Opinião: O olhar de Manuela

30 de dezembro de 2019

Pensem como quiserem, falem o que quiserem. Tema recorrente do qual não se pode replicar e nem deixar margem a dúvida é que as pessoas não mandam no coração.

Em tese, como coração, entendam como sede concebida para relativizar os sentimentos humanos, especialmente os bons.

Pode fazer mal, engordar e, no dizer de católicos, até situar-se entre os pecados mortais e veniais.

 

Mas, em definitivo, pelo amor de Deus, até prova em contrário, ninguém é dono do coração. Mas…

Mas o quê? Enganem a vovozinha! O que se sente, o que nele passa, o que nele está guardado.

Tanto que se usa em poetização frases como "recôndito do coração, recôndito da alma". Em apelos metafóricos, para a tradução do que está oculto, escondido, guardado.

Vão recomendar o inviável: nada com nada, que as diferenças são muitas: cultura, educação, catecismo, colégio das freiras. Ora essa!

Inadmissível é a contraposição. Mesmo porque quanto a essa verdade não há argumento. É contrassenso.

Imperativo da linguagem. Quem é da linguagem sabe. Nós somos. Do jornal, da escrita, do convívio social e familiar. Somos a linguagem viva. Mas temos o coração, os pensamentos.

Realmente, não somos donos do coração. Nem da verdade. Como de resto, não somos donos de nada. Assim, não temos controle e nem como refrear os poderes dos sentimentos armazenados no coração.

E, por extensão, o que está depositado na alma. Os sentimentos, as emoções. Se dúvida houver, apontem!

E a paixão? Bicho estranho. Ser de outro mundo. Bicho apaixonado é perigoso. De priscas eras: “bicho apaixonado é perigoso. É cavalo de bravo”.

As paixões irrefreáveis são intensamente mencionadas e impregnadas de valores perversos, cada qual com sua magia e sorte.

Tudo pode estar escrito nos calendários festivos e fulgurantes das estrelas e no íntimo de cada um. Assim como pode estar perto dos olhos dos que querem e podem enxergar. Com os olhos que a terra um dia fatalmente haverá de comer.

E por mais se tente esconder, escamotear e dizer não, simplesmente acontece. A paixão. Essa avassaladora rede insidiosa de imperfeitos mortais!

Que em seu nome se chega aos beirais de insuportáveis mentiras. E absurdamente acontece. Segure quem puder! “Eu te amo!” Será que ama mesmo?

Para quebrantar a fúria de tormentosos dias, uma criança. Um anjo!

A singeleza do olhar. Fundo dos olhos. Ternura sem conta. Fulgor da alma. Um traço de meiguice em fulminante aparato. Além do tradicional "olhar 43". Bem além. Acima de cumes, montes e montanhas!

Na verdade, tudo pode acontecer em uma tarde de Natal, quando muitos estão se ondulando em ressacas. Maltratados pelo excesso de incontáveis e indesejáveis tragos de “Feliz Natal”, à base de duvidosos votos.

Agora, bem ali, à mercê de um olhar puro e cristalino, tanto quanto o desejar ardente de toda a felicidade da paz mundial natalina!

Então, num pleito de meiguice no outro lado da mesa:

— Feliz Natal, vovô! Viva Jesus! Tintim!

E uma voz embargada, tom recíproco de ternura:

— Feliz Natal, Manu! A Jesus, viva! Tintim!

Quando em taças borbulhantes de ‘refri’ se fecha mais um ciclo de vida voltada às bênçãos de um amor além dos horizontes e próximo do infinito.

E na matéria de física nunca dantes estudada e perquirida, eis um marmanjo refém de uma alma nutrida pelo tempo, na forma de uma garotinha nascida para ficar e se estabelecer no afeto sem precedentes. No dizer da mãe Renata, "pronta e acabada".

No contar e estalar de dedos, não mais do que quatro anos de vida, que a todos encanta e ao mundo sugere cantar em êxtase.

Que a paz esteja contigo, Manuela. Extensivo a Thomas e às crianças do mundo inteiro, na sinceridade do amor sem limites.

Votos votantes a declararem o amor, a paz, o carinho, a ternura e a consentida (não dolorida) paixão! Não se alça a grandes temas senão por amor.

Quando se experimenta ser gente que ousa acreditar em dias melhores para o ano de 2020, na espreita nos espia. Sem a 24ª letra do alfabeto, o xis de 2019! Deus nos livre e guarde!

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado trabalhista e previdenciário, escreve aos domingos nesta coluna.

 

NÃO SE ALÇA A GRANDES TEMAS SENÃO POR AMOR