Entrevista de Domingo: Edson Teodoro de Oliveira – o Edinho cabeleireiro

?No dia que me vesti de branco, eu flutuava. Fiquei em primeiro lugar tanto na Avenida Arouca quanto no clube?

26 de fevereiro de 2020

O passense Edson Teodoro de Oliveira, o Edinho Cabeleireiro, 54 anos, conheceu a magia do Carnaval ainda bem garoto, na época áurea dos desfiles das escolas Passense, Malandro é o Gato e Unidos do São Francisco, na Avenida Arouca. Seus ídolos eram os destaques Orestes Moraes Daher e Eurípedes Gaspar de Almeida, com quem, num futuro muito próximo, competiu e venceu vários anos como o melhor destaque em fantasia de luxo, tendo disputado pelas três agremiações carnavalescas. E, desde então, o brilho das fantasias faz parte do seu dia a dia. O ano que marcou o início de sua trajetória nos carnavais foi 1980, pela Passense. Este universo não saiu mais de sua vida, há quase 40 anos desfila suas fantasias quer seja montado de Drag Queen para Parada Gay, para bailes e casamentos.

Folha da Manhã – Como aconteceu a sua entrada no mundo do carnaval?

Edinho – Eu era criança e ia assistir ao desfile das escolas de samba de Passos na Avenida Arouca. Via o Orestes e o Eurípedes ‘brigando’ para o primeiro lugar como destaque. Eu falava: um dia vou desfilar e vou disputar com eles dois. Não tive oportunidade de disputar com Orestes, pois ele faleceu. Mas com o Eurípedes sim, tive este prazer. Não somos inimigos, num evento deste há a competição na hora da disputa. Tive a grata satisfação de ter vários primeiros lugares.

FM – E os concursos de fantasia de luxo, como aconteceram?

Edinho – Eu já estava vencendo vários anos seguidos e nós três participando sempre. Quando Orestes faleceu ficamos eu e Eurípedes. Minhas fantasias eram sempre inéditas, pois, além do respeito ao público eu não repetia fantasia, nem nunca houve aproveitamento do material, por não ter jeito, o material era todo colado e costurado, com armação muito bem feita. Além disso, cada ano eu escolhia uma cor. Branca, pink, rosa, azul e prata, tudo com muito brilho e plumagens.

FM – Havia disputa entre as escolas?

Edinho – Sim, havia uma grande disputa, principalmente entre a Malandro é o Gato e a Unidos do São Francisco. A Passense era ‘hors concours’ em respeito à Dona Tiana e seus familiares. As outras duas escolas tinham disputa linda, lotava a avenida. Estas décadas foram fantásticas, inclusive economicamente, pois o dinheiro ficava na cidade. As pessoas aguardavam o ano todo pelo carnaval, vinha turista de todo canto do país para assistir aos desfiles. Hoje a cidade está morta, não tem alegria, não tem beleza, não tem incentivo nenhum, não tem respeito para com as pessoas que participavam. Aí, depois que morre, vem fazer homenagem. Eu não quero homenagem em morte, quero em vida.

FM – Mesmo depois de quase 40 anos, você ainda faz fantasias de luxo?

Edinho – Sim, não parei. Há 12 anos que participo da Parada Gay, em São Paulo, sendo que em cada ano faço uma fantasia diferente para me apresentar para o público, inclusive tendo um ano que tive a sorte de o programa Fantástico da Rede Globo me entrevistar, algo que nunca imaginei, afinal, são milhões de pessoas. A fantasia estava à altura e eles enxergaram isso. Faço participações especiais em casamentos e sou convidado para me apresentar em bailes de carnaval e de outras modalidades pelo país afora. Fui, no passado, convidado para participar em Brasília e recentemente me contrataram para fazer cinco noites na capital da República. São cinco fantasias diferentes, especialmente feitas para a ocasião. Nunca deixei de participar.

FM – Você cria as fantasias?

Edinho – Elas nascem na minha alma, passam para a imaginação e eu explico para o costureiro. Para cada tipo de evento eu tenho um estilo de fantasia. Sei exatamente com que roupa ir a cada um. O costureiro que faz as minhas roupas é Ivan Soares, de São Paulo, que executa com maestria minhas fantasias. Como não sei desenhar eu falo o que quero e gosto. Gosto de bordar e colocar plumagens. Eu mesmo me produzo, inclusive a maquiagem, levando cerca de duas horas para me montar.
 

FM – Quanto pesa cada roupa? E, perde peso após o evento? Você faz preparo físico?

Edinho – Em torno de 10 quilos. O conjunto da obra é composto pela veste, esplendor, costeiro, alegoria de cabeça, bota. Costumo transportar por empresa transportadora e quando é possível levar em malas, levo. E, com relação ao peso, sim, perco. Uso saltos 15 e 20 centímetros. Confesso que ao descer do salto e tirar a roupa, muitas pessoas não acreditam que era eu. Eu meço 1,60 metro de altura, somados aos 20 centímetros do salto, mais a cabeça, ao desmontar esta figura de quase 2 metros de altura, além do brilho da fantasia, amplia o tamanho. Me agiganta.

FM – Qual o custo médio de um conjunto?

Edinho – Uma fantasia para Drag Queen fica numa faixa de R$4 mil. Não digo que é um custo, mas sim um investimento. Faço com amor. Ao longo da vida já investi milhares de dólares, certamente o equivalente para comprar uma bela casa. Tenho três armários com fantasias, pois, como não reaproveito, vou guardando. São botas, sapatos, cabeças, alegorias, tudo para uma apresentação de cerca de 5 horas interagindo com o público. Sou extremamente organizado e gosto de pontualidade em respeito ao público. Sou um artista.

FM – E o que pretende fazer com todo este material?

Edinho – Se Passos fosse uma cidade que tivesse um departamento de Educação e Cultura que não ficasse apenas no nome, se as pessoas que trabalham tivessem respeito com quem participou e fez os carnavais desta cidade, fazendo Passos brilhar na região e no país, eu deixaria todas as minhas fantasias neste local. Mas, não posso. A administração hoje, e não estou falando de político, mas Passos acabou. Tenho que sair daqui para ir a outra cidade fazer um espetáculo, sendo que em qualquer outro lugar para os quais me convidam e me contratam, é brilhante.

FM – Além dos passenses Orestes e Eurípedes quem é seu ídolo?

Edinho – O museólogo e carnavalesco brasileiro Clovis Bornay, que foi o idealizador do Baile de Gala do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Faleceu em 2005 sem que eu tenha o conhecido pessoalmente. Em todas as competições de bailes de fantasia realizadas no Passos Clube e no Clube Passense de Natação (CPN) em disputas minha com Eurípedes e Orestes, eu me espelhava no Clovis Bornay. E, ganhei vários. Feliz sempre, não pelo prêmio, que nunca cobria os gastos, mas pela beleza de vencer por aquilo que eu fazia com tanto amor e primazia. Devo muito aos dois passenses Eurípedes e Orestes, que me ajudaram muito no início. Eles me emprestavam material. Eu sempre tive um sonho: um dia vou fazer a minha, vou mostrar para o público o meu potencial. Foi rápido. Tive a sorte de conhecer Robson Reis Lemos, o Robinho, que fez umas cinco fantasias pra mim.

FM – Bailes como os do Hotel Glória, no Rio, acabaram. A que você atribui o fim destes eventos?

Edinho – Não sei se é política ou a que atribuir este fim. Os grandes eventos carnavalescos de Rio e São Paulo continuam. Não se sabe até quando, mas seguem com escolas lotadas. Algumas cidades ainda mantêm os bailes, como Rio e Brasília, não como competição, como eram antes. Quando envolvem política, a festa fica comprometida.

FM – Acha possível Passos ter de novo o Carnaval?

Edinho – Passos há 20 anos não tem mais e não vejo possibilidade de um retorno. Não é possível reerguer. Uma escola de samba hoje para sair na avenida teria que ter um investimento que não consigo enxergar a possibilidade. O ‘Bloco Deixa o Cuca Aí’ é uma realidade linda, que leva para o espaço de eventos cerca de 3 mil pessoas. Conseguiram agradar ao público, mas é organizado para ser daquele tamanho. O CPN vai fazer duas noites de festa, mas não enriquecem contratando alguém como eu que tenho tantas fantasias para apresentar. Na verdade não sei o que esta diretoria pensa, mas poderiam pensar em reerguer e fazer com que as pessoas quisessem ficar em Passos. Gastar seu dinheiro em Passos. Muitas pessoas vão para as cidades da região, Guaxupé, Muzambinho, Carmo do Rio Claro, Delfinópolis, que contam com um tipo de carnaval com shows de bandas. Não é a mesma coisa.

FM- Se fosse para traduzir em uma palavra o sentimento que você sente quando está montado com a veste carnavalesca e tudo o que ela representa?

Edinho –Flutuante. Eu trabalho sempre de roupa branca há 35 anos, por uma questão de higiene e profissionalismo. Queria então fazer uma fantasia branca. Quando me incorporo, tenho sempre a proteção de três anjos. No dia que me vesti de branco eu flutuava. Fiquei em primeiro lugar tanto na Avenida Arouca quanto no clube. Esta fantasia era um Pierrot branco, de luxo. Ficou guardada a sete chaves, criação de Robson Lemos. Desta só tenho as pedrarias, pois as penas não mantêm a mesma beleza. Quando falecer, gostaria de ser cremado com ela, mas como não está completa, não será essa. O carnaval é emocionante. Toca na alma. Me transformo quando estou vestido. Não é o Edinho, e sim, um personagem de histórias com uma energia incrível.