Opinião: Nada de novo no front

12 de fevereiro de 2020

Entrincheirados, chafurdados na lama misturada com corpos dilacerados e em decomposição, sangue e excrementos, bombas a estourar por todos os lados, lutando para sobreviver aos horrores da guerra e a uma guerra de horrores, essa era só parte da rotina de jovens soldados alemães, durante a Primeira Guerra Mundial. E não era diferente nas fileiras inimigas.

Insuflados por pais e professores a deixarem o conforto do lar e partirem para a glória nos campos de batalha, aqueles jovens, outrora idealistas, ao se depararem com a crueza dos infindáveis confrontos com o inimigo, dia após dia, sem avançar, sem se chegar a lugar algum, ou, muito pelo contrário, chegando-se ao mesmo resultado, sempre, de mortes, e mais mortes, e mais mortes…

Viram ruir os ideais de glória e de poder que lhes foram inculcados pelos pais e mestres – aquilo tudo não fazia sentido… quanta insanidade, quanto desperdício de vidas. Pra quê? Era esse o sentimento nutrido por Erich Maria Remarque, também um soldado, sobrevivente daquela guerra, reproduzido em seu celebrado romance pacifista ‘Nada de novo no front’. Ao findar aquele conflito, Erich passaria a lutar em outra frente, a da luta pela construção da paz (interessante o conceito, parece até antagônico, de se ‘lutar’ pela ‘paz’, não é mesmo?).

E cá estamos nós, quase cem anos depois, lutando as nossas lutas cotidianas, em nível pessoal e de nações, cada um buscando o seu lugar ao sol, mas, muitas vezes, os resultados de tanto esforço são pífios e conduzem ao mesmo lugar. Só a título de exemplo, a participação do Brasil no comércio mundial encontra-se estagnada na casa do 1,1%, ou algo próximo a esse índice, há décadas.

 

Podemos concluir que houve um desperdício de energia muito grande, ao longo de todo esse tempo, por parte dos administradores deste país – ou por erros conceituais, ou por desvios outros (corrupção, por exemplo) -, para se chegar aonde sempre se esteve.

O mesmo pode ocorrer na vida pessoal, em seus vários aspectos, sejam eles físicos, emocionais, financeiros, familiares etc. Despende-se grande energia psíquica, física, emocional, financeira… para, muitas vezes, alcançarmos algo que perseguíamos, que considerávamos o ideal da vida e que, ao ser obtido, não nos satisfaz. Isso, quando não nos frustramos no caminho e o máximo que conseguimos, após tanto esforço, é chegar aonde estávamos antes. Então, em ambas as situações, quase que podemos repetir como Remarque em seu romance: ‘Nada de novo no front’.

Mas, apesar dos fracassos, somos teimosos em insistir no erro: a Alemanha fez nova tentativa na segunda Guerra Mundial. Não se contentou com a derrota na Primeira. Foi necessário novo grande fracasso, ao custo de muitas vidas, para que se tornasse a nação pacifista que é hoje. O nazismo passou a ser combatido, considerado crime lá e em inúmeros outros países. Aprendeu-se. À custa de muito sofrimento próprio e alheio, mas houve evolução nesse aspecto.

Participando de evento científico e cultural neste sábado último, ouvimos de um dos palestrantes crítica à pessoa do atual presidente do Brasil e ao seu modo de agir. Ao final daquele encontro, pedindo a palavra, pude ponderar que as manifestações contra aquela autoridade se centram, em sua quase totalidade, no seu comportamento, no seu ‘modus operandi’, ignorando as causas que o alimentam. Por quê? Por que é conveniente desconsiderar, não examinar, os fatos geradores e alimentadores do fenômeno que dizemos combater (autoritarismo, nazismo, fascismo, comunismo, capitalismo, egoísmo…), desconsiderar, por que o nosso comportamento, e de boa parte da sociedade, pode ser, também, o motor, o gerador, daquilo que condenamos. E isso não queremos encarar e enfrentar, porque não temos coragem para uma autocrítica. Então, ataca-se a pessoa do outro, e não os fundamentos que produzem o seu comportamento. O problema é sempre a outra pessoa, o outro país… e nós nos isentamos, por conseguinte, da responsabilidade pessoal (“O inferno são os outros” – Sartre).

Os atos e seus fatos decorrentes precisam ser enfrentados, ou incentivados, pois estão aí a produzir resultados bons e ruins nas vidas das pessoas e no concerto das nações. Mas, prioritariamente, necessitam ser abordados na origem, nos princípios formadores e informadores de justiça, de paz, de alteridade e de dignidade do ser humano, com os quais se constrói, mesmo em meio e apesar do sofrimento, um mundo novo, que satisfaz.

WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA é bacharel em Direito, ex-diretor da Justiça do Trabalho em Passos, escreve quinzenalmente às quartas, nesta coluna