Opinião: Eu sou você, amanhã?

22 de novembro de 2019

"Se os primeiros governos tanto de Bachelet quanto de Piñera eram símbolos de mudança, as segundas gestões de ambos esgotaram o estoque de esperanças. Eles pegaram a retroescavadeira e enterraram os melhores tempos. Eles estavam surdos à falta de um projeto nacional, um caminho para o desenvolvimento, uma meta compartilhada que desse sentido às dificuldades cotidianas…” (Daniel Matamala, jornalista chileno, sobre a atual crise social e econômica no Chile)

Propaganda da vodka Orloff, na década de 1980, ficou famosa ao cunhar a expressão “Eu sou você, amanhã”, em que personagem que bebia vodka de má qualidade amanhecia, no dia seguinte, com tremenda ressaca. Na década posterior, dos anos 90, tal sentença foi largamente usada para se compararem os acontecimentos políticos, econômicos e sociais que ocorriam na vizinha Argentina aos que se sucederiam no Brasil, pois, envolvidos ambos com planos econômicos mirabolantes e promessas políticas ‘salvadoras’. Os fracassos que ocorriam na Argentina àquela época, serviam de advertência ao Brasil, que seguia o mesmo caminho, o mesmo modelo populista em suas políticas, e colheria, fatalmente, os mesmos resultados no futuro: “Eu sou você, amanhã.” A dor de cabeça, a ressaca econômica, era inevitável, culminando em hiperinflação ao final do governo Sarney e outros graves problemas sociais que repercutem até os dias atuais.

De lá para cá, vários governos se sucederam no Brasil, de esquerda, de centro-esquerda e, no momento, se apresentando como de direita, ou de centro-direita (Bolsonaro). E a história ameaça se repetir, com a apresentação de projetos de reformas previdenciária, administrativa, tributária… todos com viés acentuadamente economicista, desprezando-se a dimensão social da natureza do Estado. Se as administrações anteriores priorizaram esta última dimensão, descurando da economia, o que proporcionou a destituição da sua última representante da presidência da república (Dilma Rousseff), sob a acusação de crime fiscal, a atual foca no econômico, relegando a segundo plano o social.

O Brasil sempre procurou se posicionar, politicamente, de forma independente no concerto das nações, como um “país não alinhado” às disputas globais entre as grandes potências, até mesmo em momentos de grave polarização, como o da época da “guerra fria”, conquistando respeito em seus posicionamentos. Corre o risco de perder esta independência, agora, ao se alinhar, incondicionalmente, a qualquer uma delas, mormente aos Estados Unidos, como vem declarando, repetida e irrefletidamente, o atual presidente da República. O mesmo risco está correndo na economia, ao mirar em modelos econômicos alienígenas e desvinculados da nossa realidade sócio-econômico-cultural de um país continental, complexo, diverso, desigual, e, quase sempre, complicado.

Precisamos construir e trilhar o nosso próprio caminho, independente de ideologias, criando nossos próprios modelos de desenvolvimento, aplicando e adequando à nossa realidade o que há de melhor na experiência das nações. As crises que se repetem, agora, na Argentina e no Chile, não precisam se reproduzir no Brasil. Vale a advertência do jornalista chileno, posta ao início deste artigo: a de que precisamos de “um projeto nacional, um caminho para o desenvolvimento, uma meta compartilhada que dê sentido às dificuldades cotidianas”. É o que almejamos todos.

WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA, bacharel em Direito, ex-diretor da Justiça do Trabalho em Passos, escreve quinzenalmente às quartas, nesta coluna.

PRECISAMOS DE UM PROJETO, UM CAMINHO PARA O DESENVOLVIMENTO