Opinião: A fala e a escrita

2 de março de 2020

Convidado a ministrar palestra numa escola pública, depois de agradecer pelo convite, indaguei aos diretores sobre o que gostariam que discorresse. Tema, assunto, matéria. O desafio estava por vir.

 –”Sobre o ato de escrever”. –o que delimitaram. Talvez pela minha ocupação em textos livres em jornais, revistas e redes sociais.

 

A princípio, não me ocupei de preparativos especiais. Lembrei-me, então, de uma questão básica, que é a forma da escrita. De ordinário, o que me veio à mente.

 

Ora essa! A escrita é a representação da palavra, do que pensamos, sentimos e passamos adiante, através de símbolos para a expressão de ideias, sejam concretas ou abstratas. Uma conquista da sociedade humana através dos tempos.

Lá fui eu. Comecei dizendo à plateia (alunos, professores e autoridades presentes) que é muito mais difícil aprender a escrever do que a falar.

Nessa, com certeza, descobri a roda e a pólvora, juntas. E uma bela macarronada, à parte.

Por outro lado, embora muitos saibam escrever com boa qualidade técnica, nem sempre conseguem retratar com fidelidade certas emoções. Como descrever, por exemplo, o prazer, o medo, a ira, a paixão, a aflição. Inconfessavelmente, complicado.

Diante disso, o gênero humano dispõe de muitas habilidades. Mas, sem sombra de dúvida, a arte de escrever é uma das mais bonitas, ao tempo que das mais difíceis e espinhosas.

Há provas da existência de nossos antepassados que nos legaram toscos desenhos feitos e trabalhados em ossos, mas nenhum de qualquer espécie de escrita.

Pelo sim e não, a escrita, na realidade, é a mais maravilhosa invenção de todos os tempos.

O que acham que “acharam” da minha palestra?Abrindo mão da moderação: maravilhosa! Fui aplaudido de pé! Isso mesmo. De pé, com todas as honras a que não tinha direito.

Então passam por férteis cabeças que recorri a postulados de gênios da humanidade como Albert Einstein, Leonardo da Vinci, Descartes, Sócrates, Platão, Aristóteles, Sêneca, entre outros grandes?

Que nada! A pedra fundamental, a pedra-de-toque do modesto trabalho que de bom grado atendi, numa esperteza ao estilo Zeca Pagodinho, é que dediquei 20 minutos da palestra à escrita, sim, e os demais 40 minutos, a futebol, pagode, funk, hip-rock, rap, forró, músicas dos universitários, piadas de salão, e coisas do gênero “nada a ver com a escrita propriamente escrita”.

Foi o que deu para fazer e inventar. E a vida continua. Dando mostras de que é bela, vai continuar bela, e valendo a pena ser vivida.

E numa filosofia pra lá de boa, é que, assim como as nuvens, a vida hoje está de um jeito, amanhã de outro… Quem sabe nem mais estará se mexerem tanto com a natureza e com o ambiente no qual vivemos.

Isso também quando o céu de brigadeiro ceder espaço para rancorosas nuvens escuras para azucrinar e aumentar as angústias pelas quais não raro passamos.

Cada coisa esquisita! A moda agora é o Coronavírus. Família não bem-vinda de vírus que causa infecções respiratórias. E as palavras, a fala e a escrita, interdependentes dos pulmões e adjacências, como ficam?

Muita gente agora correndo até mesmo de afagos, beijos e abraços da economia chinesa. Quem entende?