvalorizando artificialmente o real ante o dólar, para exportar mais. Ora, o presidente Bozonaro nem sabe no que consiste uma medida cambial dessa natureza. O dólar disparou foi em grande parte pela falta de credibilidade do governo brasileiro no exterior, por conta das estripulias do presidente e seus ministros. Porquanto, ninguém quer investir ou aplicar aqui, não entra dólar novo, pelo contrário, apenas fuga em massa dessa moeda. Aí desequilibra, falta dólar na praça, a moeda dispara mesmo. É a antiga, careca e surrada “lei da oferta e da procura”.

Bom, em assim sendo, o que se espera de um governo tão “macho” como o que aí está, é que o urtigão Bozo ‘revogue’, numa canetada (boa parte dos leitores sabe da conotação embutida nessa expressão), essa “lei” e possa assim agradar não ao povo brasileiro, mas a quem de direito: os Estados Unidos, nosso suserano. E olha que capacidade e talento para isso o presidente brasileiro tem de sobra. Pode ser que aconteça… quem sabe?…

NORIVAL BARBOSA é aposentado.

 

CAPACIDADE E TALENTO PARA ISSO O PRESIDENTE BRASILEIRO TEM