Falsa Prenhez

Dia a Dia

8 de fevereiro de 2020

Na carteira de identidade constava o nome Alfredo da Silva, mas era conhecido por Shirley Terremoto. Assumida com todos os adereços!

Aves da noite, em bandos arrulhantes, gritinhos, trejeitos e requebros, nas calçadas, esquinas e praças valadarenses, sua “thiurma” revoava entre plumas, batons e enormes unhas pintadas de vermelho.

O silicone aumentou-lhe alguns quilinhos no peso e realçou contornos torneantes no rosto, busto e partes baixas exibidos em pantalonas esvoaçantes e blusinhas reveladoras.

Certa ocasião, em decorrência de um problema renal, o seu médico solicitou-lhe um exame de urina e lá se foi a boneca com o vidrinho cheio, bem embrulhadinho em papel marché encilhado por um laço muito bem feito em fita de seda colorida e um leve toque de perfume francês, até o laboratório do Hospital São Lucas.

Entregou-o, constrangida, à secretária que, preenchendo a ficha identificatória, cometeu o engano de trocá-la pela de uma paciente cujo material seria encaminhado para o teste de gravidez.

Não deu outra!

Dois dias depois, ao buscar o resultado, curiosa, o abre e arregala inacreditavelmente os olhos sombreados. Com todas as letras, bem claro e explícito, anunciava: “Positivo” e, numa deferência comum a estes casos, o bioquímico responsável concluia com um “Parabéns, dona Shirley, a senhora vai ser Mamãe!!!”

O coração disparou incontrolável e, antes de qualquer providência, ergueu as mãos aos céus e agradeceu, contrita, lacrimosa, a graça suprema de lhe complementar a feminilidade com um bebê.

Desandou, em seguida, ao telefone público mais próximo e gastou um monte de fichas, gritando, esbaforida, a novidade às “amigas do bando” que não perderam tempo. Nem bem se passaram cinco minutos e, em carreata festiva, vieram lhe buscar, tomando o máximo cuidado com “gestante”, cercando-a de almofadas e conselhos.

Euforia, deslumbramento, corre-corre para comprar enxoval, para atender os xiliques despropositados da “grávida”, com vontade de comer pêra argentina e “strogonnoff” às duas da madrugada. Briguinha particular entre as assaz espevitadas no momento de escolher as futuras “madrinhas”.

A notícia correu célere e a comunidade gay da cidade e região veio em romaria confirmar e, quem sabe, pegar a receita da ovulação atípica, trazendo presentes e apalpando-lhe a barriga numa pontinha de inveja.

Diante de tantos cuidados e paparicações, a Shirley deu até para sentir náuseas quando, então, as colegas resolveram buscar a assistência de um ginecologista, optando pela fama e competência do dr. Eloisio Chagas, tudo particular para não haver nem o anonimato das enfermarias do SUS.

Aprontaram-na como uma princesa, lotaram a sala de espera do médico, ansiosas, estremelicadas e queriam todas entrar na hora da consulta no que foram, contrariadamente, impedidas.

O doutor, enganado no primeiro instante, fez as perguntas de praxe, peencheu a ficha de anamnese, tirou o peso, verificou o exame de urina e mandou a Shirley para outra sala onde uma secretária a ajudaria a despir-se.

Tumulto e berros lá dentro, a auxiliar sai estupefacta, injuriada com o “balangandã” visto no lugar onde deveria estar um órgão genital feminino. Passado o susto inicial, o obstetra desfaz o engano da pretensa gestante, explicando-lhe a impossibilidade de prenhez no seu caso e custa a lhe consolar da frustração. Telefona ao laboratório que corrige o êrro da troca de urina.

 

Todas jururus, as acompanhantes se inteiram do fato, borrando as maquiagens na decepção das lágrimas.
 Uma tristeza só e uma esperança a menos…