Opinião: Metralhadora giratória (XXXII)

5 de março de 2020

Há anos criei a série metralhadora giratória. Lembram-se? A última obteve o número XXXI e foi publicada no já distante ano de 2016. Vamos lá.

Quaisquer projetos, públicos ou privados, precisam de um lado operacional para serem postos em prática de modo eficaz. Não é o que se verifica no caso da Previdência.

Sem entrar em considerações sobre o mérito da reforma, o fato é que, hoje, há mais de 2 milhões de pessoas à espera de benefícios em uma fila gigantesca. E são as mais necessitadas, dentre idosos, doentes, deficientes e desprovidos de melhores condições.

Esses quase dois milhões pleiteiam aposentadorias, licenças-maternidade, demais auxílios e benefícios de prestação continuada. Segundo o instituto, 1,3 milhão de pedidos aguardam a liberação há bem mais de 45 dias — prazo regulamentar do órgão para conceder ou negar um pedido.

Governos falham ao não se prepararem para demandas de tal natureza. Ansiosos por projetos, pecam na operação, já que, também em razão da reforma, houve muitos pedidos de aposentadoria de servidores da própria Previdência, com drástica redução de sua mão de obra, que já não era ideal desde antes do atual mandato.

Temos, portanto, uma espécie de caos no sistema, que lança milhões de necessitados ao limbo de uma espera angustiante. Imaginem-se no lugar dessas pessoas. A contratação urgente de servidores temporários para atender os pedidos tardará a surtir efeitos.

Bom, não sou especialista em estratégias políticas, qualidade que observo em muitos que adoram oferecer ensinamentos e “lacrações” nas redes sociais, mas tenho convicção de que não se deve governar fazendo guerra de baixo calão à imprensa e a seus jornalistas.

Se ao governo Bolsonaro ou a quaisquer outros não agradam as críticas, o que não deixa de ser compreensível, a melhor maneira de respondê-las é manter o equilíbrio e demonstrar, sob o lastro de argumentos sólidos e não de agressões, que referidas críticas não procedem. Simples assim. Nada além.

Quem ostenta mandato público, há de governar, com atos e palavras, para todos, mais ainda para os que não o admiram ou idolatram. Usar o cargo e os discursos somente aos convertidos não é atitude inteligente. Acirrar ânimos, para ser mais explícito, torna-se uma ação estúpida.

Enquanto Bolsonaro, seus filhos e alguns ministros empreendem suas batalhas comunicativas de baixo nível contra a imprensa, a população brasileira continua na expectativa de que a economia cresça para melhorar a renda, o consumo e gerar empregos a longo prazo, que são os fatores mais importantes. Por ora, poucos prenúncios.

Amargamos, por outro viés, a ausência de oposições confiáveis. Quais os projetos efetivos apresentados pelas oposições atualmente? Acrescente-se que os desastres dos anos de rapinagem dos cofres públicos entre governo, partidos políticos e grandes empreiteiras, nos últimos governos, fortalecem o desencanto.

Pois apesar da descrença na classe política em geral e nos poderes constituídos, certos pleitos de medidas extremas, como fechar Congresso e STF, são absurdos e não representam solução alguma. Fechá-los seria retrocesso inimaginável. Esqueçam esse disparate. Ouso afirmar que isso não vai ocorrer.

Uma vez conquistado o regime democrático, é preciso mantê-lo e tentar aperfeiçoá-lo sempre, com todos os instrumentos legais e legítimos que lhe são inerentes. Não há outro caminho. Iludir-se com ditaduras soa grotesco, fruto de desespero e falta de razão.

Tenho visto algumas entrevistas de nossos atuais pré-candidatos a prefeito. São muitos, hein? Até creio em suas boas intenções, mas também venho observando que alguns ainda sustentam as mesmas retóricas de anos atrás. Sinto cheiro de filme repetido.

Há um certo personalismo político em jogo, ao molde de frases já surradas como “o prefeito precisa pôr as pessoas certas no local certo…o prefeito precisa saber cobrar seus secretários…vou trazer empresas para Passos…vou diminuir a terceirização de serviços…não vou fazer conchavos políticos…vou cortar drasticamente os cargos de confiança…meus secretários serão escolhas técnicas…”, e por aí vai.

A impressão que me vem é que alguns imaginam que vão administrar seus próprios negócios particulares. Tomara que eu esteja enganado.

Quanto à totalmente desgastada malha asfáltica de Passos e seus buracos crônicos, há propostas para todo gosto. Quem sabe um dia, sabe-se lá quando, surja solução ao menos aceitável para essa doença que já nos corrói há tempos.