Leitor: Gerações de passenses sob as asas de uma mulher

8 de janeiro de 2020

Li há alguns anos sobre Piaget que ele, um dia, descansando em sua casa em Genebra, após anos e anos de vida profícua, vislumbrou, à distância, as janelinhas de um presídio e ficou pensando com seus botões que, naquele momento, algum aluno seu poderia, na ponta dos pés, estar tentando ver o que lhe permitia aquele espaço exíguo e lhe veio à mente um certo desconforto que logo desapareceu quando se conscientizou do que fez pela vida toda.

 

 Nos meus quase quarenta anos na área da docência e direção de escolas também perscruto meus momentos com a juventude e fico muito à vontade com meu trabalho quando me lembro que tentei imitar um ser muito especial: a minha parteira e de todos os meus irmãos: Dona Margarida Tomé.

 

Se não houve a possibilidade de se dedicar mais à docência foi porque o País coloca em segundo plano a Educação, sendo até ultrapassado por uma Coréia do Sul, hoje décadas à frente.

 

Todavia como a tomei como um dos parâmetros de vida? Simples; pela observação de sua postura quando assomava a porta de nossa casa em minha querida Passos, de imorredouras lembranças, e saía, tão silenciosa quanto chegara. Sempre bem penteada, com seus óculos de aros redondos, com seu semblante enérgico, temperado pela mansidão de seus olhos, com seus passos firmes que a levavam direto ao quarto da parturiente.

 

Não adentrava a casa nem expansiva demais nem com a aparência meio trágica ou autoritária, mas apenas com a seriedade e serenidade que o momento exigia.

 

Rondando o quarto, não se ouviam altercações, exclamações, apenas diálogos reconfortantes entre minha mãe e ela, além de incentivos desta para que a criança viesse ao mundo.

 

Li vários encômios e trechos biográficos que um ser cativante, apaixonante e de muito magnetismo me emprestou; sua neta homônima.

 

Percebi, pelo que li, que não havia um testemunho do quanto ela influenciou a vida de pessoas, especificamente, no seu dia a dia. A partir daí, comecei a me lembrar mesmo de quando acompanhava minha mãe até seu consultório na rua Pres. Antônio Carlos, 91. Ao chegar, entrava com minha saudosa genitora, dona Terezinha, e permanecia sentado numa cadeira que, de tão alta, meus pés mal alcançavam o chão. Logo em seguida, era convidado a se retirar, certamente para os exames genicológicos de praxe. Saía sem ouvir uma palavra sequer, apenas gestos firmes, indicando a outra sala ou, se as havia, entendia mais pelos gestos do que pelo som.

 

Tenho o privilégio de ser um dos netos do chauffeur (como ele gostava de ser chamado) Sr. Otaviano Pereira da Fonseca, o Dinho para a família, cujo carro, um fordinho 29, serviu, centenas de vezes, para conduzir dona Margarida no seu afã, no seu empenho, no seu apostolado pela cidade e arredores, seja distribuindo palavras de conforto e sabedoria para jovens parturientes, seja revendo e apoiando mães no seu segundo ou mais partos. Começou seu apostolado em 1900 e encerrou-o em 1968, quando comecei a trabalhar na Rhodia – Divisão Têxtil em Santo André.

 

Dona Margarida Tomé faz parte dessas mulheres do fim do século XIX e início do XX que resolveram ultrapassar as barreiras impostas aos seres femininos para servir como exemplos de que elas não se prestam somente à maternidade, à vida doméstica, mas também às Ciências, às Artes, à Politica, entre outras.

 

No seu tempo, causaria estranheza ter como parceiro fiel, nos deslocamentos obrigatórios e indispensáveis, um mesmo taxista quase sempre e um doutor, sr. Fortunato Borsari, que completava seu atendimento quando havia necessidade de sua presença ou de seus recursos técnicos superiores. Nada como a retidão de vida, a dedicação ímpar e a competência para dissipar intenções malévolas.

 

De maneira inconsciente, locupletei-me com um sem número de bons exemplos dos pais, parentes, conhecidos ou que cruzaram eventualmente meu caminho em Passos e que entraram no campo de minha visão e percepção, sendo, em especial, a Dona Margarida Tomé, com toda a certeza, e às quais agradeço eternamente. Meu contato em São Paulo: (011) 97385-7474 e WhatsApp.

Wagner Cardoso Pereira – São Paulo/SP