Fonoaudióloga esclarece dúvidas sobre a gagueira

ACOLHIMENTO FAMILIAR É FUNDAMENTAL PARA O SUCESSO DO TRATAMENTO, QUE PODE DEPENDER DO ACOMPANHAMENTO DE UMA EQUIPE MULTIPROFISSIONAL

10 de dezembro de 2019

A gagueira é um distúrbio da fala em que a pessoa que gagueja pode apresentar rupturas dos sons, sílabas, palavras ou até mesmo frases durante o discurso, ocorrendo uma dessincronia entre o que é programado pelo cérebro até o movimento motor final, que é a fala. Estima-se que 5% da população sofra com esta condição que, infelizmente, pode causar situações de bullying e até exclusão social do paciente. Embora não se possa falar em cura da gagueira, com o tratamento adequado e o apoio do círculo social, a pessoa pode melhorar consideravelmente sua fala.

De acordo com a fonoaudióloga Maria Carolina Carrijo, profissional da Unimed Sudoeste de Minas, as características da gagueira não envolvem apenas as pausas e bloqueios ou as repetições de palavras durante a fala. “Movimentos corporais de forma tensionada, como, por exemplo, aperto ou tremores dos lábios e língua, elevação da sobrancelha, movimentos de esforço com a cabeça e em outros membros do corpo, fazem com que a fluência da fala, ou seja, a velocidade, coordenação e produção adequada, apresente quebras”, explica.

O diagnóstico do distúrbio pode ser feito a partir dos primeiros anos de vida, mas há situações em que a gagueira se manifesta já na vida adulta, sem que antes a pessoa tenha manifestado sintomas relacionados à condição.

 

“ Normalmente a gagueira que será persistente da infância até a vida adulta, aparece com a aquisição de desenvolvimento de linguagem, principalmente quando a criança está começando o processo de construção de um discurso mais complexo, exigindo coerência, velocidade adequada e formação de frases. Esse processo ocorre até os cinco anos de idade, quando a criança está com capacidade de produzir uma comunicação oral, igual a um adulto. Porém, é possível que a gagueira seja adquirida na adolescência ou na vida adulta, geralmente de corrente de alguma situação de trauma. Dependendo do caso, o acompanhamento com outros profissionais da área da saúde, como por exemplo o psicólogo, é de suma importância, para ajudar a lidar com as possíveis reprovações, frustrações e as vezes rejeições sofridas pelo meio social.A ansiedade e as emoções negativas podem agravar os sintomas da disfluência, pois provocam uma tensão ainda maior na musculatura da fala. Também pode haver necessidade de acompanhamento com otorrinolaringologista ou neurologista, se houverem doenças associadas ao aparelho fonador ou neurológicas associadas à gagueira”, acrescenta Maria Carolina.

A fonoaudióloga explica que atualmente existem várias abordagens para o tratamento da gagueira. “O fonoaudiólogo, fará uma avaliação específica da fluência e definirá qual a melhor abordagem a ser desenvolvida com o indivíduo. A terapia tem como principal objetivo proporcionar uma melhora da fluência, na qual a pessoa aprende a conhecer o seu processo de fala e diminuir as disfluências, possibilitando uma comunicação oral mais fluente. Além de técnicas com exercícios para controle dos movimentos motores da fala.

 

Geralmente, exercícios para as habilidades de fala, respiração, articulação dos sons, técnicas de relaxamento cervical, suavização na hora da pronúncia das palavras para diminuir as tensões e tremores musculares são algumas das abordagens da fonoterapia para a gagueira, que devem ser seguidas e acompanhadas pelo fonoaudiólogo para um resultado satisfatório”, detalha.

 

O que ocasiona esta condição?

A gagueira é ocasionada por um déficit na área do cérebro responsável pela fala. A fala necessita de sincronização entre as ações, ou seja, primeiro vem o pensamento, a respiração e por último a produção do som. Para realizar essas funções que são muitos complexas, é preciso coordenação motora, que em algum lugar nessa passagem de pensamento até o ato da fala, não está sendo efetiva.

“A gagueira pode aparecer na infância, chamada de gagueira do desenvolvimento e de forma hereditária.Provavelmente outro membro da família também apresenta gagueira. Existe ainda, a gagueira adquirida chamada de gagueira neurogênica, provocada por traumatismos cranianos, acidente vascular cerebral, na qual a pessoa perde o ritmo, suavidade e controle de fala.Por ser um distúrbio complexo, não é possível prever para o paciente se ele vai conseguir eliminar completamente a gagueira, mas temos como melhorar significativamente a fluência.

 

Não se fala em cura da gagueira, até porque a gagueira não é uma doença, mas sim um distúrbio. Sempre que o paciente chega com a queixa de gagueira, é fundamental que ele saiba de três possibilidades. A primeira é conseguirmos uma fluência quase ou totalmente nula de quebras, ou seja, dificilmente ele gaguejará, a segunda é uma possibilidade de controle maior, as vezes podem aparecer repetições, pausas, mas a pessoa consegue uma fala mais fluente e a terceira é uma gagueira aceitável onde ele gagueja em várias palavras mas diminui com as recomendações adequadas passadas pelo profissional.

 

Importante o paciente realizar os exercícios e orientações também em casa, pois nada adianta fazer o acompanhamento uma ou duas vezes na semana e não realizar em casa. Inicialmente, não podemos prever com será o resultado, mas se o paciente seguir a orientações e realizar os exercícios, ele consegue melhora significativa da gagueira, tendo uma comunicação eficiente”.

 

Maria Carolina explica que o tratamento costuma ser muito mais eficaz quando a família e os amigos da pessoa gaga promovem um um ambiente tranquilo e agradável para o dialogo.

“Ouvir a criança ou adulto com atenção, demostrando maior interesse no conteúdo do que na forma que ela fala, não corrigir, interromper ou completar a fala quando ela estiver falando. Deixe que ela fale, diminua a velocidade de fala, assim a pessoa também se sentirá confortável e tranquila mantendo uma velocidade comparada a sua, use palavras simples e faça uma pergunta de cada vez.

 

Em casos de gagueira infantil, não compare a fala dela com as demais crianças nem peça para que ela pare, respire e comece novamente. Isso fará com que ela fique mais ansiosa agravando a disfluência. Abrace, respeite o tempo de fala dela, dê atenção quando ela estiver falando,. As emoções e sentimentos podem ser fundamentais para uma resposta positiva ou negativa da fala”, finaliza.