Opinião: As forças armadas e a nova caserna do Planalto

19 de fevereiro de 2020

Historicamente, as forças armadas brasileiras sofreram grandes dificuldades para se firmarem como tal e criar uma identidade própria, a partir da independência do Brasil de Portugal, em 7 de setembro de 1822. Para se constituírem de portugueses, que detinham “know haw” militar, seria uma afronta à nova nação brasileira que ora desabrochava em rebento. Para serem genuinamente brasileiras, careciam de profissionalismo, equipamento, organização, funcionalidade, recursos financeiros e até recursos humanos, ante o analfabetismo dominante da população. A Marinha um pouco mais avançada, por assim dizer, era quem conseguia dar um pouco mais de suporte ao governo, principalmente no conturbado período Regencial (1831-1840), quando inúmeras revoltas eclodiram pelo país.

E assim foi até 1864 quando, premido pela Inglaterra, da qual éramos vassalos de primeira hora, o Brasil se viu obrigado a declarar guerra a uma ‘potência’ que ora se despontava na América do Sul, codinominada Paraguai. A potência hegemônica da época, a Inglaterra, uma espécie de Estados Unidos de hoje (nosso suserano), não permitiria uma nação com o mínimo de desenvolvimento como o Paraguai contemporâneo, que tinha até “ferrocarril” (trem de ferro). Para essa missão fomos escalados pelos suseranos (ingleses), para destruir o ‘império’ vizinho. Só que o Brasil não contava com a capacidade do inimigo, o que nos levou à acachapantes derrotas iniciais. Até porque nosso exército, em grande parte, era constituído de negros escravos que foram recrutados compulsoriamente para a guerra, sob a promessa de libertação, caso voltassem vivos. Dos poucos que voltaram quase nada de liberdade; foram enganados, como era de se prever.

Após o coro levado inicialmente pelo Brasil, este teve que se unir à Argentina e ao Uruguai, que se prestaram também a esse serviço, para não só derrotar como massacrar indiscriminadamente os paraguaios, que, ao final, já combatiam descalços, esfarrapados, esfomeados, sendo que boa parte deles já eram constituídos de crianças.

Dizimando dois terços da população daquele país, as forças armadas brasileiras encheram-se de brilho e brio e passaram a exigir do Imperador D. Pedro II, um lugar de protagonismo. Armados dessa roupagem de vencedores, se sentiram tão incensados que se julgaram no direito de botar para correr o Imperador, em 1889. Se D. Pedro II tivesse armado de pelo menos uma caixinha de “trak”, daquelas do ‘Michel’, seria ele que teria corrido com aquela desorganizada tropa de sediciosos. Todavia, como o Imperador era ainda mais bundão que eles, deixou passivamente que se lhe tomassem o pirulito, quer dizer, o poder.

E assim continuaram, principalmente o exército, sem saber muito bem a que veio, passaram pela Revolução de 1930, sem saber o que fazer, até que em 1944 foram convocados para a nobre missão de combater o nazifascismo na Europa. (na Segunda Guerra Mundial). Aqui, até que mandaram bem, não obstante estarem sob o comando dos Estados Unidos, combaterem na Itália fascista já vencida e com seu líder, o ditador Benito Mussolini, já linchado em praça pública pela própria população. Mas, restavam ainda um bom número de alemães nazistas que tentavam, apesar do fantasma da fome que os assolava, combater os aliados em território italiano. Nessa guerra, prestaram muito bom serviço as tropas brasileiras.

Com o retorno da Europa, novamente os militares se sentiram protagonistas da política, ajudando a pressionar o ditador tapuia, Getúlio Vargas, a renunciar. Agora, o problema é que gostaram da derrubada do presidente Vargas e, em 1956, vislumbraram a possibilidade de não deixar tomar posse o presidente eleito, Juscelino Kubitscheck. Foram frustrados, ironicamente, por alguém de suas próprias fileiras, o marechal Lott, candidato perdedor daquelas eleições, que abortou o golpe militar. Aliás, golpe que continuou latente até 1964, quando os militares lograram êxito na derrubada do então presidente da República, João Goulart. Aí assumiram o poder, com todas as consequências nefastas que se sucederam com seu governo ditatorial, não obstante algum energúmeno hodierno advogar sua volta. Desmoralizados como governantes, os golpistas militares tocaram o clarim da debandada em 1985, depois de histórica surra eleitoral à qual foram submetidos. Finalmente recolheram-se à caserna, às suas funções constitucionais, todavia cheios de rancor, como se não fossem eles os únicos culpados de sua bancarrota.

Entretanto, mesmo nesse interregno constitucional, sempre estiveram à espera de nova oportunidade. Sabedores de que pelas vias golpistas o tecido conjuntural não se lhes figurava favorável, viram na ascensão do militar da reserva, o capitão Jair Bozonaro, ao qual, por não o tolerarem antes, só aderiram de última hora, nova oportunidade de protagonismo da farda verde oliva, desta vez por uma senda que não era muito de seu feitio: a administrativa. Assim, todos os cargos de ministros hoje, da recém transformada caserna, o palácio do Planalto, estão ocupados por eles, para júbilo do presidente Bozo. Nem na ditadura militar aconteceu isso.

Deus salve o Brasil! Doravante, só Ele sabe o que pode acontecer.

NORIVAL BARBOSA é aposentado.