Opinião: ‘Pais e Filhos’, de Turguêniev

2 de fevereiro de 2020

Os russos sempre me fascinaram. Li mais obras de Dostoiévski e Tolstói, mas incluo experiências com Tchekhov, Gógol, Alexandre Soljenístsin e Vladimir Nabokov. Sobre todos estes já me manifestei aqui em várias oportunidades.

 

Desta vez, como felizmente ocorre a quem penetra o universo da literatura em razão do fato de um autor sempre levar a outros, experimentei Ivan Turguênivev, mais um russo.

 

A obra “Pais e Filhos” de Turguêniev é mencionada, por exemplo, em romances não só de Dostoiévsk e Tostoi, mas ainda de outros escritores russos e europeus.

 

Intelectual bastante reconhecido, Ivan Turguêniev viveu no século XIX (1818-1883). Nascido em uma grande propriedade rural na província de Oriol, foi prosador, poeta, dramaturgo, tradutor e ensaísta. Após estudar filosofia nas Universidades de Moscou e São Petersburgo, partiu para outros países da Europa em busca de maiores conhecimentos.

A Literatura nutre a condição de se transformar em imenso painel das vivências e características dos povos. Quando se fala nos russos em especial, a riqueza é inegável.

A vasta história dos russos gera, portanto, uma literatura não menos vasta e, assim, apta a retratar as profundas questões que ocorreram com aquele povo ao longo de séculos.

Se os livros de história, de ensaio e biográficos dependem, sobretudo, de pesquisas documentais para trazer fatos e ideias ao conhecimento, a literatura, por outro lado, costuma fazê-lo por meio da imaginação, ao valer-se de enredos e personagens ficcionais.

 

“Pais e Filhos” não poderia fugir à regra. Ao usar a estética da ficção literária, Turguêniev nos oferece os embates culturais entre as gerações que viveram aproximadamente entre os anos de 1840 e 1860 na Rússia, porém com idades e valores diversos.

 

“Pais e Filhos” remonta às divergências de criação e visões de mundo entre as gerações daqueles anos. A inteligência do autor também se revela em nos deixar livres para interpretar as ideias e tentar compreender aquelas controvérsias, no caso, entre os pais e os filhos.

A provável busca da imparcialidade por Turguêniev, que acabou por ocasionar polêmicas nos círculos literários e intelectuais da Rússia do século XIX, talvez resulte de ele próprio ter podido viver entre as diferentes gerações.

“Pais e Filhos” representa, desta forma, uma obra de excelência. A criativa arquitetura de seu desenrolar não reside em tramas, mas nos inúmeros diálogos que as personagens exercem a todo
momento. É preciso usufruí-los.

Segundo o tradutor Rubens Figueiredo, Turguêniev “se preocupava muito mais em criar personagens marcantes do que em fabricar tramas”, característica bastante perceptível no transcorrer da narrativa.

Seu protagonista é o médico Bazárov, em cujas palavras, há de se perceber sua adesão ao niilismo, uma espécie de doutrina filosófica que surgiu bem ao final do século VXIII e avançou pelo século XIX, como típica das novas gerações, que a tudo contestavam.

 

O termo niilista serve ao propósito de designar os que que negam e se opõem a tudo que se baseia na tradição, na autoridade ou na ordem estabelecida. Os que de tudo descreem ou, no mínimo, desconfiam, ao lançar ideias contrárias aos valores vigentes.

 

Bazárov era um niilista. Obstinado pelo estudo das ciências biológicas, nada lhe escapava das críticas, do sarcasmo e até do desdém. Sua voz, nos vários diálogos, feria sentimentos, fé e instituições como o amor, a paixão, a religião, os poderes e as relações humanas.

Há décadas, quando eu buscava conhecer ao menos superficialmente muitas palavras, niilista e niilismo já me despertavam a curiosidade. Eis que agora, tanto tempo depois, leio um clássico em que tais palavras representam o cerne do enredo.

Naqueles já distantes anos, ao descobrir seu significado me senti atraído pela ideia. Durante a juventude, os fluxos da contestação a tudo e a todos costuma nos atingir.

 

“Tio, o senhor quer que eu lhe diga o que Bazárov é?”

”Faça-me o favor, sobrinho."

 “É um niilista.”

ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO escreve quinzenalmente, às quintas, nesta coluna.