Opinião: A última valsa

9 de março de 2020

A não fugir das homenagens do encanto, o término do relacionamento de um casal devia ter o mesmo aceno do carinho e o pudor do primeiro encontro. Ou não?

A não fugir da delicadeza do ato, o mesmo zelo do primeiro abraço e decerto a mesma ternura e meiguice do primeiro beijo, com direito a expectativas palpitantes do momento.

O lirismo de que fala Vinícius de Moraes nas delícias de Soneto de Fidelidade (Poemas, Sonetos e Baladas, 1946) “Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”.

O curioso é que isso no geral não acontece. No reverso, é um crepitar de fortes emoções negativas, voltadas para um mal que jamais, por desventura, em hipótese alguma se aventara.

O sentimento das perspectivas e possibilidades dá azo e vez a conturbadas atitudes, palavras ácidas, com o furor de quebras e fraturas de corações, os quais, antes, devotados ao sublime de rumos certos e, mesmo quando incertos, na esteira certa da compreensão de imorredouras paixões.
Em vez da quebra de decoro e o desrespeito para um término feliz, ainda de todo não eloquente, o melhor a fazer em fechamento de ciclos, é cada um seguir o seu caminho, na paz do desejável, ainda que não haja a prevalência verbalizada de votos tais.

E dentro do possível, sem refregas, brigas em razão (sem razão) de ressentimentos e decepções por atritos criados na frieza do desalento da separação, bem diverso do fator entendimento, num natural desfecho de um caso de amor que ficou para trás, com direito a sonhos de talvez.

Na explicação assimétrica para o dia a dia, ao invés da rescisão pura e simples de um contrato cuja substância em tese seja o amor prometido, senão o amor maior, resultando num coração alquebrado, partido, despedaçado, dilacerado, por uma dor sem nenhuma razão de ser, que, na sorte da desesperança, sem nenhuma serventia.

Quando se pergunta: terá sido amor de verdade? Com certeza, não. Amor verdadeiro se sobrepõe às desventuras de meras e banais discussões de pontos de vista diferentes, porquanto relevante a celebração da compatibilidade acima da tão acionada química epidérmica. Superior até mesmo às diferenças de olhares enviesados do cotidiano.

Isto explica, em parte, o fim de um relacionamento, já que no todo se sabe do inexplicável distrato como qualquer outro. Com a sabedoria e necessidade do ato praticado, quando tudo parece apontar para o pior, ou, talvez, diversamente do que se pretendia.

Mas querem saber, melhor é terminar bem o que não tinha absolutamente nada para se iniciar na ventura do bem. E ponto final, ainda que reticências teimem atropelar esse modesto ensaio, extraído da alma de uma para tantas outras almas para nível de reflexão.

E aos adeptos de um adeus sem melancolia, é se valer de uma belíssima página musical: “La Dernière Valse”, na voz e interpretação de Mireille Mathieu, para mim e para muitos, a sucessora de Edith Piaf.

Então, no compasso melódico se faça de ‘A Última Valsa’ um pequeno grande instante para o que ficou e se perdeu no tempo das paixões mal sucedidas. Mesmo porque “posto que é chama”, nada dura para sempre.

Nesse caso, entre tantos outros similares de infortúnios amores vãos – e muitos literalmente se vão – é aceitar o processo na irreversibilidade do término. E, por que não, estabelecer torcida para que o mundo se vire no modismo real de que a fila deve andar para o bem de todos, a evitar assombros e atropelos.

Não se descuidando de mencionar que toda separação gera traumas. E no processo, acaba por se transformar em males como depressão e ansiedade, independente da forma do desligamento.

Entretanto, um pouco de lirismo na melancolia, apreciável até na referência, é a bela canção francesa ‘A última valsa’.

Os últimos passos, em passe de mágica, podem fazer-se no mundo agridoce, douradas e ricas passarelas de uma plêiade de incontáveis favas de mel para belos luares de muitas estrelas.

‘La Vie En Rose!’.

E se a vida não transformar-se em cor-de-rosa, se oportunizem revoadas de pássaros em tempo real. Lembrando que a chama, no campo das possibilidades, poderá arder novamente. No bom sentido, é claro. Afinal, uma pessoa quando está apaixonada arde em paixão submetida.

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado trabalhista e previdenciário, com escritório em Formiga, escreve aos domingos nesta coluna.