Dia a Dia: Possante

7 de março de 2020

O Bartolomeu, protagonista de histórias interessantíssimas, como interessante era o próprio, vivia em Governador Valadares e trabalhava no nosso hospital como aquele que faz tudo. Crioulo atarracado e criativo, querido por todos nós do Corpo Clínico, quebrava também a totalidade dos galhos ocorridos normalmente nos sistemas hidráulico,elétrico, pregos e soldas, com simpatia e constante bom humor, sempre mostrando os ótimos e alvos dentes.

Apesar da trabalheira, nunca seu mixo salário de três mínimos daria para realizar o sonho maior de dirigir um automóvel de sua propriedade. No entanto, dinheiro era um mero obstáculo que ele, alavancado pela inventividade, superou: construiu seu próprio carro.

Inúmeras visitas a ferros velhos, catando cada componente, recuperando peças dadas como perdidas, pedindo daqui, ganhando dali, foi criando formas algo parecidas a um carro, meio fusquinha, certa semelhança com o DKV, alguns achavam mais para Gordini e umas pitadas de Jeep.

 

Indefinível o aspecto, mas o barulho era de caminhão, ronco alto e dissonante, inseguro, às vezes (algumas rateadas, por puro charme).

Na tarde em que o Bartolomeu estacionou sua criatura na porta do hospital, saimos todos prá ver o resultado de tantos dias de espera e não houve sequer um que, o examinando,negasse uma gargalhada seguida pela estupefação ante geringonça tão maluca, que apesar de todas as incongruências físicas e químicas, conseguia rodar.

 

O apelido veio natural e espontaneamente: “Possante”.

Seu dono, orgulhosos da obra-prima, dirigia-o de pescoço empinado, sorriso superior, cumprimentava todos com o acenar de mãos de um candidato a deputado mineiro. Achava-o uma lindeza, mesmo com os esparadrapos, colas e rebites aparentes ligandos as diversas e desoriginais latarias do chassi.

A sessenta quilômetros de Valadares, numa cidadezinha batizada Sabinópolis, acontecia todos os anos o Festival da Jabuticaba, cujo sub-produto mais aclamado e consumido era uma famosíssima pinga escura e deliciosa, fartamente distribuida aos frequentadores da festa. O Bartolomeu resolveu então, prá surpresa nossa botar o Possante na estrada e se encharcar com a cachaça sabinopolense.

Sacolejante, mas decidida, lá foi a coisa.

Visando a segurança dos motoristas em trajeto tão movimentado e perigoso, agravado pelos bebuns irresponsáveis ao volante, a Polícia Rodoviária montou uma barreira de fiscalização onde se verificava o estado do veículo e seu condutor, na volta do Festival.

Após dois dias de muita bebedeira, vinha o nosso herói, tonto pela ingestão excessiva da jabutipinga, quando o guarda acenou, mandando encostar.

Assustado, sem outra opção, adernou o Possante à direita, próximo ao barranco e, fechando os olhos, respirou fundo e aguardou o pior.
E sábado que vem arremato a prosa.