Opinião: Esquerda em Vertigem

13 de fevereiro de 2020

“Este país não pode melhorar enquanto o governo gastar todo o seu dinheiro na propaganda da rosca e a oposição colocar todo seu esforço na condenação do furo.” (Millôr Fernandes).

O documentário dirigido pela brasileira Petra Costa, que perdeu a premiação do Oscar em sua categoria, apresenta uma visão de acontecimentos recentes da política brasileira, entoando teses defendidas por políticos simpáticos ao PT e seus puxadinhos, em especial a caracterização do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff como golpe parlamentar. Apesar de mostrar discretamente a corrupção instalada nos governos de esquerda no período, o forte componente político impede a diretora de incluir em sua narrativa evidências de maltrato às leis vigentes, principalmente a afronta à lei de responsabilidade fiscal, nas famosas pedaladas fiscais, como também à regra de ouro da Administração Pública, que é o Princípio da Legalidade, eis que foram criados créditos orçamentários sem a devida aprovação do Poder Legislativo, o que, por si só, clareia e configura o crime de responsabilidade.

Também não foi abordada suficientemente a extrema inabilidade da presidente no exercício de seu mandato, criando um abismo institucional, que levou o país a um verdadeiro caos político, econômico, administrativo e social. Não há como se analisar um ato político, como o do impedimento, abstraindo dele os fatos do entorno do poder e, mais do que isso, que levaram a população brasileira a se mobilizar maciçamente exigindo atitude do Congresso Nacional quando, mais uma vez, a voz das ruas falou mais alto.

Curiosamente, podemos verificar que a defesa apresentada pela então presidente guarda uma incrível similaridade com argumentos apresentados pelo ex-presidente Collor quando de seu impedimento, inclusive a alegação de golpe de estado.

Este comentário inicial serve para uma análise do comportamento da esquerda brasileira, após apear do Poder, cedendo lugar a um governo de direita seriamente disposto a desbaratar o aparelhamento do Estado praticado nos 16 anos anteriores.

O que se observa hoje é um festival de erros praticados especialmente pela bancada oposicionista no Congresso Nacional e por lideranças políticas de esquerda, insistindo em jargões ultrapassados e ladainhas que se tornam insuportáveis ao grande público que, certamente, espera um comportamento mais inteligente e construtivo daqueles que são os principais responsáveis por exercer o papel fiscalizatório e apresentar alternativas ao governo. Ao contrário, a oposição prefere, na maioria de seus posicionamentos, apresentar quixotadas, tais como: alegação de governo fascista, misógino, racista, homofóbico e muitos outros adjetivos desacompanhados de fatos concretos a lhes embasar, senão a emocionada rivalidade que deságua na subjetividade, que acaba levando-lhes ao descrédito e ao descabimento. Não se discutem com profundidade e maturidade temas relevantes para o Brasil, que de fato carecem do contraditório, para que as decisões sejam aperfeiçoadas e resultem de um debate altivo e republicano.

Ao preferir o caminho do belicismo midiático, erra a esquerda que ainda não descobriu que a população está farta de seus políticos e de seus discursos estéreis e que o discurso agressivo de 40 anos atrás está ultrapassado além de, até mesmo que seu maior líder já não ter a popularidade que se imaginava.

Este comportamento e atitudes, visíveis também no derrotado documentário "Democracia em Vertigem", caracteriza, aí sim, a existência de uma verdadeira síncope da esquerda, percorrendo atordoada os meandros da política brasileira e não conseguindo apresentar caminhos melhores senão o de repetir, cambaleante, palavras de ordem decoradas, que hoje soam apenas como um saudosismo dos movimentos estudantis e da luta sindical de décadas atrás.

A alternância no Poder é salutar ao processo democrático e não pode desaguar em discurso de ódio entre as partes e o incentivo à eterna dicotomia entre esquerda e direita. O que se deseja é um governo seguindo suas teses e a oposição exercendo o papel que lhe foi reservado, cedendo em determinados momentos para apoiar medidas corretas e combatendo com consistência, equilíbrio, sapiência e discernimento aquilo que considera errado.

Diante de grandes desafios, não é aceitável que os políticos se apequenem gastando suas energias com seus interesses grupais e com seus projetos de poder, enquanto o Brasil não pode mais esperar para iniciar um círculo virtuoso das relações políticas, voltado para projetos que precisam ser colocados em prática. É hora de dar um basta aos motivos que encontram para arraigar cada vez mais a emulação política entre grupelhos, composta de ataques e revides, produzindo matéria prima para uma verborragia insana, como se o nocaute de seu oponente, rendesse qualquer fruto saudável para a República.

Parece até, analisando os acontecimentos políticos e a vulgaridade das atitudes praticadas por muitos, que estes ainda não imaginam que a população brasileira, a duras penas, consegue hoje pensar política de forma diferente dos tempos do coronelismo, ainda que seja tomando nojo de todos.

GILBERTO BATISTA DE ALMEIDA é engenheiro eletricista e ex-político