Evocando princípios II

POR WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA

5 de agosto de 2020

Você conseguiria se erguer do chão, puxando os próprios cabelos para cima? Não sabe? Tem dúvidas? Tente! Não funciona, não é mesmo? Mas, para um personagem, deu certo. Considerado o maior mentiroso da literatura internacional, o divertido Barão de Munchausen narra, em uma de suas muitas aventuras, que, chafurdado em um lamaçal, dele conseguiu se safar puxando os próprios cabelos para o alto e, como não economizava nos exageros, o seu cavalo, sobre o qual estava montado, também veio junto para fora (‘As surpreendentes aventuras do Barão de Munchausen’).

Deixando o campo da ficção criativa da literatura, a ciência nos explica porque a solução encontrada por Munchausen não funciona na realidade, pois contraria a Terceira Lei de Newton, a do princípio da ação e reação, que diz que cada vez que um corpo A exerce uma força sobre um corpo B, este mesmo corpo B exerce uma força, de igual proporção, sobre o corpo A (“A toda ação sempre há uma reação de mesma intensidade e em sentido oposto.”).

A solução encontrada pelo Barão, excluindo a ficção literária, não funcionaria porque essa Lei de Newton pressupõe a interação entre dois elementos distintos. E, na narrativa de Munchausen, a sua ação seria autocausante (um só elemento). Para dar certo, teria que entrar em cena outro personagem da ciência e da filosofia, Arquimedes, com o seu ‘ponto de apoio’ e a sua ‘alavanca’ (“Dê-me uma alavanca que moverei o mundo.”), ou seja: sem a ajuda de um elemento externo – ponto de apoio -, o ato de alavancar-se a si mesmo nunca se realiza.

São princípios científicos, e que guardam relação, ‘mutatis mutandis’ (com as devidas mudanças e adequações), com os da filosofia, também, pois que a linguagem universal da matemática pervade todos os aspectos e espectros da vida. Não à toa, que grandes matemáticos do passado, foram, também, grandes filósofos, a exemplo de Descartes, Pascal, Euclides e muitos outros.

Buscando na filosofia uma relação com o tema, encontramos em Parmênides (filósofo grego falecido em 460 a.C.), a proposição ‘Ex nihilo, nihil fit’, expressão latina que significa ‘nada surge do nada’, ideia cujo desenvolvimento resultou, séculos mais tarde, nas Leis de Conservação da Massa e da Conservação da Energia (mais um exemplo da interação e integração da filosofia com a matemática e a física). De igual modo, até mesmo a escritura sagrada cristã reconhece, “…o que se vê originou-se daquilo que não se vê.” (Hb.11:3), em coroamento da tese de Parmênides, por afirmação do oposto. Ou seja, não há efeito sem causa.

Ao evocarmos, invocarmos ou avocarmos princípios, sejam eles quais forem – científicos, éticos, do Direito, religiosos… em quaisquer circunstância que nos encontremos e para os quais apelemos em busca de socorro para as nossas demandas cotidianas -, não nos esqueçamos de que o fazemos, ainda que de forma não consciente, alicerçados e comprometidos com valores anteriores que os validam e que, muitas vezes, desconhecemos, porque refogem à nossa consciência, por terem origem em uma instância a qual, por obtusidade, negamos conhecer, reconhecer e recorrer.

Sem eles (os valores), não sairemos do patamar da animalidade e das suas consequências que diuturnamente ‘dialogam’ conosco através dos fatos, nem sempre agradáveis, da vida.
Aproveitem a oportunidade do recesso da pandemia do Covid-19 e pensem nisso.
Saúde e paz a todos!

WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA, bacharel em Direito, ex-diretor da Justiça do Trabalho em Passos, escreve quinzenalmente às quartas, nesta coluna