Direito esquecido

5 de agosto de 2020

O relaxamento das medidas para prevenir a disseminação da covid19 é patente. Ele decorre de pressão econômica, do cansaço das pessoas, da falta de crença na ciência, de políticas (e políticos) irresponsáveis. Tudo isso sustentado em falsidades factuais, com o fito de se sustentarem as mais absurdas e fantasiosas ideias.

Há uma visão – acho que correta – de que irremediavelmente todos seremos alcançados pelo vírus – fato que pode levar à conclusão de que a velocidade na contaminação ajudaria abreviar o fim da epidemia. Afinal, argumenta-se, todos morrem e os idosos se encontram mais perto disso; “ E daí?”
Entretanto, há um aspecto muitíssimo relevante, qual seja, o legítimo e fundamental direito à vida; melhor, o direito de vivê-la.

Para um jovem, que tem pela frente a construção de seu futuro – o que pode levar anos, décadas – meses parecem ser muito pouco; nada relevante. Mas, para os idosos, o que lhes resta de tempo de vida é de extrema importância, de valor imensurável; é um tempo já curto para conviver com os netos, para aproveitar um ócio de aposentadoria, para passear ou mesmo usufruir do prazer do trabalho. A sua importância não pode ser medida a não ser por cada um deles e nem ter como critério a probabilidade de ser diminuto.

O descumprimento, especialmente por parte daqueles que não estão no chamado “grupo de risco”, sem dúvida abrevia, no tempo, o fatal e possivelmente letal contágio dos membros desse último grupo. Isto significa que as pessoas que não seguem as diretrizes dos responsáveis pela saúde pública simplesmente estão contribuindo para o encurtamento da vida dos velhos. Vida que é de direito natural, cujo óbvio exercício se encontra no tempo da existência do seu titular e na busca pela felicidade (pursuit of hapiness), ecos da Carta Magna de 1215.

Legítimo, pois, que os idosos cobrem – exijam mesmo – de todos, especialmente daqueles que não pertencem aos grupos de risco e das autoridades, que cumpram rigidamente as regras sanitárias estabelecidas, para que os primeiros possam dispor de um pouco mais de tempo de vida. Se é direito dos idosos, há a correspondente obrigação dos demais membros da sociedade no sentido de garantir o pleno exercício do daquele direito, fazendo o que lhes cumpre.

Raul Moreira Pinto – Passos/MG