Dia a Dia: Quarador da Barra

30 de novembro de 2019

Bem antes das máquinas de lavar-roupa, dos eficientes e milagrosos sabões em pó, secadoras, centrifugadoras e da Washtec havia em todas as nossas cidades do interior, um local bem definido às margens de um rio ou córrego, onde as lavadeiras formavam uma casta especial tanto no bater dos panos quanto no bater da língua, antecessoras dos repórteres e colunistas sociais.

Em Passos, o sítio de ajuntamento delas se localizava nas quebradas da periférica e deserta Barrinha, às margens do Ribeirão Bonsucesso quase fusão com o São Francisco, numa baixa coalhada de tabôas. Vistas de cima, do centro, pareciam pontos brancos saltitantes no verde da grama ou à beira do prateado da água, na algazarra característica. As mais antigas tinham seus pontos pré definidos após muitas disputas, algumas na ponta de faca e arrancação de cabelos e mordidas, outras no prestígio social, político ou econômico dos patrões. Respeitada a hierarquia, divididos os espaços, a rotina diária começava aos primeiros clarões do sol quando as trouxas enormes trazidas na cabeça eram desamarradas e as roupas espalhadas para a triagem das diferentes técnicas de lavação. Anáguas e roupas de baixo, de renda, camisas de linho. algodão grosso, fronhas e lençóis, a maioria a ter realçado o branco na base do escuro sabão de cinza e de quadra caseiros e da quaração ao sol.

Ali pelas oito e nove horas, principiavam as cantorias marcadas pelo ritmo da bateção das roupas nas pedras. O coral, muitas vozes e variados timbres, vinha num crescente vagaroso conduzido pelas puxadoras das Filhas de Maria até os refrões em máxima potência ouvidos por toda a cidade. A tarde era reservada ao manuseio do pesado ferro-de-passar recheado de brasas vivas.

A Dona Liquinha era um mulata forte, grandona, fala grave e que impunha respeito pelo seu porte, como também o fato de ser a parteira mais solicitada da região, até pelas madames da nobreza local. Frequentadora dos casarões nas horas do desespero dos partos quando os segrêdos familiares afloram no nervosismo da ocasião, nos corredores dos quartos, nas copas e quintais, Dona Liquinha também se transformara na responsável pela disseminação sem pregas de todas as notícias, relevantes ou não, fofoqueadas em alarmantes sussurros ou contadas alegremente em rodas indiscretas e abertas.

As lavadeiras aguardavam ansiosas a instalação da Dona Liquinha na sua pedra costumeira e a cercavam, instando-a – nem precisava – a debulhar os últimos acontecimentos.

Uma vez, requisitaram sua função no atendimento de uma mocinha, filha de importantes figuras da elite pecuária local, casada há quatro meses. A pirralha conseguira engambelar os pais escondendo sua gravidez até a data do casamento, com o uso de espartilhos e cintas comprimidas no ventre. A parteira conseguiu ajudá-la a ter um saudável e rechonchudo menino, sendo recompensada regiamente por intervir com tamanho sucesso numa gravidez de alto risco de “apenas quatro meses”. Deu uma risadinha contida, embolsou a gorjeta e saiu pela madrugada, prontinha a divulgar o mais recente escândalo da sociedade.

Manhã seguinte, trouxa na cabeça, bacia na escadeira, acocorou-se na pedra e cochichou nomes e datas – e até detalhes maldosos da concepção – à uma platéia de atentas ouvintes que, esporadicamente, respondiam em uníssono: “Virgem Santa!”, “Ah! Meu Deus!” Foi assunto durante um tempão!

Somente a orgulhosa avó do nenen depositava fé no milagre dos quatro meses e na competência da parteira. Tanto que, um dia, no intuito de “tirar uma dúvida”, abriu a sombrinha e desceu a ladeira até a Barrinha onde fervilhava a atividade. Curiosas, as lavadeiras viram-na aproximar-se da Dona Liquinha e alastrou-se um silêncio danado, interrompendo-se as esfregas, bateções e ensaboamentos. Inocente da situação, a avó nem se preocupou em baixar a voz:

– Bom dia, Dona Liquinha!

– Bom dia, Madame.

– Vim agradecer a senhora novamente e perguntar-lhe se os próximos bebês que nascerem de quatro meses podem correr perigo?

Sabida e esperta, conseguiu se safar da pergunta sem grandes revelações:

– No caso da sua filha, madame, só o primeiro não correu perigo. Vai ser difícil, mas todos os outros que nascerem em barriga de quatro meses, daqui prá diante, correrão perigo sim!

As companheiras explodiram na acintosa e vezeira gargalhada de tripudiação e a madame avoada subiu o morro sem entender-lhes a razão da alegria.