Opinião: E Flamengo foi a alegria

2 de dezembro de 2019

Não sou Flamengo, nunca fui e, penso, não haverá tempo de ser. Respeito a escolha de meu filho, no agregado os dois netos, que se juntam a mais 40 milhões de outros tantos no mundo todo. De fato e de direito, flamenguistas de paixão.

Optei pelo Atlético Mineiro desde tempos em que me descobri rebelde sem justa causa. Época de convívio com o jornalista Carlos Assad, cruzeirense roxo, passagens idílicas (não menos etílicas) pelo edifício Maletta, na capital mineira. 

Mas ao escrete rubro-negro da Gávea, o merecido e comovido respeito. Não é comum um time de nenhuma parte do mundo, em menos de 24 horas – sábado para domingo passado – sagrar-se campeão pela Copa Libertadores da América e pelo Campeonato Brasileiro de Futebol, o Brasileirão. No imponderável, por todos os urubus, feito para ninguém botar defeito.

Tempo para louvação, lavação e expurgação de almas. Oportunidade que brasileiro que se preze teve e não podia perder. Torcer para um time que o representasse lá fora, com peso, firmeza e galhardia. Irrelevante a agremiação e cores. O importante que simbolizasse à altura a sua história e a investida garra. Ao Clube Regatas do Flamengo o desafio.

Dar um pouco de alento ao sofrido povo brasileiro, papel que há muito a seleção brasileira não vem cumprindo em favor da “nação de chuteiras”. E bem o sabemos, o futebol bem jogado, com características de campeão, não produz dividendos, não santifica amor em bem-vindas alcovas e nem viabiliza pão à subsistência humana. Mas oportuniza estado de graça, libertação e purificação, como gostava de analisar e apontar Nelson Rodrigues. E foi o que aconteceu. 

Pelo menos os ares estavam para catarse. Um amortecimento às angústias do dia a dia do cidadão brasileiro. Fosse corintiano, santista, palmeirense, gremista, goiano – lá o que fosse. Era torcer para o Flamengo ou continuar sofrendo os dramas e as mazelas de um cotidiano grotesco à base de violência, desemprego, desigualdade social, racismo, homofobia. Nenhuma condição imposta. Mão de escolha: de duas, uma. Torcer ou não. Samba de uma nota só? Não. Quando a síndrome social parar de assolar, a gente para. 

Alívio momentâneo para pobres, oprimidos e combalidos pulmões. Viventes num país no qual a pobreza mental luta com a pobreza ética e moral. E, no paralelo – jogo duro de doer –, perde feio para a pobreza econômica. 

E tinha de apelar-se para a alma do outro mundo. A equipe do Flamengo começou batendo cabeças. Não engatava marcha alguma para atingir a meta adversária. 

Então um gol bobo aconteceu. Para o adversário, toque sutil e inflamado rasgo de inteligência. Falha da zaga rubro-negra.

A partida dava sinais de bye bye Flamengo. Na imagem de Nelson Rodrigues, o certo era contar com a mística do Sobrenatural de Almeida, personagem criada pelo cronista esportivo, foi muito como jornalista e muito mais como escritor, romancista, teatrólogo e dramaturgo. Engenhoso polígrafo.

E aos 43 minutos do segundo tempo, como que tomado pelo Sobrenatural de Almeida, aproveitando-se de uma bobeira do atacante Prato, do River Plate, aparece a figura de Gabigol. E dois minutos depois, não mais que isso, em aceitável bis in idem, outra vez Gabigol. 

Explosão rubro-negra. E o mundo se fez vermelho.

A festa então tomou conta não só do Rio de Janeiro, mas de todo os cantos do país. E lavou a alma de tantos quantos precisam ter a alma lavada. Considerando-se que 9 a cada 10 brasileiros precisam ter a alma lavada, aí então foi lavação só. E muita louvação. 

No fim de tudo, depois de tudo, o que se tira de proveito é a gratificação da fé e da esperança. No jogo da vida não é diferente. Em toda e qualquer empreitada, não basta só o esforço contínuo. É preciso a esperança e o exercício da fé. Vislumbrar melhores dias e acreditar que é possível. 

A homenagem maior estará sempre em proveito dos que creem. E num respeitoso e lusitano oba-oba, viva Jesus!

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado trabalhista e previdenciário, com escritório em Formiga, escreve aos domingos nesta coluna.