Dia a dia: Proposta de briga

1 de fevereiro de 2020

Numa tarde dessas, ao entregar minha crônica semanal na redação da Folha, caí na besteira de afirmar com ufanismo e orgulho (sem bairrismo!) que Passos, Piumhi e até Formiga faziam parte, atualmente, da Grande Capitólio. Pra que!!! Levantou-se, bravo, vermelho, veemente, quase agressivo, do seu posto junto ao computador, onde digitava matéria jornalística para a edição seguinte, o repórter Ézio Santos, contestando, frontalmente a minha tese – ou mania de grandeza, se preferirem.
 
– Eu não admito isso, ô Adelmo! bradou e, antes que eu me refizesse do susto perante reação tão inusitada, emendou:
 
– Vocês não podem crescer um pouco e ficarem famosos com as Escarpas do Lago que já querem dominar tudo, serem os “Bão”. Então como é que Passos tá cheia de estudantes de lá – cadê as suas escolas? De doentes que aqui vem buscar socorro -cadê os seus hospitais? De consumidores e empregados – cadê o seu comércio e suas indústrias? Por aqui estão os melhores hotéis, empresas de transportes, aeroporto, etc, etc.
 
Prá quem não sabe, e disso eu duvido, o Ézio Santos faz uns bicos como árbitro de futebol e eu tremi como devem tremer os jogadores quando levam um cartão amarelo, seguido de bronca em bom português de quem também sabe manusear a palavra como radialista itinerante (de acordo com os ventos que sopram nas nossas AM e FM).
 
Para azar seu, sobre a mesa da redação havia um guia turístico da região e o Carlinhos Parreira, tomando partido no conflito, o mostrou e lá constava Capitólio e nada de Passos. Ai, ele realmente “subiu nas tamancas”.
 
– Um absurdo! Como é que pode? A maior cidade ficar de fora de um mapinha desses? Não adianta, nós somos maiores e pronto! 
 
O Carlinhos, morrendo de rir, me chama no canto e manda perguntar ao exaltado defensor das plagas passenses a sua origem. Foi minha vez de estourar no riso, pois tava lá na sua identidade: Local de Nascimento- São João Batista do Glória. Alerto aos senhores edis da Câmara Legislativa de Passos que passou da hora de outorgar, os méritos incontestes, o título de cidadão passense a quem já se considera como filho legítimo da terra de Bom Jesus, amando-a  a ponto de se exacerbar na defesa contra uma colocação provocativa como a minha.
 
Findo o nosso quiproquó e aumentada a amizade e admiração que nutro pelo eclético Ézio, uma idéia emergida dali começou a martelar na minha cabeça.
 
Toda cidade que se preza pelo tamanho, civilização e progresso tem próxima de si uma outra a disputar palmo a palmo, morrinha a morrinha, a hegemonia regional. Uberaba/Uberlândia, Teófilo Otoni/Valadares, Poços de Caldas/Varginha, Ribeirão/Campinas, Paraíso/Passos. Por que não Capitólio/Glória?!! Quem sabe, com uma boa briguinha a gente não dá um salto de desenvolvimento? Pouco importa se metade de uma tenha parentes na outra. E que ambas façam os melhores pães de quejo e tira-gostos  de filezinho de tilápia. Fica o desafio aos glorienses. Mas que se estabeleça um mínimo de postura ética nessa disputa. Tudo que uma fizer, a outra procure fazer melhor mas sem destruir o que a primeira fez.
 
Que se tenha ciúme e inveja, estimulante, nunca a raiva, degenerativa.
Que a convivência continue amigável, educada, respeitando-se mutuamente, sabendo aceitar a criatividade e o senso de oportunismo do “adversário”. Que se alegre apenas com os nossos sucessos e não com  os insucessos da outra. Que as lideranças políticas não tentem insuflar os ânimos da população, abaixando o nível a uma rivalidade rasteira e demolidora. 
 
Um apelido jocoso ou uma brincadeira são válidos, mas que se aceite esportivamente tanto o gozador quanto o gozado, sem revides apelativos, ranço e ódios pessoais. Eu começo, como capitolino, a briga: vocês, do Glória, deviam trocar aí a Rodoviária para Estação Ancoradoura e colocar uma linha prá Represa dos Peixoto. Pelo menos, economiza nos mata-burros! Rá! Rá! Rá!
Seguindo esses preceitos, com certeza, dentro de pouco tempo estaremos passando como um trator por cima de quem, hoje, detém as oportunidades históricas como cidades polo-regionais.
 
E aí eu vou encher o saco do Ézio Santos à vontade!