Opinião: O cowboy nas estrelas

6 de janeiro de 2020

A morte do cantor e compositor Juliano Cezar causou comoção em todo o Brasil. E choro de pesar aos que detêm a virtude das emoções afloradas.

Assisti ao vídeo do show no Paraná, quando vitimado por morte súbita. Como no geral, fiquei pasmo, reflexivo e me entreguei à súbita melancolia. A introspecção nos leva a ponderar, a discernir, a questionar.

 

Acompanhei-lhe a carreira. No particular, por ser vizinho de bairro em Passos, onde reside sua mãe. No mais, por ser Juliano o grande cantor e compositor que era.

O curioso é que a tristeza vem e se apossa de nós, sem pedir data vênia, licença, obséquio… Nada. Ela chega e se aloja.

 

Quando me veio à mente a figura e obra do cantor, alcunha não apoiada de "cowboy vagabundo". A ele o nome não se coaduna e em nada referencia o personagem à vida dura que levou, sequer em pálida sombra.

História de muita luta e persistência. Muito trabalho. E muito ainda por vir. Expressão artística de real grandeza! Nesse caso, respeita-se.

 

Acresce dizer, no explicável, show no sul do país, no Paraná, depois, tomaria a esposa em Ribeirão Preto, e com ela passaria as festas de fim de ano em sua terra natal, entre parentes e amigos.

Aguardavam-no auspiciosos ventos sudoestinos, cidade nascida pelas graças do Senhor Bom Jesus dos Passos. Não deu. O destino não concorreu. Foi-lhe adverso. Podou-lhe o intento.

 

Trinta e três anos de promissora carreira. Nuances de muitas conquistas, estilo cancioneiro sertanejo e country. Dos bons.

 

Inúmeros sucessos, com destaque para a canção "Não aprendi dizer adeus", o carro-chefe. Por que não se firmar na verdade: da canção, seu maior e melhor intérprete, disparado? Juliano era e é soberano na interpretação. Fosse só nessa!

 

Apreciava a voz de Juliano Cezar, o timbre grave dos cantores que cantam o choro da alma. Sonoridade doída, ao tempo que apaixonada. Melancolia de povos historicamente sofridos. Espírito livre de quem se expressa na voz o sentimento do amor, da dor, da paixão desenfreada e recolhida.

 

Daí o grande sucesso. Voz diferente, tocante. Boa para ouvir, sem problema de desgaste de audição. Inconfundível na beleza harmônica.

De se perceber nas interpretações, a nostalgia e a angústia do "soul music". Dos negros da comunidade africana. Voz estabelecendo pactos de amor perene com a angústia da ternura de quem ama no consolidado e na expectativa da conquista a ser formalizada.

Assim como grandes ases, Juliano Cezar não morreu. Jamais morrerá. Ficará no indelével. Viajando pelas estradas e estrelas do imaginário. E esparzindo nos espectros espaciais, fagulhas da marca do seu olhar, sem que o adeus possa machucar.

O indiscutível talento há de permanecer. E, agora, no incompreensível, nos impregna na imorredoura saudade.

No dizer do poeta, Juliano Cezar poderá esboçar um adeus em relativa forma de cinco letras que choram: Adeus! Mas,em definitivo, ele não aprendeu a dizer adeus. Jamais!

 

Ou, quem sabe, no "eu aprendi a ouvir a Deus!", ao chamado do Pai, atendeu, pronta e precocemente.

E nós-outros, esperantes mortais, por aqui continuamos na fila de espera. No aguardo da vez. Até que os sinos imutáveis da verdade, em tonitruantes badalos, soem inexoravelmente, ‘sine qua non’, sem reserva de domínio e mercado.

E igualmente nos envolverá nos mistérios de direcionadas luzes, rumo às dimensões de embrionários túneis do infinito.

 Até breve, Juliano Cezar! Amigo e companheiro de jornada!

Para o próximo show, contará na plateia com uma legião de anjos, sob o comando e aplauso de um ser superior. E na certa, este o aguardará no camarim, para a entrega do prêmio maior, bem superior ao Grammy que na terra é o mais importante da indústria fonográfica mundial. Trata-se do galardão a merecidos, a vida eterna e a ressurreição na glória! Nossa busca e objetivo nesta caminhada chamada vida.

Juliano Cezar foi mais que um vencedor, in casu, por sua conquista artística na terra e agora pela graça da misericórdia divina!

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado trabalhista e previdenciário, com escritório em Formiga, escreve aos domingos nesta coluna. 

 

JULIANO CEZAR FOI MAIS QUE UM VENCEDOR