Opinião: Abaixo o retrocesso

11 de novembro de 2019

Na categoria de microempreendedora individual, a comerciante Lourdes está chateada com a situação do país. Para quem quiser ouvir e botar interesse, diz que isso de carne barata nos supermercados e similares é pura enganação. Barateiam a carne de caso pensado e sobem o preço de outros produtos. Aprendeu que é chamariz. Método dos atrativos, na origem a isca.

Nem sim nem não, fica-se no meio termo. No conjunto da obra e dificuldades, há quem não aprove as promoções a preço baixo ou de qualquer outra espécie. 

Um conhecido do ramo da construção civil está desempregado há mais de ano. Pergunto por quê, ouço o inevitável: ‘não me pagam o que cobro, então deixo de pegar o serviço’. Cada um sabe, ou devia saber, onde o calo aperta.

Circunstâncias nada propícias, desemprego em massa, questiona-se se não é hora de rever posicionamentos, fazer correções de rumo e abrir flancos para possibilidades no campo da flexibilização. Mas de forma racional, não de afogadilho.

Há que se indagar o não entendimento dos enunciados no mundo da racionalidade. Como a questão do incentivo ao microempreendedor com carga tributária reduzida. Entre o segmento zero em nível de ganho salarial e remuneratório, se abaixe e se adeque o momento por que estamos passando ao pão que se deve estar e permanecer na mesa de cada dia. 

Em decorrência, evitar dissabores ainda piores, abaixando, por igual, o ganho de cada trabalhador nas atividades laborais. Entre o desemprego a ganho zero, melhor o trabalho a um preço razoável. Ora, pois!

Senão, vejamos. O mar não está pra peixe. E tanto é verdade, os rios também não. Dias atrás, ao visitar o município de Iguatama, em trecho antes caudaloso do Rio São Francisco, fiquei pasmo. Sem água e nem peixes. 

Não faz muito, pescadores amadores e de carteirinha, faziam a festa com o fluxo de curimatãs, piranhas, bagres, mandis, surubins e noutras épocas, o pintado. Tudo na era pretérita. Particularidade do era uma vez.

Lastimável os dias de agora, com escassez de tudo, em grande escala a violência, como também a falta de vergonha de nossos agentes políticos. Falam mais do que a boca permite, e não fazem por merecer os nossos respeitos.

No setor de hortifrúti, os preços estão até razoáveis. Mas e o “l'argent”, dinheiro que é bom? À cabeça de bacalhau, o gato comeu.

Pior mesmo ocorreu com um amigo até então no mar de rosas. Viagem planejada para o exterior, com família e tudo. Toma-se conhecimento agora de que foi dispensado do banco. 

Há quase trinta anos respondendo pela gerência, de uma hora para outra desempregado. Situação indigesta.

Num desabafo pesaroso, segredou a amigos: “vou fazer o que agora?” 

De fato, não aprendeu outra coisa nos últimos tempos senão a praticar as sórdidas mentiras do mundo comercial. Usar de desculpas esfarrapadas. Vestir-se de gerente de uma instituição financeira, e a contragosto, falsear a verdade. Usar de artifícios em nome de operações lucrativas de uma agência que muito cobra e exige de seus comandados a prática de melhores resultados. Tudo em nome de lucros, lucros… E lucros a qualquer preço. Dane-se o elemento humano. 

E tome sorriso amarelo, constância no cargo e função que ocupa aquele que forçosamente desempenha vendas de serviços não interessantes ao público-alvo, as chamadas “vendas casadinhas”.

Foi mais fundo e sincero ao dizer: o que mais o constrangia é que a agência na qual trabalhava empresta dinheiro a juros subsidiados exatamente para quem não precisa. Pequenas empresas, microempreendedores, pessoas físicas com capital do medo, não têm como se valer de apoio nas linhas de crédito.

A resposta de seus superiores hierárquicos era sempre a mesma: emprestar a quem tem patrimônio e liquidez. Para os necessitados de aporte financeiro, não! E isso o angustiava.

Assim sendo, Lourdes tem razão. As carnes dos supermercados estão relativamente baratas. O que está nas alturas é a força resultante no trato do comércio. E fora de controle as palavras ditas e proferidas. E não se pode proclamar que nesse quesito tem jeito. Fica difícil.

Vamos continuar otimistas, acreditando em melhores dias para a sociedade brasileira, porém com os pés fincados no chão. 

Dispensável o uso da força, o vilipêndio do retrocesso, o poder das cinzas. Nada disso é preciso para sairmos do atoleiro em que estamos metidos até o pescoço.

E tomara, mil vezes tomara, que o país acione algum dispositivo e melhore as condições de vida do seu povo. Pelo menos para que possamos declarar: o Brasil tem jeito, sim! 

Imprescindível é fazer mais e falar menos. Está ficando insuportável o que a família ‘Frankenstein’ anda urdindo. Cada dia falando mais pelos cotovelos. Depois brigam com a imprensa. Atacam a imprensa por nada.

O que se vê e ouve nos últimos tempos, na lembrança um single de 1973, número 1 nas paradas de sucesso (Dalida & Alain Delon), em francês: “Paroles, Paroles”. Ou, simplesmente: “palavras, palavras”.

No amplo direito de usos e costumes, a rapaziada de hoje gosta de proclamar aos céus: “vai dar ruim!”

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado trabalhista e previdenciário, com escritório em Formiga, escreve aos domingos nesta coluna.

IMPRESCINDÍVEL É FAZER MAIS E FALAR MENOS