Entrevista de Domingo: Christian Fonseca de Andrade

17 de fevereiro de 2020

Christian Fonseca de Andrade, 44 anos, é natural de Passos, graduado em Engenharia de Minas, formado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 2002. Atualmente, é gerente das Unidades de Mineração da Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), na Zona da Mata. Responsável pela operação das Unidades de Itamarati de Minas e Miraí, Gestão dos Direitos Minerários e Licenciamento Ambiental da Mineração, esse passense começou a carreira na unidade de mineração da CBA em Itamarati de Minas (MG), em 2002, atuando em um projeto de estudo do aproveitamento do rejeito de bauxita, por meio de um convênio da empresa com o Ministério da Ciência e Tecnologia. Em seguida, assumiu a coordenação de Beneficiamento Mineral e, logo na sequência, acumulou a responsabilidade pela Manutenção da Unidade de Itamarati.

 

Paralelamente às suas atividades, Christian participava também de outras iniciativas como o Projeto Integra, no qual atuou no Desenho do Modelo Global, preparando as unidades de mineração de bauxita para a implementação do SAP. Todo seu trabalho, voltado também para a preservação ambiental e o desenvolvimento social, lhe conferiu uma premiação que o deixou surpreso: foi eleito pela Revista Brasil Mineral ‘Personalidade do Ano’ do setor, na categoria metais não ferrosos. A solenidade de premiação aconteceu no fim de 2019, quando foram reconhecidos executivos que se destacaram por sua atuação na mineração brasileira.

 

Para falar a seus conterrâneos e a todos os leitores da Folha, a Entrevista de Domingo conversou com o filho de Leland Braz de Andrade e Reinilda Barbosa Fonseca de Andrade para contar um pouco da sua trajetória.

 

Folha da Manhã – Sua família é de Passos?

 

Christian – Meu avô, João Braz de Andrade, veio para a região atuar na implantação da Usina Hidrelétrica de Furnas e trouxe toda a família. Minha mãe Reinilda é passense e meu pai Leland é paulistano. Ele se formou em Passos, onde conheceu minha mãe, e seguiu carreira no Centro de Treinamento de Furnas, no desenvolvimento de pessoas.

 

Nasci em Passos e vivi minha infância e adolescência em Furnas. Retornei a Passos para cursar o 3º ano do ensino médio no Colégio Objetivo, no qual fui aluno da primeira turma. Passei no vestibular da UFMG em Engenharia de Minas e, devido à carreira, não voltei a morar em Passos, porém, sempre que posso, volto para recarregar as energias.

 

Sou casado com a administradora de empresas Michelle Ramos Fonseca de Andrade, com quem tenho a Pietra, de 5 anos, e o pequeno Noah, que nasceu no dia 15 de janeiro. Sou também pai do Henry, de 12 anos. Eu e Michelle nos conhecemos trabalhando em um dos maiores desafios de minha vida profissional: a implantação da nova unidade de mineração da CBA em Miraí (MG). Atualmente, vivemos com nossa família em Muriaé, maior cidade nas proximidades das operações da CBA na Zona da Mata.

 

FM – Como começou o projeto Miraí?

 

Christian – De 2005 a 2008, eu conduzi a implantação do projeto Miraí, em conjunto com o professor Arthur Pinto Chaves e Claret Antônio Vidal Abreu, desde a definição da rota de processo, passando pelas fases de engenharia, obra civil e eletromecânica, start-up e comissionamento, atuando, inclusive, na formação da equipe da unidade. Liderar a implantação de uma nova unidade foi um grande impulso em minha carreira profissional.

 

Como curiosidade, a CBA opera áreas de bauxita desde a década de 90 na região, possui direitos minerários em 27 municípios da Zona da Mata e, ao longo desses anos, minerou apenas em cinco municípios: Itamarati de Minas, Descoberto, Miraí, São Sebastião da Vargem Alegre e Rosário da Limeira.

 

FM – Quando assumiu a gerência e como surgiu a parceria com a universidade de Viçosa?

 

Christian – Assumi em 2008 a gerência da recém-inaugurada Unidade Miraí e, desde então, conduzo a parceria da CBA com a Universidade Federal de Viçosa, com Pesquisa e Desenvolvimento de Tecnologia nas áreas de Reabilitação Ambiental, Restauração Florestal e Conservação Hídrica em áreas de lavra de bauxita. Pesquisas realizadas pela UFV, em parceria com a empresa, são referências na área de Reabilitação Ambiental de áreas mineradas. Foi formado um grupo de professores, pesquisadores e profissionais de diversas áreas da CBA, com objetivo de buscar formas inovadoras de executar uma mineração cada vez mais sustentável.

 

Atualmente, estamos trabalhando no redesenho do nosso processo. Em conjunto com uma empresa alemã e o time de pesquisadores da UFV, nosso objetivo é levar o beneficiamento para dentro das áreas de lavra, produzir a bauxita e, também, o tecnosolo, eliminando por completo o rejeito.

 

Desde 2008, o grupo divulgou mais de 80 publicações nacionais e internacionais de artigos, teses, dissertações e livros. Como exemplo, temos uma publicação recente de um livro nos Estados Unidos na área de restauração florestal. Dois capítulos foram escritos com os aprendizados obtidos em nossas áreas.

 

FM – Mas o seu envolvimento em questões socioambientais vem de longe?

 

Christian – Meu envolvimento vem desde a infância, quando meu avô contava e mostrava seus trabalhos ambientais executados durante as implantações das usinas de Furnas. Na CBA, atuo na execução dos projetos socioambientais da empresa desde que entrei, em 2002, tais como Aumento da Recuperação de Bauxita com a USP, Programa de Educação Ambiental, Fórum de Desenvolvimento Regional da Zona da Mata – Ecos da Mata, Capacitação de ONGs, Geração de Renda e Parceria pela Valorização da Educação, entre outros, trabalhando em parcerias com universidades, ONGs e o Instituto Votorantim, braço social da Votorantim S.A.

 

Gosto muito de trabalhar com as comunidades e o meio ambiente, encaro como uma forma de construir um legado para a região e o setor mineral. Ao longo desses anos, por exemplo, já realizamos mais de 40 iniciativas junto às comunidades da Zona da Mata, sendo que cerca de 200 mil pessoas já foram beneficiadas pelos diversos projetos nas áreas de gestão pública, geração de renda e educação.

 

FM – Em novembro de 2019, foi inaugurada a nova sede da Associação Intermunicipal de Confeccionistas da comunidade do distrito de Santo Antônio do Rio Preto, em Miraí. Qual o papel da CBA nesse projeto?

 

Christian – Trabalhamos com a associação há bastante tempo. Nos últimos anos, ajudamos com apoio técnico e financeiro para o fortalecimento da associação, além de fornecer conhecimento para desenvolverem sua força de trabalho. A CBA contribuiu para a reforma estrutural completa do prédio da associação e a construção de um segundo pavimento, além de novos equipamentos para a produção. É mais um exemplo de fortalecimento da comunidade, aprimorando a cadeia produtiva e a geração de renda da região.

 

A nova sede foi reformada e ampliada por meio do programa ReDes – apoiado pela Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), em parceria com o Instituto Votorantim, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Fundo Multilateral de Investimentos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID – Fumin).

 

FM – O que tem a dizer sobre a CBA?

 

Christian – A CBA foi idealizada e implantada por um grande líder brasileiro, o Dr. Antônio Ermírio de Morais, que, com muita determinação e coragem, fez com que o Brasil entrasse no mercado de produção de alumínio, em 1955. A CBA, empresa da Votorantim S.A., produz alumínio de alta qualidade de forma integrada e sustentável, atuando desde a mineração e geração de energia até os produtos semiacabados. Com quase 100% da energia utilizada, vinda de hidrelétricas próprias, a CBA minera a bauxita e transforma em alumínio primário (lingotes, tarugos, vergalhões e placas) e produtos transformados (chapas, bobinas, folhas e perfis). Em estreita parceria com os clientes, a empresa desenvolve soluções e serviços para os mercados de embalagens e de transportes, conferindo mais leveza, durabilidade e uma vida melhor.

 

Na CBA, temos valores fortes e um ambiente de trabalho reconhecido como dos melhores do Brasil pela Great Place to Work e, também, responsabilidade socioambiental, tendo nossos produtos e nossa cadeia produtiva certificados pela ASI, norma internacional do setor de alumínio que avalia e padroniza os requisitos de atuação sociais e ambientais.

 

FM – Agora vamos falar um pouco sobre o prêmio Personalidade do Ano do Setor Mineral. Como recebeu essa notícia?

 

Christian – Confesso que foi com enorme surpresa, quando recebi a notícia, pois sou relativamente novo no mercado. Outra questão que me surpreendeu é que, normalmente, são indicados presidentes e grandes executivos das maiores empresas mineradoras. Sabemos que fomos indicados por conselheiros da revista, pessoas com vasta experiência no setor, que selecionam três nomes por categoria. A Brasil Mineral abriu a votação para os leitores e fui o vencedor da minha categoria: Minerais Metálicos Não Ferrosos. A solenidade foi realizada em São Paulo, durante o Fórum Brasil Mineral. O troféu Personalidades do Ano do Setor Mineral é a principal homenagem concedida aos executivos que se destacaram por sua atuação no contexto da mineração brasileira.

 

FM – Você atua em diversos projetos de preservação de nascentes, correto?

 

Christian – Sim. A preservação de nascentes é fundamental para a recuperação e garantia dos recursos hídricos de uma região. Nós investimos na preservação dos recursos hídricos e acreditamos que a informação é fundamental para o sucesso do trabalho. O projeto Educação Ambiental no Campo, por exemplo, realiza encontros de produtores rurais para conscientizar da importância de cuidar das nascentes e, principalmente, das áreas de recarga. A iniciativa integra o Programa de Educação Ambiental (PEA), desenvolvido pela empresa há 17 anos. A última reunião contou com a participação de mais de 40 pessoas dos municípios de Muriaé, São Sebastião da Vargem Alegre e Miraí. Tais encontros são importantes, pois contribuem para trazer clareza aos produtores rurais sobre a necessidade de conservação da água e os trabalhos de reabilitação ambiental da CBA.

 

Nosso trabalho de reabilitação ambiental das áreas mineradas também contribui para a conservação hídrica da região. A lavra de bauxita é desenvolvida nas pequenas propriedades rurais e dura apenas alguns meses ou, em alguns casos, menos de um mês. Fazemos a retirada da cobertura vegetal, o empilhamento do solo rico em matéria orgânica, extraímos a bauxita com desmonte mecânico e, na sequência, iniciamos o processo de reabilitação ambiental com a aeração do solo, adubação mineral e orgânica, implantação de sistemas de drenagem, plantio de nativas, eucalipto, pastagem, café, frutíferas, entre outros. Por fim, monitoramos as áreas plantadas por, em média, três anos, quando entregamos aos proprietários rurais.

 

Tais práticas, desenvolvidas em conjunto com a UFV, devolvem as áreas com um solo de melhor qualidade e aerado, cobertura vegetal mais densa e culturas mais produtivas, permitindo o aumento considerável da retenção e da infiltração de água no solo. Esse trabalho retorna com a atividade agrícola, anulando todos os impactos socioeconômicos da mineração e propiciando uma melhoria produtiva e ambiental na propriedade rural.

 

FM – Qual é o objetivo do projeto de Educação Ambiental no Campo?

 

Christian – O projeto tem como objetivo disseminar informações relevantes no contexto das atividades rurais, buscando conscientizar os produtores sobre os cuidados com o meio ambiente, com as nascentes e com as áreas reabilitadas. Um diagnóstico – que contou com a participação dos moradores da zona rural da região, realizado no primeiro semestre de 2018 – apontou que o tema Recursos Hídricos era importante para os produtores. Com base nisso, a CBA, no âmbito do Programa de Educação Ambiental (PEA), desenvolve todos os anos ações com o tema de preservação e de conservação de nascentes.

 

Esse projeto compõe o Programa de Educação Ambiental da CBA, que possui mais sete projetos desenvolvidos ao logo do ano com crianças, adolescentes, adultos, empregados da CBA e comunidades locais. Em seus 18 anos de atuação continuada, já passaram pelos projetos do Programa de Educação Ambiental mais de 70 mil pessoas da Zona da Mata.