Entrevista de Domingo: Célia Cristina Rocha Guimarães

9 de março de 2020

Hoje, em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, e dando continuidade à série de entrevistas com mulheres especiais, a reportagem da Folha foi recebida por Célia Cristina Rocha Guimarães no terceiro andar do prédio da Nova D, na Avenida da Moda, onde ela nos contou um pouco da trajetória desta empresária que pode ser confundida com a história da empresa. Célia nasceu em Passos, é casada com Cresone e mãe do Miguel, de 6 anos, e se diz realizada profissionalmente e pessoalmente. Ela divide seu tempo entre ser dona de casa cuidadosa, mãe amorosa e zelosa, esposa dedicada com o local em que mais gosta de estar: na Nova D e também vestida 100% com as peças, variando às vezes com roupas da Kollok, também de propriedade da família. Já chegou a trabalhar das 7h às 22h, mas após 35 anos aprendeu a ajustar o tempo de suas tarefas. E, de tudo o que lhe vem à mente sobre empoderamento feminino, é a importância de uma mulher na sua história e na de toda a família, trata-se de sua mãe Emília Rocha, a inspiração e a verdadeira empreendedora da grife – que hoje conta com fábrica e loja em Passos, Brasília, São Paulo e Ribeirão Preto -, já entrando na terceira geração do negócio familiar.

Folha da Manhã – Quem é uma mulher ídolo, alguém que você admira?

Célia – Tem muitas mulheres que são incríveis e verdadeiras referências. Minha mãe sempre vai ser um exemplo de mulher empoderada pra mim. E ela tem algo que eu não consegui. Ela só faz o que quer, eu ainda não faço só aquilo que eu quero. Mas chego lá.

 

FM – Como surge a Célia empresária do setor confeccionista e quem foi sua inspiração?

 

Célia – Eu comecei a trabalhar com 14 anos. Na verdade, minha mãe Emília começou junto com a gente. Foi ela a responsável por levar tanto a mim, quanto a Eliane aos negócios. Ela que sempre foi a empreendedora, a costureira habilidosa, e aí, quando começou a fábrica, eu entrei no setor de vendas.

FM – E você sentia que tinha dom para os negócios?

 

Célia – Na infância e até mesmo no início da adolescência eu gostava de brincar de lojinha. Hoje eu ensino o Miguel a comprar, pedir desconto. Bom, a vida toda o comércio me chamou muito a atenção, embora quando conheci o chão de fábrica, tornou-se minha paixão.

 

FM – Como uma das proprietárias da Nova D, empresa que está prestes a completar 36 anos consolidada no mercado nacional, você sabe costurar?

 

Célia – Sei, mas eu não costuro. Porém, quando começamos com a fábrica da Nova D eu costurava, entre aspas, por que nunca fui prática, e não dá para ser boa em tudo, mas se tivesse apertado, se tivesse que fazer alguma melhora, eu sentava na máquina e fazia. É a coisa de dar conta de fazer. Minha mãe sempre falou assim que, quem sabe fazer, sabe cobrar e gerenciar, e a gente acredita, porque mãe ensina. E para saber, para comandar, você precisa conhecer a dor do outro, saber da dificuldade que o outro tem, para você resolver o problema, senão não resolve. Porque é muito fácil você de cima mandar fazer e não saber como que é o funcionamento de um chão de fábrica. Então posso dizer que nasci do chão de fábrica.

 

FM – Sua mãe costurava em casa?

 

Célia – Sim. Fazia roupas para a família inteira, sempre trabalhou muito e costurava muito. Sempre priorizando a qualidade, era um serviço muito precioso, lá em casa todo mundo tem isso, porque meu pai também era assim, então a família da gente era nosso lastro.

 

FM – E a fábrica hoje é você e mais alguém da família?

 

Célia – Sou eu na área comercial, Eliane na criação e a minha mãe, que ainda trabalha. Minha mãe chega às 7h e vai embora às 19h, se for preciso, mesmo aos 72 anos. Ela se senta à máquina e todo mundo que passa aqui, passa pela orientação e pelas ‘mãos’ dela para a costura. Tem coisas que só ela dá jeito, que costureira nenhuma consegue, ela faz. Uma mulher super exigente, de linha dura, mas todo mundo que passa pelo aprendizado com ela e se torna excelente profissional.

 

FM – A Nova D é uma das empresas pioneiras na Avenida da Moda?

 

Célia – Do setor confeccionista passense não, existem e existiram outras empresas pioneiras de destaque, porém, somos da primeira leva que acreditou no potencial da Avenida da Moda. E nem fomos das primeiras a nos instalar aqui. Já tinha gente que acreditou antes de nós no talento do corredor comercial da avenida Comendador Francisco Avelino Maia. Inicialmente, abrimos uma loja um pouco mais abaixo de onde estamos hoje. Decidimos então construir um prédio próprio para ser uma fábrica, então tem todo um preparo com tudo o que necessitávamos, que é onde estamos até hoje e devemos ficar até construir uma planta plana. Hoje é diferente, a linha de produção vertical não funciona mais muito bem, dá trabalho. Você tem que subir e descer escada. Mas é, foi feita pra ser isso, algumas coisas foram adaptadas, porque esse espaço que a gente está aqui, não era todo fabril, mas se transformou. Temos intenções de sair e ir para outros lugares sim, mas hoje não está muito fácil de fazer investimento não.

 

FM – Como é a linha de trabalho de vocês?

 

Célia – O nosso produto é desde o jeans à seda pura, passa pela malha, pela alfaiataria, por viscose e vai trazendo o produto do desejo da mulher. Nós atendemos às suas necessidades e vamos trazendo para o nosso mix.

 

FM – E a fábrica é em Passos, mas a Nova D tem outras lojas pelo país?

Célia – Temos outras lojas que vendem o produto na rede. E meus sobrinhos estão entrando no negócio, então, sendo assim, já estamos entrando na terceira geração, minha mãe, eu e minha irmã, e agora meus sobrinhos. Temos lojas em Ribeirão Preto, Brasília e São Paulo.

 

FM – É uma empresa de mulheres? Basicamente feminina?

Célia – Nossa empresa prima por mulheres, mas aconteceu de forma natural. Temos em média 70 funcionários, sendo apenas 6 homens. Não é nada premeditado, mas eu falo assim, o homem e mulher, essa rivalidade e o feminismo e machismo não tem que existir não, tem que ter unicidade. Eu mando, porque sou mandona por natureza, mas não tem outro jeito, porque alguém tem que mandar, mas não por ser ou não ser mulher, é só a função que a gente exerce, e é difícil, porque vou te falar que o homem manda mais que a mulher, porque é mais fácil para o homem mandar.

 

FM – O fato de você estar em posição de comando te incomoda ou é algo tranquilo?

Célia – Incomoda nada não, porque o sonho da gente é forte. Não incomoda porque quando você manda naquilo que você conhece e entende, é comandar. Eu acho é muito difícil você comandar o que você não conhece, mas quando você conhece, eu acho que não tem erro. É natural. A diferença que eu vejo, às vezes, entre o homem e a mulher, é que o homem, às vezes, não entra muito no detalhe de como o outro vai fazer, de como se coloca na condição do outro. Sempre procuro entender qual é a dificuldade do outro.

 

FM – Você acha que o homem pensa mais no resultado, não se importando o modo como este resultado é levado a cabo?

 

Célia – É, mas a mulher também pensa no resultado. Porém, a mulher sempre se coloca no lugar do outro, pelo menos aqui eu tento me colocar no lugar de quem vai executar aquela função.

 

FM – Quando se tem esta quantidade grande de mulheres, quando menstruam, têm TPM generalizada. Percebe isso aqui e como lida com a situação?

 

Célia – É incrível, alinhamos até nisso. Mas ao todo não tem muito problema não, graças a Deus, quando tem, a gente resolve e porque problema é problema, todo dia você tem e todo dia você resolve. E eu falo que a gente mata um leão todos os dias, e o dia que você não mata, acha ruim. Porque aí vai ter que matar dois no outro dia, e se não tiver problema, não tem melhora. Porque eu vejo que todo problema que eu tenho, vejo que como uma oportunidade de melhoria.

 

FM – E qual o ônus e bônus de ser comandante dessa empresa?

Célia – O ônus é que, às vezes, a gente não tem muito tempo pessoal, e o que é comum para todo mundo, para mim não é, porque se tiver um problema, eu tenho que resolver, eu não posso deixar para amanhã e ir embora, porque isso não vai ser resolvido. E, às vezes, você perde algumas coisas, por exemplo, se é uma viagem que você tem que fazer de férias, você prefere resolver os problemas a fazer a viagem. Afinal, tem hora que não tem quem vai fazer o seu trabalho, então você tem que equilibrar meio que a vida de todo mundo, o que está errado, mas ensina a gente a ser responsável. O bônus é trabalhar com o que você gosta, porque a gente estressa, tem hora que é muita trabalheira, mas a satisfação de ver o resultado e de trabalhar com o objetivo que a gente tem, de fazer o produto que te satisfaça que te deixe mais alegre e ver o cliente com o produto feliz, e ver a transformação, porque o grande lance da confecção, é você pegar o tecido e ver uma roupa pronta, passando por todas as etapas, então é muito gratificante.

 

FM – E vocês criam também?

Célia – O tecido não, mas desenvolvemos a estamparia, as modelagens, e o bacana é que a confecção é um negócio vivo, ela é totalmente dinâmica, porque a hora que você domina o produto surge outro no mercado. Na hora que você domina um tecido, vem outro. E a moda é muito variável e interessante, porque ela retrata um monte de coisas.

FM – E todas as três, você, sua mãe e a Eliane, nunca fizeram curso de moda?

Célia – A Eliane não é formada em moda. Tem graduação em Letras, mas ela sempre fez esses cursos de modelagem, criação, mas ela é mais autodidata mesmo. Minha mãe é fera e eu sou fera também. E assim, o resto, todo mundo aqui, é uma equipe fera. Estamos cercados de feras e nossa equipe tem um único objetivo, metas e sabemos todos a que viemos. Vemos todo mundo com crise de identidade. Porque o povo bica aqui, bica ali. E a gente está fiel, porque a gente acredita, acredita no produto, vê esse nicho de mercado, é uma opção de crença mesmo, de entender a necessidade dessa mulher e de trabalhar para ela.

 

FM – E pelo tempo, vocês já cuidaram das mães, das filhas e agora das netas.  Lá atrás, quando vocês começaram, tinha esse objetivo ou sonho de chegar onde chegaram ou não, foram fazendo?

Célia – Sempre tivemos um ponto muito resolvido na vida. Que era só fazer o que fosse de qualidade e o que levasse a elegância para as pessoas. Este era o ponto para nossa missão e visão do setor. Hoje a China produz muito bem, tem maquinário para tudo, se você quiser comprar a roupa pronta, você compra e paga R$19,90 e você compra 20, 30, 50, 100 e cobra o preço que você quiser, mas como conteúdo, com a origem, feito e pensado para a nossa cliente, a mulher que é como a gente, que trabalha, que tem filho, que vai ao supermercado e é real. Mas que ao mesmo tempo quer estar pronta para ir bem vestida dali mesmo para um encontro, ou até mesmo uma festa. Nossa mulher é real, que vai à festa também, mas não vive só na festa, então ela tem uma rotina diária e a roupa, por mais que você fale que não, a roupa ajuda a sobreviver, porque tem horas que se você estiver mal vestida, você quer enfiar a cabeça num buraco e não sair. Então, é essa confiança que a gente busca trazer para as clientes. Essa confiança que a gente quer para o nosso cliente, de estar bem vestida e elegante para o que der e vier.

 

FM – Você, 100% do tempo, está de Nova D?

Célia – Posso falar que sim, 100%. Primeiro porque não é qualquer roupa que me cai bem e segundo porque como a gente já conhece, tecido e etc. e quando você acha, é tão caro que você prefere ficar com a sua mesmo. Então, para mim, eu falo que sou 100% Nova D. De vez em quando eu compro Kollok, porque tem umas peças que me agradam também, lá é no estilo para a mulher mais descolada, em que a estrutura da roupa não é tão importante assim, então se ela quiser uma roupa, ela vai lá e pega, de uma qualidade um pouco melhor, mas ela não quer estar montada, estruturada naquele perfil. É mais eclética. E a Nova D é clássica. Então se for definir, a Nova D é de roupa clássica, atemporal, que você vai vestir hoje, amanhã, depois, e a Kollok não, ela é mais solta, mais leve, mais eclética, hoje ela está curta, amanhã já está comprida, hoje ela está com decote e amanhã não, e ela está no conforto também, porque hoje em dia é uma tendência gigantesca, porque ninguém quer mais estar de salto alto e com uma roupa que te amarra o dia inteiro. O conforto é o nosso objetivo, nas duas marcas. Porque a beleza nos move.

 

FM – As campanhas das coleções da Nova D são sempre muito bem elaboradas, muito bem trabalhadas, vocês escolhem os lugares?

Célia – Sim. Na verdade, as coleções têm a preocupação de sempre contar histórias. Fazemos duas por ano, com algumas cápsulas que entra no meio do caminho, mas, à cada coleção queremos levar uma mensagem, uma vida melhor para as pessoas, seja no jeito que você está se vestindo, seja na vida que você está levando, porque é muito pouco, a gente está aqui para fazer o que acredita, que é ser feliz. Para onde você vai se você não puder fazer o que você gosta?

 

FM – E você acompanha quando sai para fazer campanhas ou não?

Célia – Eu já acompanhei muito, mas hoje, por conta do Miguel, eu não posso mais sair assim, eu tenho que levar à escola, buscar, porque no meio do processo, eu sou mãe e posso te falar, é o projeto mais difícil. Mas eu só agradeço a Deus. Porque só quem passa que sabe o quão importante é isso do crescimento, porque as pessoas só melhoram depois que têm filhos, e mulher, mais ainda.

 

FM – Como você lida no dia a dia com o malabarismo de ser empresária, mãe e esposa?

Célia – Pedindo a Deus força, paciência e resiliência. E tendo a certeza de que Deus não dá fardo que a gente não consegue carregar. O homem não daria conta de ser mãe, então eu acho que mãe é mãe, porque mãe consegue fazer mais de duas coisas ao mesmo tempo. Eu acho que a grande beleza da mulher está na maternidade, porque você pensa bem, você parir um ser e fazer igual a gente, é uma benção muito grande. Hoje todo mundo fala em empoderamento, e isso e aquilo, mas assim, não tem um poder maior que o de ser mãe.

 

FM – Você acha que a mulher precisa buscar pelo empoderamento?

Célia – A mulher merece ser empoderada mesmo, precisa assumir o poder e a força que ela tem porque é ela quem move o mundo. É a força da mulher que move o mundo, seja como esposa, seja como mãe, seja deixando o marido tomar conta porque ela tem a mão certinha ali para delegar as funções, e às vezes até ficar atrás, ou um pouquinho mais à frente na hora que precisa. Então eu acho que toda mulher que se preze tem que se valorizar antes de qualquer coisa, e viver do jeito que ela gosta de viver, porque o grande erro das mulheres é se arrumar em função do outro, aí ela deixa de fazer o que ela gosta, deixa de ser ela, aí começa a perder o poder que ela tem. Meu conselho é que cada uma se assuma com as suas vontades, com seus gostos, com seus objetivos, porque todas têm objetivos incríveis, que você vê que elas movem o mundo. Quem move o comércio hoje? Quem compra mais? A gente tem seções masculina e feminina e quem compra são as mulheres. E assim, elas às vezes sofrem por não se colocarem no papel de mulher, então, para não sofrer, precisa fazer o que gosta.

 

FM – Quantas horas por dia você se dedica à Nova D?

Célia – Já me dediquei mais tempo. Cheguei a ficar das 7h às 22h e trabalhava aos sábados. Atualmente estou me permitindo esse luxo de entrar às 9h e sair às 18h e não trabalhar aos sábados. Graças a Deus a gente evolui, administra, e a família também tem que contar. Se você me perguntar se o trabalho vem em primeiro lugar na minha vida, eu vou falar que sim. Pois, é dele que surgiu todo o restante da minha vida. Mas deve haver equilíbrio. Se um começa a pesar mais que o outro, é hora de parar.

 

FM – O que você gosta de fazer que te dá prazer, além da Nova D e do Miguel?

Célia – Viajar. Adoro pegar uma estrada e pode ser para qualquer lugar, para Serra da Canastra, São Paulo, Brasília, Nova York, Paris, Argentina, para qualquer lugar. Ando meio restrita por conta do Miguel, porque eu ainda não consigo deixá-lo. Atualmente opto por locais de viagens curtíssimas e de preferência com shopping que tem parquinhos. Mas, isso foi uma escolha, não uma imposição, apesar de ele ser ruim de viajar, dá pra levar.