Dia a Dia: Radiocacetadas V

9 de novembro de 2019

Crônica escrita em 1993

 A incoerência dos programas televisivos nesta terra-rebento dos lusitanos se faz presente cada vez com mais frequência, principalmente nos noticiários da telinha. Há um distanciamento entre a expressão do apresentador e o fato, paradoxal, quando não uma cara demonstrando o mais profundo constrangimento, digna dos atores canastrões da velha novela “Direito de Nascer”.

 Noite dessas, a tele-moça do jornal da Record, após uma matéria muito engraçada, num sorriso mal disfarçado, descreveu uma chacina de crianças no Rio de Janeiro, totalmente alheia à gravidade e tristeza da notícia, de forma alheia e, no mínimo, desrespeitosa. Quase no finalzinho do texto, ao verificar o ridículo da coisa, teve uma bruta crise de culpa e, por pouco, não chega à lágrimas flagrantemente forçadas.

 No essebeteano Aqui Agora, entra o cavernoso Gil Gomes, trazendo os detalhes macabros de um crime ocorrido na Baixada Santista, envolvendo um maníaco sexual que estrupara e matara uma garotinha de um ano e meio, câmeras abrindo caminho no matagal, mostrando, em close, a cena da barbárie, música hichkcoquiana no fundo, restos de sangue recente da pequena vítima, uma boneca, chupeta, as reações da família, o chôro da mãe desconsolada, enfim, um drama levado ao ápice do emocionalismo, como só o repórter sabe conduzir, deixando o telespectador em de choque , revoltado. Aí, sem qualquer interrupção, falha do editor responsável, surge, inopinadamente, no vídeo a carinha safada do saltitante baixinho das trovoadas:

 -”Tempos felizes!!! Chuva na região norte…”

No próprio Jornal da Globo, o Cid Moreira lê, voz embargada e profissional, as mais terríveis catástrofes como o afundamento de um barco nas Filipinas, trezentos e tantos afogados, oito meninos chacinados na periferia de São Paulo, vinte corpos amontoados de civis mortos em Sarajevo, cento e cinquenta africanos se desmanchando com o Ébola, bebês esqueletosos na Etiópia, japoneses se sufocando no metrô de Tóquio, balas perdidas na guerra carioca do tráfico acertando cabecinha de escolares inocentes, ladroagem, corrupção, fila sofrida do gás, corredores de enfermarias em hospitais públicos, e ainda tem a coragem de, no encerramento, depois de nos levar a um estado de falência emotiva, desejar, na maior cara de pau:

 -”Boa noite!”

 De que jeito???

Cá nos nossos rincões passenses, os irmãos radialistas também macetam seus tomates, como o operador de som Jaime da ZYL-216. Veiculada a nota de falecimento de eminente figura política, ele solta uma vinheta, conclamando os ouvintes à alegria total, em esfuziante baticumbum baiano-carnavalesco.

 Por falar no assunto, aqui vai outra. O programa Bola no Ar comia solto, conduzido pelo Zé Calos Kallas e Durval Félix, numa tabelinha de notas esportivas, opiniões, jogo rápido, dinâmico, sem se esquecer dos cumprimentos pelos natalícios dos amigos e conhecidos. Entra o Turquinho:

 -”Eu gostaria de cumprimentar o abnegado esportista Tião Aoun pelo aniversário, hoje”.

 O Durval, lembrando os bons tempos de político municipal, aproveita a deixa dentro da lógica equaç ão – cada abraço, um voto”:

 -”Ficam registrados também os meus parabéns!”

 – “Ah! Temos ainda velinhas no bolo do quarto-zagueiro do Karam!”

 -”Meus parabéns!” completa o Durval.

 -”Amanhã é o do prefeito.

 “-”Sinceros parabéns!”

 -”Ontem foi da Madona.”

 -”Meus parabéns!”

 -”E de fulano.”

 -”Meus parabéns!”

 -”De sicrano.”

 -”Meus parabéns!”

 -”Nota triste. Morreu o dirigente lá do time da Penha.”

 -”Meus parabéns!”

 -”Uai, Durval!”

 O Durval envermelhou, ciente da gafe automática, mas político que se preza não perde o bamboleio de cintura e, imediatamente, remendou:

 -”Parabéns, sim, ô Zé Carlos. Parabéns pela vida exemplar do finado, dedicada ao esporte e à sua família que, de forma cristã, está superando altivamente este passamento doloroso!!!”

  “Variedades Musicais” ocupava o horário de 10 às 11 horas, capitaneado pelo primo Ailton Melo (aliás, desafio os pacientes leitores a me desmentirem, quando afirmo que todas as rádios do interior possuiam um programa como este, onde se atendia os ouvintes no meio de muita propaganda…).

Numa bela manhã, já encerrando, após a última música, 10,59 h, o Ailton cisma de dar uma nota de falecimento:

 -”Faleceu, ontem,em nossa cidade, o indivíduo tal. Seu corpo está sendo velado na capela do Velório São Vicente de Paula, de onde sairá o féretro, hoje, às 11 horas.”

 Passou os olhos pelo relógio e, verificando estar em cima do horário, completou:

-”Se você é amigo ou parente da família, corre lá que ainda dá tempo de pegar o defunto!!!”