Opinião: Bipartidarismo travestido

30 de novembro de 2019

Mesmo ante a afirmação de Lula, que saía da prisão sem ódio, e de Bolsonaro, que não iria polemizar, a soltura do ex presidente esquentou os ânimos entre seus apoiadores e os próprios, que já não conseguem manter o que pretendiam, se é que algum dia pretenderam de verdade.

Buscando a revitalização da esquerda brasileira, que desde a derrota nas eleições de 2018 e sem a presença física de seu maior líder, “batia cabeça” sem avançar para qualquer lado, Lula elevou o tom de suas críticas ao governo atual, apontando de forma transparente as pautas que deseja enfrentar para recuperar o espaço perdido pelo PT, que no último domingo reelegeu a deputada federal Gleise Hoffman como presidente de seu diretório nacional, com o apoio do ex-presidente.

O maior desafio de lula é unir as principais lideranças da esquerda, já para as eleições municipais de 2020, como Fernando Haddad em São Paulo, Marcelo Freixo e Lindbergh Farias no Rio de Janeiro, Manuela D’Ávila em Porto Alegre e Flávio Dino em São Luiz. Mas, e Ciro Gomes, do PDT? Esse parece não mais aceitar figurar em segundo plano e, apesar da inquestionável habilidade de articulação do ex presidente, o conhecido temperamento de Ciro apresenta um elevado grau de dificuldade para alinhamentos que não o favoreçam.

De outro lado, Bolsonaro, com preocupações que vão além das próximas eleições, enfrenta baixas importantes em seus quadros, tendo buscado, através de ações diretas, manter o diálogo com seu eleitorado, enquanto enfrenta crises, como a do PSL.

O maior desafio do atual Presidente é fazer com que o partido que já está sendo criado, Aliança pelo Brasil, tenha condições de disputar as eleições municipais de 2020, o que não parece fácil, principalmente após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidir pela impossibilidade de assinaturas para sua criação por meio eletrônico. Outro desafio, são os alinhamentos de Bolsonaro no Rio de Janeiro e São Paulo, em virtude seus filhos, Flávio e Eduardo, respectivamente.

A bipolarização entre esquerda e direita tem abrido espaço novamente para o chamado “centrão”, que de olho nos movimentos e nas eleições 2020 e 2022, vem ganhando novos adeptos como os governadores João Dória e Wilson Witzel, tendo sido eleitos na onda e discurso de Bolsonaro, e agora, já olhando por detrás dos montes, concentram-se no campo central, oscilando apoio e críticas ao presidente, de acordo com seus interesses e posição do eleitorado que pretendem atingir.

Enquanto isso, com a decisão do Supremo Tribunal Federal, que revogou a possibilidade de prisão após condenação em segunda instância, Câmara e Senado buscam o melhor caminho para aprovação de um texto legal que possibilite tal medida, a fim de atender ao forte clamor popular. Creio que a proposta do senado, intermediada pelo presidente Alcolumbre e pelo Senador Rodrigo Pacheco, ambos democratas, seja o caminho mais curto e eficaz.

JOÃO PAULO CASTRO FERREIRA é advogado, vereador na cidade de Carmo do Rio Claro e secretário da Comissão Especial em Defesa dos Municípios do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil .

A BIPOLARIZAÇÃO ABRE ESPAÇO PARA O “CENTRÃO”