Opinião: O tormento da separação

16 de dezembro de 2019

O tormento está na cabeça do homem. No genérico, homem e mulher. Não propriamente na cabeça. Mais certo, em outro lugar. Num sítio multiuso, que muitos têm e apontam como “aquilo”.

No compêndio de estudos sociais, no caso em questão, o homem moderno acaba se tornando autor e réu ao mesmo tempo. Mesmo drama e processo,na essência o sofrimento buscado com as próprias mãos, porquanto senhor e verdugo de si mesmo.

No frenesi da discórdia conjugal, de dois ou mais gêneros, e a preço alto, o índice no Brasil de divórcio (e desligamento de fato, sem a esfera do direito), saiu dos limites. É muito para nenhuma ou pouca substância temporal. E tampouco justificável no caráter social e religioso.

No relevante, de se considerar a sociedade na predominância cristã e defensora de valores, como o instituto do matrimônio, cujo imperativo maior é “não separe o homem o que Deus uniu”. Palavra de Jesus, o verdadeiro, na versão de Lucas, o Evangelista.

Tretou, relou, não é mais o tradicional “eu quero a minha mãe!”. É diferente. E pior: “eu quero o divórcio, a separação, a polícia!”. O escambau! Quando não a perturbadora sentença: “olhe a Maria da Penha!”

Desde que o Divórcio foi instituído no Brasil – lá se vão quarenta anos – no drama da separação, entre choros e ranger de dentes (quando os têm),tem-se que o índice de separação e divórcio é alto e não menos preocupante. Para a ala conservadora da sociedade, é gosto fraco senão salgado para fracos e oprimidos seres, a incomodar a tradição da já tão vilipendiada tradicional família brasileira.

Os dados vêm do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). E dizem respeito a números oficiais. Vamos lá. Um a cada três casamentos no Brasil termina em divórcio. E a tendência é aumentar o produto, na dissolução matemática e agressiva do amor que se foi, se é que foi, e se foi amor, porquanto, amor que já era, ora – é porque nunca foi! [Drama novelesco custoso!].Ou não é assim?

E que proveito se tira disso? Bem, pouco ou nenhum. Afora os órgãos estatísticos – vivem disso e pra isso, quem tira maior proveito econômico dessa triste e deprimente situação são os causídicos, de amaríssimas causas. Assim como o Estado, pela cobrança de tributos a casos inerentes, Cartórios das Varas de Família, em tese, não fazem graça até mesmo a crianças abandonadas.

Por outro lado, no segmento ‘dor doída’, quem mais perde com isso, depois dos agentes conjugais, são os filhos por ventura existentes. E se menores e incapazes, muito mais, pois haja acertos mentais pelos desacertos conjugais. E psicólogos entram ativamente no descalabro do passivo!

Antigamente, ainda que não conte vantagem alguma, com raras exceções, o judiciário agia com certo zelo e cuidado em audiências de separação. Havia período para reflexão, visando a possibilidade dos casais retroagirem nos seus propósitos. “Quem sabe… Pensem bem… Tentem mais vezes…” Na mediação involuntária de Mario Lago e Ataulfo Alves (Ai, que Saudades da Amélia, 1942): “Perdão foi feito pra pedir”. E tomem seguidas cantilenas.

Hoje, não. Apresentou-se o requerimento formal no Cartório, com a ajuda de um advogado, desde que não haja filhos menores ou incapazes, ou mediante ação judicial numa vara de família, pronto, acabou-se.“Just a dream ago!”

Engraçado. No universo dos acontecimentos, no tempo que o tempo tem e permite, na vida a dois, gasta-se tanto com energia, sonhos, emoção, sentimentos positivos e negativos, dinheiro (por que não?). De repente, num simples ato de vontade, na singeleza de um apertar de caneta por assinatura, e um quase sempre conturbado distrato, põe-se tudo a perder!

E depois de tudo, na impossibilidade de promissores diálogos, a evitar ultrajantes mágoas e ressentimentos, o melhor a fazer é deixar ir, desapegar-se, deixar os cacos de lado e abraçar sem rigor de deboche as imagens boas de dias que se fizeram bons na vida de duas almas que juraram “amor eterno”. E, a posteriori, na sequência de dias, descobriram no “amor eterno”, a finitude de um amor não tão eterno assim. Como dizem: “durou até acabar”. Pois é. Acontece. E muito.

Num pensamento severamente racional, temos que a morte põe termo a uma existência. Por outro lado, o fim de um casamento, dane-se o nome que se dê à relação, põe-se fim a uma conjunção de planos, miríades de sonhos, os quais, interceptados no meio do caminho, não foram concretizados no todo, o que é uma pena.

Sempre a mesma história, diferentes personagens, cada qual carregando o seu fardo, a sua cruz. Cada um para um lado. Nem sempre se resgata a tão sonhada felicidade em outras circunstâncias. Sem contar que o futuro, ainda que contrariando existencialistas de toda espécie, continua a Deus pertencendo.

Triste fim de uma época dourada e cheia de magia. Acabou-se o que era doce. Para alguns outros, nem sempre. Feliz e infelizmente. No geral, o consolo é: ninguém melhor para reeditar uma vida do que alguém que passou por uma vida e viveu.

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado trabalhista e previdenciário, com escritório em Formiga – MG, escreve aos domingos nesta coluna. 

 

PERDÃO FOI FEITO PRA PEDIR