Dia a Dia: Procissão na Ventania

25 de janeiro de 2020

O povaréu rodeava a entrada principal da igreja matriz de Ventania no aguardo da procissão do entêrro. Sexta-feira, luto fechado pela morte de Jesus, ponto culminante da semana santa e do pio fervor que norteia a religiosidade de nossa gente. Lá dentro, desde manhã cedo, as pessoas passavam em fila, próximo ao ataúde onde a imagem do Senhor morto recebia passares de mão condoídos, beijos de fé nas chagas como pedidos de desculpa pela condenação na justiça humana de há dois milênios. Ao lado, velava o filho, em manto azulado e olhos tristes, a mãe, Maria.
 
Enfim, o rebuliço com a ordem do padre Ubirajara para início da função de acompanhamento, da peregrinação até o sepultamento simbólico. A igreja se esvaziava aos borbotões como um rio afluenciando no lago de cabeças alumiadas pela grande lua cheia da Ventania, até abrir-se o corredor  adonde ponteavam os guias da procissão: ao centro, majestoso como a alta cruz que carregava, o sô Quirino ladeado por um par de archoteiros, os três paramentados em opas vistosas, sinal da responsabilidade enorme em abrir o trajeto e determinar a velocidade a tanta gente atrás. Em seguida, para puxar o canto da frente, meia dúzia de senhoras e senhorinhas. Ao mesmo tempo em que as filas se formavam nas laterais da rua milhares de velas se acendiam, umas no fogo das outras, grandes ataviadas em caprichosas fitas, compridas enfiadas em pedaços de papelão contra cera derretida, brancas comuns e desnudas, em mãos simples, calejadas.
Seguiu praça afora, pela rua da cadeia. A pausa, o cântico melancólico e pungente da Verônica marejando olhares e encadeando fungar de narizes no desenrolar da pequena toalha onde se marcou em sangue o rosto sofrido do Cristo. Aqui e acolá, exclamações e suspiros:
– Ah! Tadinho!!!
No entanto, nestes eventos, por mais sérios e respeitosos, acontecem inesperados, inusitadas ocasiões de riso. Quantos e quantos véus e cabelos não se queimaram por ação de acaso ou peraltice? E quem pode coibir a intervenção de bêbados atravancando os transeuntes e rezas? De fazer uma terça retinta nos lamentos da Verônica?
Na procissão do entêrro, costuma-se transportar o andor de Maria com o rosto voltado para o ataúde de Jesus. Na dobrada da esquina, notando o transverso da imagem, o tonto tenta colaborar e grita em voz degringolada:
– Vira a santa!
Em desaviso e no instinto, os em tôrno respondem:
– Viva!!!
Desentendido, insiste o tonto, brabo e mais alto:
– Viiraa a saantaaa!!!
E a turma:
– Vivôôô!
Aí um dos padres missionários se alteia de nervo:
– Silêncio. Olha o respeito. Silêncio profundo.
No que a molecada, no costume das respondendas decoradas, murmuram quase em uníssono:
– Silêncio profundo. Pinico sem fundo!
Uma malcriação puxa outra!
 
Passado o transtorno, segue a procissão pela rua Governador Valadares até que, num repente, a brisa úmida e fria parece apagar a lua. A nuvem negra escureceu tudo, as mãos tentando inutilmente proteger a chama das velas, descem os primeiros pingos, grossos, se estalando no chão. Fortes e derradeiras águas de março. O povo vai se escostando na proteção dos beirais das casas e nem se sabe quem teve a iniciativa, o fato é que, em rebanho, resolveu atalhar de volta à igreja dois quarteirões antes do previsto. Até os padres.
Na frente, compenetradíssimos orgulhosos do dever a ser cumprido, considerando o temporal apenas como mais uma provação expiatória, continuaram no trajeto original os guias da procissão e as acompanhantes. Numa rápida amainada do chuvaréu, uma delas sussurra:
– Sô Quirino! Sô Quirino!
Sem se voltar, ele balbucia:
– Que foi, minha filha!
– Não tem ninguém atrás, sô Quirino.
Aí, ele torceu o pescoço, arregalou a vista e se virou, no completo:
– Uai. Cadê o povo?
– Sei não, senhor.
– O caminho tá certo. A procissão deve de ter rebentado.
– E agora?
Missão é missão.
– Bamo fazer o seguinte: já que nós num podemos guiar, a gente volta e fecha a procissão pela culatra.
Molhados até na alma, estugaram o passo no devorteio e trancaram o que sobrou da procissão, como mandou o sô Quirino, pela culatra!!! Sem perda de indulgências!
Nos nossos tempos de quase padres, de varar madrugada batendo matraca, se sofria mas era era bão. Hein! Elói, Bolão et caterva? Não era? Uh, se era!!!