Opinião: A degradação das redes sociais

12 de dezembro de 2019

As eleições municipais do próximo ano experimentarão, pela primeira vez, o impacto das mídias sociais, já que em 2016 não tiveram o mesmo poder que hoje parecem ostentar.

Se por um lado, a possibilidade de ampliação das comunicações entre pessoas e grupos é uma grande evolução para a democracia, é verdade também que a poluição das fake news, dos comentários irresponsáveis e de personagens fictícios produzindo inverdades, pode interferir de forma negativa e conduzir e mascarar os desejos da população.

Fica claro que a divisão política existente fez nascer um novo grupo que apoia o presidente Bolsonaro, mas que é um verdadeiro arremedo do grupo do PT, praticando o mesmo fanatismo e a incapacidade de reconhecer erros de seus idolatrados ou de vislumbrar qualidade em seus opositores. Estamos vivendo uma guerra de iguais, séquitos de personagens diferentes e isto é cruel e nos leva à banalidade política em um momento que precisamos consolidar nossa tênue democracia.

Cito como exemplo o projeto de lei de prisão após condenação em segunda instância aprovado pela CCJ no Senado esta semana: a aparente vitória dos moralistas de plantão pode se tornar o maior de todos os engodos e apontar resultados absolutamente pífios. É mais ou menos a história do cachorro latindo atrás de um automóvel que, ao ver o veículo parar, vai embora desapontado sem ter o que fazer.

A sensação de que a modificação no dispositivo de nosso Código Penal será a grande arma para punir criminosos que insistem em assaltar dinheiro público é completamente desalinhada com a realidade da tramitação dos processos judiciais.

Analisemos o caso do ex-governador FDP (Fernando Damata Pimentel): os fatos apurados se referem ao tempo em que foi ministro, iniciado em 2011, portanto há quase 10 anos e somente agora houve condenação em 1ª instância! Até a apreciação em segunda instância, muitos anos se passarão e com a contagem da prescrição avançando. Se o que queremos é que o ex-governador fique preso 1 ou 2 anos, então tudo bem! Mas as prescrições dos supostos crimes cometidos poderão se verificar bem antes da tramitação e o réu ficará livre das questões criminais e patrimoniais, sem que até mesmo o mérito seja definitivamente julgado.

Não seria muito mais razoável que o Brasil se conscientizasse de que o problema reside na lentidão do Judiciário por inúmeras causas, a maior delas certamente a infinidade de recursos meramente protelatórios em busca da prescrição da pena? Mas as redes sociais e até mesmo parte da imprensa construíram um cenário diferente e o mais grave, personalizado no caso do ex-presidente Lula, como se tal personagem fosse a causa de todas as nossas mazelas. Personalizar um problema tão sério, agindo em razão da comoção de momento beira a total irresponsabilidade. Reforma do Código Penal e do Judiciário é a grande discussão que não atrai as redes sociais e como resultado veremos os criminosos impunes, divertindo-se com a inocência incauta de nossa gente.

Agora já começam os rumores com relação ao próximo pleito. Se nas eleições gerais do ano passado os desenganos imperaram na internet, imagine agora que as discussões serão em nossa cozinha. Intrigas, factoides e até mesmo crimes eleitorais serão fatos corriqueiros e o eleitor, já enojado com os políticos, qual atitude deverá tomar? Lamentavelmente eu presumo que muitos se deixarão levar e serão fatalmente contaminados com publicações nem sempre reais, mas sempre direcionadas a um objetivo ou a favor de um grupo ou candidato.

Restará a saudade dos comícios, das conversas e caminhadas pela cidade, dos programas de governo e do contato corpo a corpo dos candidatos.

Gilberto Batista de Almeida é engenheiro eletricista e ex-político .