Dia a Dia: Quem pula carnaval vai para o inferno?

21 de fevereiro de 2020

Segundo dizia meu avô, um católico fervoroso, Quaresma é uma época de recolhimento, jejum e abstinência.

Havia umas tias velhas, contadeiras de causos, elas afirmavam que antes da Quaresma os demônios festejavam o sofrimento de Cristo. A esta celebração pagã davam o nome de Carnaval e quem participasse iria queimar no fogo dos infernos, quando morresse.

O fato de crescer ouvindo tudo isso, me fazia imaginar o inferno como um rio cheio de labaredas e dentro dele uma porção de gente cozinhando em tachos enormes. Todos com as mãos postas, suplicando misericórdia. O que mais me assustava era pensar nos diabos de olhos grandes, chifrudos, usando capas pretas e roupas vermelhas, o rabo em forma de flecha e nas mãos um garfão para averiguar o ponto de cozimento do povo pecador.

— Quem peca fica eternamente no fogo… — Diziam os mais velhos.

Eu perguntava:

— A gente num sai nem pá bebê água? — Credo!

Ficava apavorada, imaginando o quê aquele povo teria feito, que pecados tão cabeludos teriam cometido para queimar assim. Muitas vezes, antes de dormir, eu fazia a contabilidade dos meus, a fim de avaliar se poderiam me levar para aquele fogaréu. A ideia de castigo me atormentava.

Hoje, acredito que os adultos talvez não tivessem a intenção de provocar tanto medo na gente, não imaginavam que isso pudesse refletir negativamente na vida de uma criança.

Morando na cidade e já na escola, vi as crianças de minha rua fazendo colares de macarrão colorido, preparando as fantasias para ir à Matinê do Guia Lopes Clube. Pensava cá comigo:

— Tadinhos, vai todo mundo direto pro inferno.

No domingo de Carnaval, eu estava indo fazer entrega de uma bandeja de doces, quando vi uma turma de crianças fantasiadas de baianas, piratas, colombinas. Tudo lindo e colorido, até me convidaram:

— Vamu pro clube Mariinha, hoje criança não paga!

Caçoaram de mim quando perguntei se não tinham medo do fogo do inferno.

Parei na escadaria da igreja e deixei de lado a bandeja com os doces. Dali avistei a criançada lá dentro do clube, que ficava no andar superior da sede da Prefeitura Municipal. Lembro-me até hoje da primeira vez que ouvi:

O jardineira por que estás tão triste?

Mas o que foi que te aconteceu?

Foi a Camélia que caiu do galho,

Deu dois suspiros e depois morreu.

Triste fiquei, ao ver que tudo quanto era criança da cidade estava aproveitando o baile. Só eu ali nas escadas da igreja. Imaginando: — que graça teria eu ir para o céu sozinha? Sim, porque segundo eu aprendi, aquela meninada toda estava condenada.

As músicas cada vez mais animadas, a alegria contagiante, eu nem sabia mais o que pensar, a minha vontade era estar lá dentro e participar daquela festança. Ficar alegre e pular muito.

Dali de onde estava, avistei o padre Murilo entrando na sacristia. Totalmente dominada pelo som da música daquela “festa proibida” nem vi a hora que fui correndo até onde o padre estava:

— Sô Padre… Ieu posso priguntá uma coisa pru sinhô?

— Pode sim, menina, o que quer saber?

— O sinhor é padre, intão deve di sabê né?

— Saber o quê?

Morrendo de vontade cair na folia, perguntei:

— O sinhor pode mi dizê si o fogo dos inferno é quente dimais da conta?

 

MARIA MINEIRA é escritora. Esta e outras 52 histórias fazem parte do livro: “Ao Pé da Serra- Contos e Causos da Canastra”.