Leitor: Outra obra extraordinária

9 de janeiro de 2020

                                                Outra obra extraordinária             Quando li a resenha de “História da solidão e dos solitários” em meados de 2019, fiquei plenamente tentado a me entregar a suas 491 páginas, pois o próprio título já indicava um dilema que acompanha o homem desde os primórdios de sua existência, a ambiguidade entre convivência e solidão.Seu autor é Georges Minois, um professor e historiador francês nascido em 1946. Suas obras consistem em ensaios sobre história das religiões, das sociedades e das mentalidades, especialista que é em tais áreas.Um mero olhar ao índice de “História da solidão e dos solitários” torna-se suficiente para aguçar a curiosidade do leitor. Ali já é possível perceber que Minois estende seus estudos entre a Idade Antiga e os tempos atuais. Os capítulos distinguem, de maneira clara e em ordem histórico-evolutiva, os dramas e dúvidas a respeito da solidão num mundo que sempre a condenou por considerar o homem um ser social.Além do tema em si, a obra se constitui em volumoso guia de informações a respeito de tantos nomes que deixaram seu legado na história. O vasto passeio abrange membros do mundo religioso como São Bento, São Jerônimo e Santo Antônio; filósofos gregos como Platão e Aristóteles; os latinos Sêneca e Horário e os estudiosos, escritores e pintores que marcaram época na Idade Média, no Renascimento e no período entre os séculos XVIII e XXI.Há capítulos que estabelecem, em especial, os pontos de vista de outros nomes de peso como Voltaire, Rosseau, Pascal, Diderot, Victor Hugo, Descartes, Albert Camus, Sartre, Octavio Paz, Freud, Kafka e Tostoi, apenas para ficarmos nestes mais conhecidos.Não obstante, há inúmeros outros nos quais se baseia o autor para nos trazer à luz os eternos conflitos entre sociabilidade e solidão humanas, inclusive os vários exemplos sobre os eremitas que perambulavam pelos desertos e a história de abades, freiras e padres.Para ampliar o panorama, Minois avança não só pelos pensamentos filosóficos e religiosos do tema, mas por suas causas e consequências de níveis psicológicos, biológicos e sociais, ao nos expor problemas também inerentes ao mundo solitário, como o das prisões, o sentimento de misantropia, a depressão e até os altos índices de suicídio que já ocorriam em séculos passados.O historiador procura sempre demonstrar os dilemas entre o homem gregário, social, que necessita do convívio alheio, e, por outro viés, seus ímpetos de estar só, em sua solidão única, íntima, talvez incomunicável e incompreensível a terceiros.Percebemo-nos, assim, totalmente absortos pelo brilhante tratado, que nos apresenta os paradoxos entre convivência e solidão que já nutriam a consciência dos referidos eremitas e santos que buscavam no isolamento do deserto o verdadeiro encontro consigo próprios.Como conciliar, pois, um mundo que estimula em excesso os contatos, sobretudo hoje, em razão das ferramentas virtuais no século das massas, mas que, ao mesmo tempo, nos escancara nossa própria solidão, é algo que continua muito presente entre nós.No transcorrer da obra, Georges Minois explora ao máximo as relações entre mundos e circunstâncias diferentes e, desta forma, nos expõe as múltiplas faces da ambivalência entre conviver em sociedade e estar só.Podemos enfim concluir que ambos os estados, a vida em sociedade e estar solitários em muitos momentos, possuem valores inestimáveis, cada qual a nos oferecer sua parcela de importância, cada qual a nos exigir a profunda e não menos árdua busca de nós mesmos perante situações díspares, cada qual com suas características positivas e negativas.Podemos concluir ainda que, muitas vezes, estamos sós em meio à multidão, ou que, mesmo isolados, não conseguimos nos encontrar intimamente, justo pela falta do importante olhar alheio que nos baliza o comportamento.São tantos os exemplos e raciocínios apresentados, que se torna evidente a profusão de análises que emerge de tão extraordinário relato. Quem se aventurar por suas páginas, há de o perceber. Inegável que sua leitura nos amplia nos amplia a capacidade de refletir sobre essas questões próprias de toda a trajetória humana.Segundo Minois, o velho “homo sapiens” transmuta-se, ao longo dos séculos, em “homo communicans” (o homem comunicador). Um homem que tudo pode comunicar ao mundo por meros cliques tecnológicos, mas que continua a sofrer os mesmos conflitos de séculos atrás.“…a tela do computador ou do telefone, mais do que uma janela para o mundo, é um espelho, no qual bilhões de Narcisos se contemplam. A nova solidão se chama comunicação.” (pági. 491)Alberto Calixto Mattar Filho escreve quinzenalmente, às quintas, nesta coluna ([email protected])