Dia a Dia: Testemunhas de Nossa História

29 de janeiro de 2020

Uma tarde, caminhando, paro de frente a um velho casarão sem moradores, abandonado, e fico a observar: Paredes descascadas, grade enferrujada, portas altas de madeira e algumas vidraças quebradas. Na entrada principal para o alpendre, uma escada larga de poucos degraus, já corroídos pelo tempo. Lá da rua dava para ver o fundo do telhado com telhas comuns, com dezenas de pombos, e no quintal uma velha jabuticabeira servindo de residência para os pássaros. Recordei os seus moradores, já falecidos, meus antigos fregueses da Sapataria. Ele, fazendeiro, já aposentado da lida da roça, quase que diariamente estava ali na Sapataria para saber algumas novidades e bater um papo, nos contando sempre alguns casos de nossa Passos mais antiga, principalmente da política.

Por instantes, fiquei analisando como o tempo leva rápido nossa vida vivida, deixando para trás vários tipos de costumes não tão antigos que vivi e presenciei, e nos deixando outros modernos. E na memória, me veio a lembrança do tempo quando famílias tinham o costume de ficar no alpendre ou sentadas a beira das calçadas na fresca da tarde para um bate-papo com vizinhos onde se respirava um ambiente gostoso e familiar. Ficavam vendo as crianças correndo e brincando pelas ruas e calçadas. Como era gostoso passar na porta dessas casas e sentir o aroma do café moído! A gente sabia que ali tinha acabado de se coar o café num coador feito de pano de flanela enganchado no mancebo de madeira ou ferro, misturando ao cheiro de um bolo assado em caçarola de ferro na trempe do fogão com uma tampa de lata com brasas por cima, e o café ali bem quente num bule esmaltado na trempe da chapa do fogão alimentado a lenha. As casas ficavam com suas portas fechadas somente com o trinco. O vizinho, ao chegar, puxava o barbante pendente no trinco da fechadura do lado de fora, abria e gritava: “Oi de casa, tô entrando!” São hábitos que se diluíram com o tempo.

Nessas minhas caminhadas ainda observo muitos casarões que nos prendem a atenção e nos dão asas á imaginação, nos proporcionando uma oportunidade de relembrar um pouco o passado ao ver quantos casarões que corroídos pelo tempo, já foram demolidos em nossa cidade. Quantas casas estão caindo facilmente dando lugar a construções modernas. Outras casas que abrigam histórias, mesmo com paredes prestes a ruir, teimam em ficar de pé. Quantos casarões, mesmo com muitas histórias vão caindo, cedendo lugar a prédios frios e sem sonhos, deixando para traz bonitas fachadas, com frisos, desenhos, que às vezes contavam a história de uma época em que a vida do povo se passava quase que inteiramente dentro de casa. Casas e casarões onde ali famílias e casais se amavam, filhos nasciam, faziam travessuras, cresciam e ali envelheciam. Mas o tempo passou, e por desinteresse dos herdeiros ou outro motivo são vendidas, e terceiros se esfarinham essa antiga construção, as paredes caem se transformando em pó, limpam o terreno, e ninguém mais fica á saber sua história, porque ali poderá ser construído um prédio ou uma casa, envidraçada por dentro, e por fora toda murada, parecendo uma prisão.

Quando se vê uma casa a ser demolida, penso em quantos planos e sonhos de alguém para construí-la; Mas o tempo passa, os filhos crescem, se casam, os pais vão ficando velhos, a casa se esvazia, os pais passam a morar na solidão, não tendo ninguém para compartilhar seu calor e ambiente familiar, às vezes nem mesmo aquele cafezinho. Aí o jeito é vendê-la para alguém demoli-la e construir uma nova, mais moderna, mais confortável, sem enormes portas e janelas, sem tramelas e trancas, sem o fogão a lenha, sem aquele gostoso almoço feito nesse fogão e, talvez até sem também aquele saudoso calor humano!

Em nossa cidade de Passos, ainda se vê alguns imponentes casarões nos mostrando sua beleza e suavidade das linhas arquitetônicas, alguns centenários e outros nem tanto. Muitos deles, mesmo já sofrendo várias modificações, ainda nos dão lembrança viva de como eram as moradias de antigamente. Mas com o passar do tempo implacável, no caminho do progresso e a forte especulação imobiliária, a tendência é mesmo em breve esses casarões desaparecerem e ficarmos sem essas testemunhas de nossa história e de nossa cultura.

E assim o tempo vai passando e a gente “Memoriando”…