Dia a Dia: Quanta Zora?

7 de dezembro de 2019

O capitolino autêntico possui grandes características e gostos bem definidos: pão de queijo tirado do forno, o conhecimento das histórias do tempo-do-onça transmitidas nas prosas do quenta-sol, o comparecimento nas festas meridianas de São Vicente e se emocionar todas as vezes que a cidade aponta lá adiante, refletida pelo espelho d’água (aliás, Deus, quando criou esta nossa região, estava num de seus melhores dias, em excelente bom humor).

A grande festa vicentina ficou um pouco mais vazia porque faz falta o abraço carinhoso e o risadão do Pedro do Dominguinho, adotado por mim como Tio Pedro, apesar da negativa de laços consanguíneos, compensados pela bondade e constantes demonstrações de carinho comigo.

Bão! Mas nós tínhamos também o velho Chico Olivério, moirão firme fincado fundo, sabedor dos causos mais esquisitos. Ainda mais que era dono duma barbearia bem de frente da casa do saudoso vovô Leonel. Astral elevado, conversa idem, ele era a alegria da criançada com suas piadas, gozador de marca maior.

Me lembro bem que um simples pedido de “quanta zora?” trazia um repertório imenso de respostas esdrúxulas e chacoteiras. Parecia de propósito, mas os matutos simples da roça, ao chegarem na cidade, passavam na porta e, tímidos e envergonhados, inquiriam:

– Ô Chico! Quanta zora?

Ele interrompia o corte, guardava a tesoura no bolso da camisa, sacava cerimoniosamente o cebolão da algibeirinha da calça, dava corda primeiro, polia o vidro e soltava:

– De quantas ocê precisa?

Encabulado, o perguntante mirava o sol, meio fora de fuso e retornava:

– Umas duas hora tá danado de bão!

– Então pode se assossegá que vai demorá prá ser duas!

E dava por encerrado, acomodando o cebolão e retornando à tesoura…

Doutra vez, um caipira se achegou, soltou no chão duas galinhas bem amarradas e, preocupado com os compromissos, assuntou:

– Solama danada, né sô Chico? Careço di vendê essas galinha, de entregá uns quêjo e di levá uns butão prá muié pregá. O tempo tá curto. O sinhô tem zora?

Resposta seca:

– Tenho.

– Uai, sô Chico! Tô priguntando si o sinhô sabe a zora?

Uma piscadinha disfarçada, o mesmo ritual de verificação acompanhado desta vez duma chacoalhadinha do relógio perto da orelha:

– Sei.

E guardou, definitivo.

O caipira saiu, pisando duro e resmungando.

A coisa pegou e vinha gente de longe a acertar o zorário e aproveitava para um corte de cabelo ou uma fazida de barba:

– Quanta zora, Chico?

– As méma de ontem!

– Bas tarde, Chico! Quanta zora?

– Farta quinze prá daqui a poco!

– Ô Chico! Quanta zora?

– Já passou uns vinte minutos?

– Uê, passou de quanto?

– Num sei. O ponteirinho agarrou e só o grande é que anda! Rá! Rá! Rá!

Uma vez, nas férias, logo depois do natal, eu de reloginho Lanco com cheiro ainda do meu sapato onde o Papai Noel o deixou, preparei uma pegadinha e perguntei, malicioso:

– Ô seu Chico! O senhor tem hora prá me dar?

Mas ele ganhou na esperteza:

– Ah! Seu safadinho! Lá no Piumhi ocês dão de hora marcada?

Eu estava preparado neste dia a sair por cima. Enquanto ele, distraido com um freguês, bobeou, peguei sua caixa de fósforos e coloquei uns cinco palitos daqueles que estouram um traquezinho bem no nariz do fumante.

Tiro e queda.

Terminou o corte, recebeu os cobres e, enquanto espanava a cadeira e sacudia o pano branco de amarrar no pescoço da gente, botou o cigarro num estilo Gary Cooper no canto da boca, desengavetou um “fosque” e riscou, trazendo-o junto à cara. Um segundinho de nada e “POU!” Foi um fumacê arretado! Chico prum lado, cuspindo o cigarro, branco que nem cera e nós (os primos juntos), prá desespero dele, morrendo de rir do ridículo do susto.

Levei a maior ferrada!

Ele fingiu ter gostado da brincadeira. Me ajeitou na cadeira, quase me enforca com o tal pano, pegou uma tesoura ruim de corte e, praticamente, me arrancou os cabelos… um por um, deixando atrás vários caminhos de rato. Pior foi a tortura psicológica. Preparou a navalha, afiando-a devagarinho na correia e me olhando de cara fechada, ameaçadora. Na medida em que raspava minha nuca, lembrava da sacanagem do fósforo e eu ali, impotente, esperando a sangria, tremendo. Finalmente, o Chico deu por terminado o ato e, quando eu pensava, aliviado, estar livre da sua vingança, ele empapou a mão de álcool e besuntou minha pele super escanhoada e dolorida. Uh! Ardeu paca!

– Ocê ainda quer saber a zora?

– Quero não, senhor Chico Olivério!

E corri a chorar colo da mamãe!