Opinião: Hábitos e livre-arbítrio

4 de dezembro de 2019

“Vivemos no piloto automático”, segundo Charles Duhigg, autor do best-seller ‘O Poder do Hábito’. O seguinte trecho de seu livro/pesquisa ilustra bem o que diz: “O modo como habitualmente pensamos em nosso ambiente e em nós mesmos cria os mundos onde cada um de nós habita.” O que exemplifica com a seguinte citação: “Tem dois peixes jovens nadando juntos, e eles por acaso encontram um peixe mais velho nadando no outro sentido, que acena para eles e diz: ‘Bom dia, meninos. Como vai a água?’”, disse o escritor David Foster Wallace a uma classe de graduandos em 2005. “E os dois peixes jovens continuam nadando um pouco; então uma hora um deles olha para o outro e diz: ‘Água? O que é água?’”

 

As conclusões a que Duhigg chegou em sua obra confirmam conteúdo de artigo já escrito por mim aqui nesta coluna, tempos atrás, e que, doravante, passo a reproduzir, por oportuno e para reforçar a necessidade do exercício da nossa autoconsciência Hábitos.

 

Até as pedras rolam…, mas há quem se julgue fortaleza da imutabilidade, os famosos cabeças-duras, turrões.

 

Após décadas de mistério em torno das ‘pedras que andam’ no deserto de Mojave (rochas de até 300Kg, que se movem por dezenas de metros em solo seco e plano, deixando longos rastros em seu percurso), pesquisadores encontraram a explicação: a ação de elementos externos da natureza sobre as rochas. Em raros momentos de chuva e de condições atmosféricas adequadas, com a temperatura na casa do 0º centígrado, a pouca água depositada no solo se congela, formando uma fina camada de gelo sob as pedras, que são impulsionadas pelos fortes ventos daquela região, quando a placa de gelo se descongela e se parte, carregando-as para longe, sendo fenômeno de difícil observação. Mesmo não se movendo por si mesmos, pois não tem pernas, rodas ou outro meio próprio para fazê-lo, nem autoconsciência que demande vontade para tal, os elementos do mundo mineral podem se deslocar no espaço ao sofrer ação externa, como é o caso citado.

 

Diferentemente das rochas, os animais têm a capacidade de se locomover por si próprios, mas, na sua condição primitiva, são guiados basicamente pelos instintos, uma espécie de ‘subconsciência’ primária automática, em que as condições para a sua sobrevivência são inatas. Em seu mundo, os instintos são a lei e governam. Quando um patinho selvagem nasce, cresce, sai do ninho e voa, faz o que é próprio de sua espécie. Ninguém o ensinou a voar. Simplesmente, está no seu DNA. O mesmo acontece com um filhote de baleia que acaba de nascer. Não se afoga. Sai logo nadando. É assim com todos os animais. É um mundo que se autorregula, de forma natural. Não há presidente, gerente, administrador. Agem por impulso. Não têm consciência de si mesmos, ou a exibem em um grau ínfimo.

 

Nós, humanos, temos em comum com eles várias de suas características, tais como as de instinto de sobrevivência, desejo sexual (procriação), competição, agressão… mas, para além destas pulsões compartilhadas, primárias, transitamos também em um outro mundo, de natureza não biológica ou material – o dos valores. Como seres conscientes de nós mesmos e do outro (autoconsciência e alteridade), desenvolvemos hábitos que facilitam a nossa vida, o nosso dia a dia e, com o passar do tempo, ao se incorporarem ao nosso cotidiano, deles não nos damos mais conta, pela forma automática e condicionada com que passamos a agir e viver. É assim com todos, mais com uns que com outros. Nos animais, por reflexos inatos… nos homens, por hábitos desenvolvidos e cultivados (bons ou maus), os quais não deixam de ser expressão de valores. 

 

Uma constante revisão de vida – do nosso pensamento, comportamento e rotinas – se faz necessária para que as pulsões mais elementares, primárias, não nos dominem e dirijam, quase sempre sem que percebamos, embora façam parte da nossa constituição. A dignidade da nossa condição de seres autoconscientes exige que a exercitemos, para que sejamos senhores da nossa vontade, pela via dos valores, e não regridamos a condições inferiores, quais rochas conduzidas por meios externos… ou animais governados meramente pelos instintos.

WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA, bacharel em Direito, ex-diretor da Justiça do Trabalho em Passos, escreve quinzenalmente às quartes, nesta coluna.

 

UMA CONSTANTE REVISÃO DE VIDA SE FAZ NECESSÁRIA