Dia a Dia: Quarenta e uma saudades

14 de fevereiro de 2020

Inácio passou a mão no rosto sentindo a barba áspera, misturada às rugas. Custava crer que quarenta anos pudessem ter feito tanto estrago à sua aparência. Da juventude, conservava apenas recordações. Contemplando o horizonte, lembrou-se de Maria Rosa. Ao pé da serra, viu-a pela primeira vez. Vestia chita, carregava um pote com água e trazia flores colhidas pelo caminho. Não houve palavras. Um olhar juntou duas almas errantes.

Agora, ele estava de volta e uma incômoda sensação lhe comprimia o peito. Inclinando-se, pegou um punhado de terra e elevou os braços, apertando a terra nas mãos. Fixou a vista no anular esquerdo, onde brilhava a aliança de viúvo. Nesse momento, teve a certeza que seu coração ficara preso ali. Era parte daquele chão, misturara-se àquele pó desde o dia em que se casou com a irmã de Maria Rosa e foram embora.

Ingenuamente, imaginou que a distância seria lenitivo para abrandar a tristeza. O tempo tentou apagar de sua mente as lembranças vivas, é verdade. Mas era nos devaneios, que revivia instantes de emoção e sentimentos que o consolavam, para depois o arremessarem de volta à dolorosa ausência.

A esmo, caminhou até avistar o rio com o qual tanto se identificava: da nascente corria manso, feito seus sonhos de juventude, para logo adiante se precipitar em cachoeira, com ruído estrondoso. A diferença era que o rio se abrandava aos poucos, lá embaixo, acabando com a aridez da terra, irrigando a plantação. E Inácio, esse jamais encontrou alívio no decorrer da vida. Quis assim, não deixou fugir nada da memória. Sentia um estranho prazer na dor da saudade que não queria ser curada. Fez questão de manter aberta a ferida, significando a presença dela no coração.

Naquela tarde fria de inverno, o viúvo parecia um pássaro sem ninho, com o chapéu na mão e a mala quase vazia. Vivia atordoado, pois aquela moça se entranhara em seu ser. Fazia parte de sua essência desde o dia em que se conheceram. Absorto em seus martírios, quase não percebe uma pequena camponesa vindo em sua direção. Ela tinha o rosto trigueiro e maneiras suaves. Sem parar, sorriu-lhe e se afastou a passos rápidos. Inácio não acreditou no que vira. Aquela menina tinha um semblante familiar… Deu alguns passos rápidos em sua direção, chamando-a.

— Menina, como é seu nome?

 — Mariinha, ela respondeu sem hesitar.

 — Conhece Maria Rosa? Sabe onde ela está?! Disparou ele a perguntar, com o rosto iluminado ante a expectativa da resposta.

— Minha vó Maria?! Sei, sim! — Falou a menina apontando uma direção. Estremeceu com a visão funesta do lugar indicado. Aquele caminho, ele sabia muito bem aonde chegaria, caso prosseguisse. Suas últimas esperanças se esvaíam a cada passo do percurso, mas não ia voltar atrás. Iria até o fim! Usaria de suas últimas forças, se preciso fosse. Desta vez não seria covarde!

Puxou pela memória e viu-se no altar da capela, como há mais de quatro décadas. Seria o dia mais feliz de sua vida. Ali, do altar, ele não ouvia o burburinho do povo. Só tinha olhos para a porta, de onde ela surgiria vestida de branco e flor de laranjeira! Era muita felicidade para um homem só – pensou.

Inebriado pela emoção, custou a notar que no último banco da capela, havia uma moça trajando vestido e véu negros. Aos poucos, ela foi se desfazendo do véu e fixou nele uns olhos de onde marejavam lágrimas silenciosas. Ali mesmo, naquele mesmo instante, Inácio despertou daquele transe. Teve a certeza pavorosa de que o haviam enganad

Calaram-se as vozes dentro da igrejinha. A noiva entrou. Infelizmente não era Maria Rosa, por quem ele tanto esperava! Era Joana, sua irmã mais velha… Paralisado, não reagiu. Sem coragem para dizer não, sentiu-se um fraco, mas não podia deixar a noiva ali no altar. (continua na proxima edição)

 

MARIA MINEIRA é escritora. Esta e outras 52 histórias fazem parte do livro: “Ao Pé da Serra- Contos e Causos da Canastra”.