Entrevista de Domingo: Creide Pereira de Sousa Ponçansini

23 de março de 2020

A empresária passense Creide Pereira de Souza Ponçansini sempre sonhou em levar para as pessoas a transformação. Ela disse acreditar que veio ao mundo com esta missão transformadora tanto para sua vida quanto para a vida das outras pessoas. Viúva de Reis Ponçancini, com quem tem a filha Laura, de 23 anos, que é estudante universitária de Psicologia, ela viu seu chão cair com a morte do marido que sempre foi seu porto seguro, mas, sentiu que tinha necessidade de curar seu luto trabalhando, dando prosseguimento a uma história da qual hoje se orgulha. Formada em Pedagogia, com Pós-graduação em Ensino e Aprendizagem e também com MBA em Administração, a passense traz hoje para a Folha um pouco da sua trajetória de sucesso no ramo da educação. Aquela menina que começou a lecionar de forma gratuita no T.Maia – uma área praticamente favelizada de Passos, que não existe mais -, é proprietária do Colégio São Francisco COC, uma escola que atende do Infantil ao Pré Vestibular, com duas unidades e aproximadamente 800 alunos. Desta história ela traz como seu grande exemplo de mulher, sua mãe Odete.

 

Folha da Manhã – Você sempre atuou como educadora?

 

Creide – Sempre atuei como uma educadora. Antes de me formar, eu trabalhei em outras atividades, no comércio. Minha mãe Odete tinha uma loja e eu sempre trabalhei com ela enquanto eu estava estudando. A partir do momento que eu me formei, aí eu passei a exercer minha profissão.

 

FM – Você deu aula para que tipo de ensino?

 

Creide – Sempre atuei em educação infantil, que sempre foi meu sonho. Eu me formei na década de 1980 e logo comecei a trabalhar pela prefeitura, no programa Estudos de Jovens e Adultos (EJA) que era específico para idosos que não sabiam ainda o alfabeto e tinha também um programa para criança. Comecei a trabalhar neste programa no T. Maia – que era um pequeno cortiço -, que existia na rua Barão de Passos, no bairro Canjeranus. Era um espaço com cerca de 20 alunos, todos muito carentes. Não ganhava salário, era uma ajuda de custo em torno de R$50, em dinheiro de hoje. Me recordo que minha mãe ficava brava e dizia que não valia a pena, porque eu saía lá do bairro São Francisco, onde morava, e ia até o Canjeranus para dar aula, quase na saída para o Glória. Eu amava esse meu trabalho, era eu e mais uma cantineira, só nós duas e essas crianças. Eu levava até shampoo contra piolho e tirava os piolhos deles toda semana, tinha piolho demais. Levava comida, roupa, eles eram muito sem conhecimentos e faltava estrutura para aquelas famílias que moravam ali. Tentei fazer um trabalho de educação e hoje tem várias dessas crianças na sociedade, bem colocadas no mercado de trabalho. Mesmo sem ter salário, entendo que aprendia muito com todos os cursos que me ofereciam. Foi realmente um lugar onde ganhei muita bagagem. Eu me dedicava muito, então minha carreira na educação começou ali.

 

FM – Como surge a empresária bem sucedida, reconhecida em Passos e região?

 

Creide – Depois de vários trabalhos eu fui para Creche Mizael Ferreira da Silva, atuei também na Igreja Nossa Aparecida que tinha também um pré. O programa acabou e eu fiquei sem trabalhar. Surgiu então a oportunidade de montar a escola Moranguinho, no bairro Vila Rica. Nessa época eu já tinha o meu nome com o pessoal da Educação da Prefeitura e eu não era funcionária. Era terceirizada pelo programa Mobral, que acabou. Eu tinha muito material de pré. Eu não tinha dinheiro para montar, mas tinha muita vontade. Então arrumei carteiras, mesas e a associação do Vila Rica emprestou o local. Começamos então, eu e uma amiga, com uma turma de 50 alunos. A sociedade durou algum tempo. Vendi minha parte a ela.

 

FM – Mas logo montou outra escola?

Creide – A princípio fui trabalhar na escola Roda Viva e também na creche no Santo Agostinho, pela prefeitura de Passos como auxiliar de professora. Eu ainda seguia sendo mantida financeiramente pela minha mãe. Mas, amando o que estava fazendo. Eu trabalhava meio período com a minha mãe na loja e no outro período na educação. Trabalhei também na Escola Estadual Neca Quirino durante 3 anos em sala especial, com alunos com mais dificuldade de aprendizagem. Neste lugar tenho uma história bonita, da qual fico orgulhosa. Eram alunos de 12 a 14 anos que não sabiam ler e escrever. Eram adolescentes indisciplinados demais. Eles se identificaram tanto comigo que aos domingos apareciam na minha casa para almoçar. E, há alguns anos, uma cliente chegou para matricular seu filho no colégio COC e me disse: “Creide, você foi minha professora, sou a Juliana, talvez você não se lembre de mim. Vim matricular meu filho na sua escola, pois hoje eu posso pagar para ele estudar. E foi graças a você e sua paciência e carinho em nos ensinar que consegui me formar em Enfermagem e trabalho”. Isso faz com que tenho certeza, a cada dia, que podemos ser transformadores. Como trabalhei sempre com pessoas de condições precárias, tenho a felicidade de poder contar várias histórias iguais a estas. Sou muito feliz por isso.

 

FM – Você se considera um modelo para os alunos?

 

Creide – Sempre falo que, nós professores, temos que ser modelo e exemplo para nossos alunos. Do caráter até a forma de se vestir influencia. Não gosto que as professoras usem rasteirinha ou venham trabalhar de chinelo, nem mal vestidos, porque nós estamos sendo olhados e, consequentemente, sendo exemplos.

 

FM – A sua mãe é um exemplo na sua vida?

 

Creide – Minha mãe é um exemplo de força, de coragem. Separou do meu pai Argemiro já há muitos anos e nos criou e, mesmo antes disso, sempre foi muito dedicada, empreendedora.

 

FM – Como foi a trajetória para ter esse empreendimento que você tem hoje?

 

Creide – Eu estava trabalhando na E.E. Neca Quirino e também na Roda Viva, onde eu atuava com crianças de 2 anos e entregava aos 6 anos, quando encerrava a educação infantil. A Roda Viva não estava indo bem, mas eu não gostaria de sair e montar uma escola em local que a prejudicasse. Saí procurando um lugar para montar uma escola. Vi uma casa no centro, onde já havia funcionado o CCAA, na rua Deputado Lourenço de Andrade. Aluguei, me organizei para receber os alunos pelos fundos, por conta da escada na frente. Peguei o dinheiro que tinha na poupança, da época que ganhava R$50 por mês no T. Maia, comprei tinta, mesinhas e montei a escola. Tudo baratinho, pintei o chão, fiz minha sala, encapei, fiz cadeira e comecei a escola Lua de Cristal. Eu queria algo que pudesse chamar a atenção das crianças e ajudasse os pais. Limpava as escolas no final de semana, atendia. Meu marido me apoiava. Comecei a escola com 9 alunos e encerrei o ano com 80. A maioria era filho de alguém que havia sido meu aluno.

FM – E como foi o ano seguinte? E qual era o diferencial da Lua de Cristal?

Creide – Comecei o ano seguinte com 120 alunos e terminei com 180, não tinha mais vaga. A escola tinha um diferencial, nós recebíamos as crianças a partir das 10 horas da manhã, pois muitos pais trabalhavam nas proximidades da escola e não tinham onde deixar os filhos. No meio do ano já foi necessário contratar outra professora, pois estava sobrecarregada com a parte pedagógica e administrativa. Sempre trazia algo novo para a escola toda. Tínhamos um parque bonito, eu gostava muito de agradar as crianças, para que elas se sentissem felizes na minha escola. Tinha piscina, fui a primeira pessoa a colocar grama sintética em Passos, e a primeira escola a fazer a noite do pijama.

 

FM – E quando se mudou para o novo espaço da Lua de Cristal?

 

Creide – A procura por vaga na escola foi crescendo, então eu precisava ampliar. Surgiu a oportunidade de comprar uma área. Meu irmão Gilson, que sempre questionava se eu precisava de um sócio, nesta época se ofereceu para me ajudar. A casa onde funcionava a escola foi vendida e o proprietário me deu o prazo de 6 meses para me mudar. Eu havia recebido a oferta para comprar o terreno onde hoje é a Lua de Cristal. Fui lá ver, achei interessante, mas um espaço muito grande, cercado por arame farpado. Fui embora, dormi e acordei com a escola desenhada na minha mente. Meu irmão comprou, me tornei sócia da Marilda, esposa dele, e começamos a sociedade e as obras. Por uma coincidência me encontrei na porta do local com o arquiteto César Tadeu Elias, pedi a ele que fizesse a sugestão de uma escola, pra ontem. No dia seguinte ele me entregou o projeto. Contratei o Clever Roberto Nascimento como engenheiro e em seis meses a obra estava pronta. Fiz o projeto político pedagógico, que é bem burocrático, para montar a escola. Vendi meu carro, fiz financiamento no banco e fiz economia, muita economia. Eu precisava inaugurar com pelo menos 200 alunos pra conseguir manter. A escola lotou. Fiquei durante 4 anos trabalhando sem tirar um real. Tudo que entrava era para pagar as contas e investir na própria escola.

 

FM – E o Colégio São Francisco, como foi para abrir a escola?

 

Creide – Com o passar dos anos, consegui juntar dinheiro e comprar o terreno onde hoje funciona o Colégio São Francisco. Meu sonho desde quando montei o projeto pedagógico para o ensino fundamental era trazer o sistema COC para Passos, mas o Colégio Tiradentes da Polícia Militar usava o sistema. Então, começamos a trabalhar com o sistema FTD até que em 2007 o Tiradentes deixou de usar o sistema. Falei com os franqueadores em Ribeirão Preto e fechamos a parceria para alunos de 6º e 7º ano. Tentei ampliar comprando áreas próximas ao terreno da Lua de Cristal, não consegui, então me vi de novo às voltas com construção, no terreno da Lourenço de Andrade. Chamei o César Tadeu de novo, que fez o projeto. Já estava com o número de quase 400 alunos na Lua de Cristal e partimos para a construção da segunda unidade, o Colégio São Francisco, que atualmente conta com mais de 400 alunos. Então, as duas escolas atendem desde o maternal com alunos de 1 ano e meio até o pré-vestibular. Também temos a faculdade Estácio em sistema EAD, que já tem aprovação para presencial, mas ainda não está em funcionamento.

 

FM – E o Condomínio familiar, o prédio onde mora a família toda, veio na sequência?

 

Creide – A casa ao lado do prédio do Colégio São Francisco era de um senhor que reclamou que tínhamos prejudicado sua casa. Rebocamos, pintamos, mas ele quis vender. Então, minha mãe adquiriu o imóvel. Chegamos a utilizar a casa como base de apoio ao COC, mas, depois resolvemos fazer o prédio. O primeiro andar é da escola e também onde funciona o Café Don Francesco. E, minha mãe construiu os cinco andares, sendo um para cada um da família e a área de cobertura um espaço comum a todos.

 

FM – E, como você está sempre ‘inventando’, recentemente fez uma fazendinha na Lua de Cristal?

 

Creide – Eu adoro fazer diferente, adoro conquistar e oferecer. Sou assim desde criança. Gosto que as pessoas utilizem os espaços que proponho e se sintam bem. Então, tinha este sonho de um espaço de fazenda para que os alunos pudessem sentir e conhecer tudo sobre a natureza e a zona rural. Fizemos sim, a fazendinha, com mini animais. Lá as crianças podem correr atrás de galinhas, ver tirar o leite das vaquinhas, até ajudar a tirar o leite e ver caindo no balde formando espuma, verem os ovos se transformarem em pintinhos. Essa alegria deles para mim, não tem preço. Percebo diariamente que ‘minhas crianças’ são felizes. Sou feliz por oferecer a oportunidade que eles tenham uma infância feliz, igual à minha na fazenda.

 

FM – Qual mensagem você deixa para as mulheres no mês delas?

 

Creide – Trabalho desde meus 13 anos, vejo minha mãe que também ainda trabalha, hoje com 75 anos à frente dos supermercados, minha cunhada Marilda Medeiros, que é minha irmã e sócia. Vejo nas mulheres uma força, uma garra e todas mulheres solidárias. Penso que o homem sempre soube do potencial das mulheres, mas nos últimos tempos a mulher saiu da submissão que ela foi submetida. Então o recado é que sigam desempenhando seus papeis, sempre com respeito, que é um dos valores mais importantes. Lembrando que a mulher pode estar onde ela quiser, fazer o que ela quiser, porque nós sabemos administrar pela emoção e pela razão, a gente sabe ter equilíbrio. A mulher tem sempre a emoção e com isso ela administra de forma diferente, mais dócil, mesmo sendo firme, mesmo precisando se impor.

 

FM – Houve divulgação em redes sociais da possibilidade de você se candidatar a prefeita de Passos. Procede?

 

Creide – Vi com surpresa esta história. Eu nunca esperava e nunca tinha pensado em me candidatar. A gente é política, não tem como não ser. Mas, eu sempre quis ser apoio dos nossos políticos que representam a nossa cidade, independente de quem seja e de partido. Passos é de todos nós, lutamos por ela. Temos que ter políticos de Passos, deputados de Passos. Quando soube que estava sendo cotada, realmente foi uma surpresa. Acho maravilhoso, mas descarto. Deixo para aqueles que podem contribuir neste sentido mais do que eu.