Do leitor: Na crista das ondas AM 2

8 de fevereiro de 2020

Décadas atrás, a AM imperava. Nas cidades interioranas, era comum o uso do rádio quase no último volume. Minha mãe, Dona Terezinha, aumentava mais ainda quando Emilinha Borba cantava na Rádio Nacional.

Quando eu ouvia “Diana”, com Carlos Gonzaga, me deleitava e me distraía indo até o Educandário a um quilômetro de distância e com uma pasta pesada para minha idade.

Outro meu interesse musical eram os copos de vitamina tomados em frente ao Cine Alvorada. Explico. Meu amigão, Waltinho, filho do Pedrinho soldado, era ótimo cantor e ganhava cupons quando participava de shows de calouros na Rádio de Passos AM ZYN 4. Cada prêmio dava direito a um copo de vitamina, que repartia comigo!

Quando fui trabalhar na mesma Rádio em 66 e 67, o palco, que explodia de emoção, não passava de escombros, sombras e poeira. Ao passar por ele, meus passos ribombavam sobre suas tábuas soltas. Uma nostalgia indefinida me invadia e me machucava.

Lembro-me de um casal todo apressado que parara diante da Rádio e o motorista me perguntou, afogueado, como se chegava à cidade do Glória. Não sabia explicar objetivamente; Mustafé me socorreu e orientou-os muito bem. Saíram em disparada. Iam cantar em um circo, meu Deus! Após sua saída, Zé das Pronúncias me disse, até friamente, que eram Cascatinha e Inhana. Levei um choque. Se soubesse, iria lhes agradecer imensamente pelas vezes em que ouvia “Índia”, todo mesmerizado, em um bar, na rua 2 de novembro, entre as pernas de meu pai, após o serviço na oficina mecânica e o jantar.

A Rádio AM faturava bem com as propagandas do comércio local e seu alcance chegava às fazendas, sítios e povoados das redondezas. Esse alcance era outro fator de lucro porque, durante praticamente todos os domingos, a Rádio lançava ao ar infindáveis músicas sertanejas de raiz, encomendadas pelos filhos, netos, bisnetos e tataranetos de patriarcas das famílias. Enquanto isso, a juventude da cidade estava nas dezenas de bailinhos que pipocavam aqui e ali. O som não incomodava praticamente ninguém, o que não ocorre hoje com o baile funk que atrela a ele as drogas, a prostituição e o volume desmesurado. Com a desculpa que jovens não têm áreas de lazer, a permissividade e a corrupção campeiam.

Não tenho conhecimento técnico para avaliar se a migração da AM para a FM, projeto aprovado pela insossa ex-presidente Dilma Roussef, é melhor do que a AM digital. Os áulicos de plantão elogiaram sua decisão, porém prefiro acreditar na sugestão do radialista passense José Carlos Kallas, que aponta a AM digital como ideal, em um belo, primoroso e nostálgico texto, publicado no Facebook.

A AM trouxe, em seu bojo, a disseminação de programas políticos de vários matizes, trouxe companhia para as solidões, preencheu o vazio dos trabalhos repetitivos, maçantes, alguns sem esperança, trouxe desejos e sonhos de pessoas de todas as classes sociais, trouxe expectativas palpitantes de um mundo melhor, como o fim da II GGM, porém a mim me parece que a humanidade insiste em não aprender.

Wagner Cardoso