Documentário retrata julgamento de Mandela

29 de fevereiro de 2020

O processo por sabotagem e conspiração para destituir o governo da África do Sul, que levou Nelson Mandela (1918-2013) à prisão perpétua em 1964, não foi filmado. Mas o áudio do julgamento foi feito. São 256 horas de material, de acordo com o filme. O documentário O Estado Contra Nelson Mandela e os Outros, e as consequências dele, dirigido por Nicolas Champeaux e Gilles Porte, usa recursos inteligentes e eficazes para compensar a ausência de documentação visual. Um deles é a animação.

Em surpreendentes imagens em branco e preto, que parecem desenhos com carvão, as cenas do julgamento são retratadas, às vezes metaforicamente. Um juiz repreendendo o ativista antiapartheid Nelson Mandela é representado em tamanho extragrande de modo a apequenar o acusado. O que lembra a sequência animada de Before the Law, que prefacia o filme de Orson Welles O Processo, transcrição do livro de Kafka.

O filme também traz entrevistas com corréus sobreviventes e companheiros de Mandela, todos filmados com fones de ouvido em torno do pescoço. Periodicamente, eles colocam o fone para ouvir o áudio do julgamento e tecer comentários.

Nenhuma imagem consegue competir com a voz de Mandela no julgamento: “Acalentei o ideal de uma sociedade livre e democrática em que todas as pessoas viverão juntas em harmonia e com oportunidades iguais. Um ideal que espero viver por ele e vê-lo realizado. Mas meu Deus, se necessário for, é um ideal pelo qual estou disposto a morrer”.

 

Mandela não morreu antes de fazer mudanças enormes no seu país.

O filme mostra a sua luta. Na sua cena final, quatro sobreviventes, idosos, se reúnem e conversam sobre os ideais e os velhos tempos. Ao verem cenas mostrando Donald Trump na TV seus olhos se iluminam, como se já o tivessem visto antes.