Dia a Dia: Vó Rufina o boi ervado

16 de novembro de 2019

Um cavaleiro se aproxima daquele rancho à beira da estrada e chama:
— Ô de casa! Vó Rufina, cadê a sinhora?
Uma velhinha atravessa a casa de chão batido e vai abrir a porta.
— Dia, Sô Antenô! Apêia do cavalo e entra pá dento mode bebê um golim de café, cabei de cuá.
— Agradicido, mas hoje não, Vó. É que ieu tô cum pressa… Vim só avisá que lá no pasto da invernada morreu um boi ervado. O bicho tava gordo. Passei a manhã intêra campiano ele. É uma judiação dexá os urubu cumê. Ieu vim vê se a sinhora e os minino qué pruveitá a carne.
— Será qui num foi ofindido de cobra?— Si foi num servi pruquê a carne fica venenosa.
— Foi cobra, não! Foi erva memo… Inda tinha uns restim de fôia verde na boca do bitelo, mó que erva num é veneno pás pessoa, só mata criação.
— Ahh, si é ansim nóis qué dimais, uai! Faiz tempo qui nóis num come carne de gado aqui in casa! Isso nessas banda tá qui nem bigode de cobra, custoso de vê. Ieu vô acordá os minino…
— Num querdito qui aquês marmanjão inda tão drumino, cum solão arto desse!
—Ah, sô Antenô, os minino anda tudo perrengue! Ieu tô achano qui é lumbriga. A água qui nóis bebe aqui, vem daquele corguinho de água chuja.
— É, vó… Ieu sei da qualé água seus minino custuma bebê… Resmungou o Antenor e se dirigiu para a estrada, não sem antes se despedir de Vó Rufina, que já se encaminhava para dentro, com intuito de tirar os “minino” das camas.
De volta à sua casa, Antenor cisma: Porque cargas d’água prometera ao pai no leito de morte que manteria aquela família ali nas suas terras enquanto restasse um Rufino vivo? Era um povo desacorçoado para serviço. Uma cambada de preguiçosos, nem se animaram a casar para não ter trabalho de sustentar mulheres e filhos.
Vó Rufina assumiu a criação dos netos desde a morte da única filha que casou, porque o genro sumiu no mundo depois de viúvo. Inda passava a mão na cabeça deles dizendo que eram doentinhos.
Assim sendo moravam naquela casinha de pau- a -pique: a vó, três filhos beatos e cinco netos, moças e rapazes já crescidos. Eram mantidos graças às doações que a vó ganhava, pois era parteira e benzedeira afamada.
— Miguer, chama o Tiburço mais o Mané! Vamu tê qui i lá buscá o boi.
— Mais mãe… Hoje é sexta-fêra da paxão, num pode mexê cum isso não… Num pode matá criação ninhuma.
Pobre num óia pr’isso não, meu fio! Deus perdoa. Nóis num pode é dexá isperdiçá tanta carne. E num fumo nóis que matemo o boi! Nóis vai só tirá as carne.
— Sei não… Ieu tenho cá as minhas cisma — resmungou o Mané.
Manquitolando por causa do reumatismo, a Vó Rufina ajuntou tudo quanto era vasilha: bacias, tachos, latas, facão, foice e machado e lá se foram.
Labutaram a tarde inteira. Já escurecia quando rumaram de volta pra casa que ficava bem longe para ir a pé.
— Meus fio… Bamo ataiá passano no Corgo do “Zé Tia Tonha”, assim nóis chega in casa pá mode sargá essa carne mais cedo…
— Num vô não, mãe! Aquele corgo e o brejo im vorta dele é tudo malassombrando— reclamou o Tibúrcio. E os irmãos todos concordaram.
— Cêis larga mão de sê besta. Ocêis num é home?
Sem alternativa, foram todos pelo atalho indicado pela mãe. Estava tudo tão escuro e quieto que se escutava uma folha caindo no chão. Sem mais nem menos, começou uma ventania. Ouviu se um berro muito alto e eis que apareceu do meio das árvores um boi soltando fogo pelas ventas, clareando tudo por ali.
Dizem que a criatura investia contra os Rufinos que se esparramaram tentando escapulir. Na hora do aperto foi cada um por si, uns se atolando no brejo, outros subindo nos cupins, uns ainda se escondendo nas grutas. Ninguém teve ideia do tempo que isso durou, mas depois do silêncio que se seguiu a família começou a chamar uns pelos outros.
—Tiburço, ocê ta aí? —Gritou o Mané
— Gertrude, ocê viu a mãe?— Miguel indagou à sobrinha.
— Uai, ieu não ti Migué. Pensei que ela tava cocêis. — Falou a mocinha, saindo de dentro do brejo com as saias enlameadas.
—Cê viu a mãe, Mané?
— Vi não, Migué. — Minha Santa Orondina, onde qui a mãe foi? Será qui a sombração do boi levô ela?
— Bamu caçá ela no mêi do mato, vai vê num guentô corrê, pode tê si pirdido, tadinha.
Saíram chamando pela vó Rufina enquanto o dia amanhecia. A procura durou muito tempo, até que já sem esperanças ouviram gemidos vindo da mata. Correram e não viram nada debaixo das árvores, porém escutavam a voz de Vó Rufina que parecia rezar orações desconexas.
— Mãeeeeeeeeeeeeêee, cadê a sinhora? — Gritavam os filhos, em coro.
—Voooooooooó, onde qui a sinhora tá? — Chamavam os netos, preocupados.
Orientados pelo som de uma reza, olharam pra cima e boquiabertos enxergaram a Vó Rufina agarrada bem na copa de uma árvore gameleira com altura de no mínimo sete metros. Ela tinha nas mãos o terço. Suas roupas estavam esfarrapadas e em estado de choque, rezava e repetia com fervor:
— Ocêis num picisa incomodá… Oremus! Cumigo não…Crendospai… Sombração num pegô ieu… Tendi pedade dinóis… Mó qui ieu meus fio… Rogai prunóis… Mó quiieu… Já tô subida num toco de pau… Amém!