Dia a Dia: Um passado de paz

11 de fevereiro de 2020

Será que o passado é o registro do que somos? O presente aponta para o retrato que queremos guardar daquilo que fomos um dia. E num dia desses, me vieram lembranças dos tempos em que as pessoas viviam tranqüilas e sem tantos transtornos. Pilão de socar, tacho no fogão, ferro de brasas, forno de barro, balde amarrado na corda no sarilho da cisterna, casas com suas janelas de vidraças, portas fechadas somente com o trinco, tardes calmas, cadeiras com familiares e vizinhos em ordem, numa conversa boa em frente das casas! Era uma conversa, uma lembrança, uma história contada de pai para filho, de avô para neto, de mãe para filha.

À noite, na cozinha, acontecia o encontro da família: fogão de lenha aceso, barulhinho do fogo, aroma de café, bule esmaltado na chapa quente, caldeirão de ferro cozinhando o feijão, pipoca pipocando e bolo assando. Crianças só pensavam em brincar na rua, meninos correndo para cima e para baixo procurando o vento para levantar suas pipas, com bolsos cheios de bolinhas de gude jogando partida na toca, só esperando o domingo chegar, assistir a matinê, sessão faroeste, e assim a meninada vivia feliz com sabor de inocência!

Pela madrugada, via – se padeiros com grandes cestos no ombro, indo de casa em casa colocando os pães ainda quentinhos em bonitas sacolas com o nome bordado e escrito ”pães” com a figura de um padeiro, que ficavam a noite toda nas janelas, ou nas maçanetas das portas, sem perigo algum de roubo!

Pela manhã, caminhões leiteiros chegando e trazendo o povo da roça para fazer suas compras e afazeres na cidade, lenheiro vendendo sua carroça cheia de lenha, leiteiros a cavalo fazendo suas entregas nas casas, e carreiros carreando os carros de bois com suas rodas cantando ou gemendo com a grande carga. Charmosas charretes, transportes de muitos fazendeiros e seus familiares circulavam pela cidade, senhoras e senhoritas com suas coloridas sombrinhas andando elegantemente a cavalo, com belos vestidos, sentadas de lado numa sela chamada de cilhão.

Nas vendas e armazéns, comprava – se de tudo e os fregueses eram atendidos no balcão onde ficava uma balança com vários pesos de quilos e gramas. Trem de ferro resfolegando de vapor, com seu apito e sacolejo adentrando e saindo da cidade, e de longe se ouvia um som de uma buzina: era a carroça vendendo os miúdos de vaca e de porco.

Todos os dias, ouvia – se um ronco agudo sobrevoando nossas cabeças: eram grandes aviões das empresas aéreas Real e Nacional, decolando do Campo de Aviação localizado um pouco atrás do Campo do Esportivo. Policiamento na cidade era feito pelo cabo Silvano e os soldados Pedrinho, Mário Bigodudo e João de Deus, com os civis investigadores Pipi, Baltazar e o carcereiro Carioquinha, que faziam o patrulhamento num velho jipe. E a primeira rádio patrulha que tivemos em Passos era chamada de “Rita Pavone”! Ruas quase todas sem asfalto, de chão batido, escavadas pelas boiadas. Aero Willis, Ford V, Sinca Chambord, eram carros de muitos taxistas como Balaúcho, Mané Tetéia, Dedé, Durval, Tonico, Zé Muzetti, Cristiano, Antonio José… e nas esquinas, motorista era obrigado a usar a buzina!

 

Em volta da Praça Matriz e imediações havia vários bares e estabelecimentos que fizeram parte da nossa cidade de Passos na época de minha juventude:

 

O Bar e Confeitaria Seleta, o Pinguim, o Candoca, o Vitoria, Bar Delícia, Kaolho, Xodó, Toledos, Central, Broinha, Primos… Estabelecimento: os Farjalla, a Padaria do Neném, Casa Pimenta, Farid Esper, Arca de Noé, Casa São Luiz, Casa Estrela, Brasília Modas, Lustradora Passense, Loja de Calçados Ângelo Jabace, Elite Hotel e o Municipal 22, Banco do Brasil perto do Cine Roxy, o Dragão dos Móveis e em seu porão a Sapataria, ao lado a Boate “Maloca”, o Restaurante do Oscar entre muitos outros!

Na Praça do Rosário entre chegadas e saídas, as pessoas aguardavam o horário de embarcar sentadas nos bancos saboreando a novidade da época: um sorvete cremoso das máquinas! E nos Desfiles Cívicos da cidade os comentários eram: “Qual das fanfarras se apresentou melhor, a do Colégio Estadual ou a do Colégio de Passos?” As opiniões dividiam-se, as duas eram as melhores!

São alguns fatos e acontecimentos da rotina de uma época não tão distante de nossa cidade que foi se transformando, modernizando, e as tradições acabando.

Mas o certo, é que nesse pedaço de terra mineira sempre há muitos causos e histórias para transpor para o papel, na memória cultivada de muitos!

É o tempo passando e a gente “Memoriando”!