Opinião: Nem tudo são flores

CRIANÇAS ESTÃO SE TORNANDO PEQUENOS DITADORES CIBERNÉTICOS

30 de janeiro de 2020

“O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) foi criado em 2007 e reúne, em um só indicador, os resultados de dois conceitos igualmente importantes para a qualidade da educação: o fluxo escolar e as médias de desempenho nas avaliações. Ele é calculado a partir dos dados sobre aprovação escolar, obtidos no Censo Escolar e das médias de desempenho nas avaliações do Inep, para os municípios através da Prova Brasil. O Ideb também é importante por ser condutor de política pública em prol da qualidade da educação. Para a educação básica, está estabelecido, como meta, que em 2022 que o Ideb do Brasil seja 6,0.”

Esta definição foi extraída do sitio do INEP – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, que subsidia com seus estudos a formulação de políticas educacionais dos diferentes níveis de governo do país, sendo uma de suas ferramentas, a publicação do IDEB, cuja última apuração aconteceu em 2017 sendo esperado para este ano os índices em 2019.
Examinando os dados das escolas municipais de Passos, há informações que devem nortear os rumos de nosso sistema educacional.

Foram traçadas metas municipais a serem cumpridas, que têm como norte alcançar o índice 6,0 em 2022. Para os anos iniciais (do 1º ao 5º ano), a educação municipal conseguiu alcançar em 2017 a impressionante marca de 7,0, mostrando que nestes anos temos um aprendizado de qualidade comparável a dos países desenvolvidos.

No entanto, a mesma análise tendo como base os anos finais (do 6º ao 9º ano) do ensino básico não revela números promissores. De 2007 até 2015, Passos sempre ultrapassou a meta para o município, até que em 2017 quando deveríamos atingir 5,4, marcamos míseros 4,9, praticamente regredindo ao quadro de 2013 e caindo 0,3 pontos em relação a 2015.
Estes dados nos levam a verificar outras informações, mostrando, por exemplo, que apenas 20% dos alunos dos anos finais na Prova de Matemática conseguiram a compreensão adequada na resolução de problemas, ou seja, dos 166 alunos que fizeram a prova, 33 deles demonstraram o aprendizado suficiente. Aliás, este é outro número que me parece inadequado, pois dos alunos matriculados nestas séries, que totalizam 772 pelo Censo Escolar de 2017, apenas 166 fizeram a Prova Brasil, ou seja, apenas 6 das 24 escolas municipais. Os dirigentes educacionais devem assim criar estímulos para a realização da prova que não é obrigatória, mas rende números preciosos para o planejamento.

Longe de merecer críticas, a Secretaria Municipal de Educação, cujo desempenho tem sido bem avaliado, precisa não somente de apoio governamental, como também de observar pontos que podem ser aprimorados, fazendo com que os números tão bons como os dos anos iniciais sejam também obtidos nos anos subsequentes. A realidade é que todas as escolas, nos anos finais, estão em estado de alerta. Dados das escolas estaduais são semelhantes.

Assim, verifica-se que as escolas contêm uma rede física de boa qualidade, mas há o que melhorar como por exemplo apenas 3 das 24 unidades, possuem sala de leitura, enquanto 19 escolas possuem banda larga.

Apesar dos baixos índices de aprendizado, ocorreram apenas 6 reprovações em todo o ensino básico, o que, a meu ver, é uma situação paradoxal em razão das mazelas do sistema educacional implantado, não em Passos, mas em todo o Brasil. Estaríamos aprovando estudantes não aptos?

Existem muitas questões e discussões que envolvem a educação brasileira, erros e acertos praticados ao longo dos anos, mas não podemos jamais deixar as conquistas se perderem. Por isso, ao invés de acomodarmos com um quadro melhor que a média do país, é preciso sempre ter disposição para aprimorar e evoluir.

Sou do tempo que Escola era sagrada e os professores nossos ídolos, respeitados, e que disputávamos a honra de, com orgulho, ajudá-los a realizar pequenas tarefas. Estudei fazendo provas difíceis, arguições, correndo o risco de tomar bomba e sendo repreendido, castigado e corrigido muitas vezes duramente. Aprendi, em carteiras escolares, a cultivar valores que hoje não estão sendo praticados. No meu tempo, as pendengas entre os meninos eram resolvidas pelos próprios e sem vitimizar nada e no final todos íamos juntos jogar uma pelada, brincar de bolinha de gude e apertar a campainha das casas e fugir correndo. Vivíamos tempos ingênuos, marcados por uma rebelde fraternidade entre moleques e pelo respeito à escola e aos mestres.

Como leigo no assunto e também sem conseguir me localizar no mundo da tecnologia, do celular, de um ensino que adota pilares muito distintos dos que vivi, apavoro-me ao ver alunos espancando professores e vejo que o Brasil precisa repensar, sem radicalismos, como construir o futuro das crianças que hoje estão se tornando pequenos ditadores cibernéticos, que não respeitam hierarquias e sempre passam de ano, aprendendo ou não. Por isso, não me arvoro a entrar em questões pedagógicas e outros temas especializados. Esta tarefa compete aos dirigentes e docentes de nossa cidade, que são qualificados e haverão de encontrar caminhos no Plano Municipal de Educação. Fiz aqui apenas uma simples análise de dados oficiais publicados no sítio https://www.qedu.org.br/cidade/1843-passos/evolucao, sem tirar méritos de quem quer que seja, mas desmistificando o ufanismo de políticos que se esquecem da realidade incontestável dos números.