Opinião: Tome Machado de Assis

6 de fevereiro de 2020

O transcurso dos anos vai nos confirmando a tendência de buscarmos na memória o que realmente vale a pena. Isso é o que me faz retornar, vez ou outra, a Machado de Assis. No meu último artigo, aqui publicado há 15 dias, afirmei que não seria a primeira nem a última vez que eu o abordaria.

O cenário é o mesmo. Um filme de suspense policial de outro cineasta espanhol, e, ao término, lá vou eu em busca daquele livrinho clássico de bolso, “Contos Consagrados”, em cujo corpo há 11 contos célebres dele, Machado.

Desta vez, o enredo do filme não tinha nada a ver com o que se passava no conto, a não ser a tensão subjacente aos acontecimentos e a curiosidade pelo final. De fato, eu somente quis repetir uma situação anterior. O que me vale mesmo é reler Machado.

Prossigamos

Um filme tenso aborda momentos terríveis de um pai médico em relação a seu filho adolescente. O nome: “Tu hijo” (Seu filho). Goste-se ou não do que ocorre e do final, surge muita apreensão pelo desenlace do enredo.

Em seguida, mais um conto sensacional do mestre Machado. Eis que, após décadas, releio “A cartomante”, um dos mais conhecidos e consagrados.

Não há como desgarrar-se das suas 14 páginas. Lá está o mesmo magistral escritor brasileiro a nos contar um caso hilário, porém tenso e também cheio de suspense.

Longe de mim, pretender a posição de crítico de cinema ou de teatro. Assisto por prazer e formo minha opinião pura e simplesmente, a opinião de um mero espectador.

Entretanto, em matéria de literatura, os mesmos anos de experiência me fazem dizer que Machado merece sempre nossos louvores e admiração.

Como expressei no último texto, entenda-se a literatura em dois polos: o conteúdo e a forma, não importa a ordem. Se você tiver boa história para contar, precisará saber fazê-lo dentro de uma forma também pertinente e, quem sabe, admirável, de modo a captar o leitor.

Machado sempre ostentou os dois aspectos com absoluta grandeza. Seu conteúdo é expresso por meio de um estilo belo e com inúmeros momentos em que expõe todo seu conhecimento linguístico, filosófico, literário e de profunda sabedoria a respeito da conduta humana.

Machado também nos abre várias portas literárias e nos ajuda a pensar e a compreender melhor a linguagem figurada de metáforas, metonímias, hipérboles e outras dessas figuras constantes de currículos escolares. Ler e reler Machado significa um impulso à cultura e ao senso crítico.

Em “A cartomante”, temos um pequeno relato com amplo alcance. O passeio começa nas tradições místicas em confronto com o ceticismo racional e avança pelos eternos riscos da paixão e mesquinhez das futricas destrutivas.

Como pano de fundo, um interessante panorama urbano e de estilo de comunicação do século XIX. As velhas cartas de amor, de troca de ideias, até as anônimas. Ah! O inestimável valor delas, hoje ignorado por grande parte da multidão online e não menos instantânea.

Sob poucas páginas, o “bruxo do Cosme Velho”, este monstro da literatura, nos conduz, com sua técnica apurada e costumeira ironia, a situações da nossa vida, que podem diferir apenas diferentes pelas circunstâncias de momento, mas que serão sempre questões essencialmente humanas.

O amor, a paixão, a superstição, a maledicência, a linha tênue entre amizade e interesse e os modos de comunicação entre as pessoas estão todos ali, porém com a riqueza da arquitetura machadiana.
Continuemos, pois, a tomar boas doses de Machado de Assis.