Dia a Dia: Pingolim

29 de fevereiro de 2020

O Joel dedilhava os números da matemática na frente da sala de aulas, alunos presos no seu fantástico didatismo, olhos acesos, fervilhando as cabecinhas nas fórmulas, problemas e operações. A molecada até que gostava da matéria, muito mais pela capacidade do professor em desmistificar as abominações comuns nos assuntos surrealistas e metafísicos que estabelecem parâmetros abstratos quantitativos, acima e abaixo de zero. Zero? Nada? Vácuo absoluto? Ausência? Tanatos?
 Essas coisas de maluco povoando o mundo dos iniciados na matemática fazem com que êles se desliguem do resto – que afinal é resto, um montante a ser desprezado nas divisões imperfeitas, lixo – e das pequenas preocupações humanas. Única explicação para o dia no qual o Joel entrou na aula com a braguilha aberta, inocente do fato, nem aí com o mundo!

A primeira a notar foi a menininha da esquerda, que quase pulou da carteira com o susto, a vermelhidão do rostinho adolescente e a necessidade de contar para a vizinha de trás.

– Oh! É mesmo!

O bilhetinho rabiscado na urgência do fato correu as mãos curiosas, dividindo reações. As envergonhadinhas despistavam o olhar no folheio do caderno, na ponta do lápis, no interêsse repentino pelo formato da borracha e depois, de esguelha, confirmar o ziper esquecido lá em baixo. Outras, mais ouriçadinhas, trocavam risos marotos assim que despontava uma pontazinha branca da cueca contrastando com o azul novo da calça Lee e a ansiedade ia a mil quando, nos pequenos movimentos, aparecia uma pequena sombra em vez do branco. A seriedade do mestre impedia o desbunde da cambada do fundo da sala e, assim, o Canecão, o Edinho, o Xande, o Élcio se controlavam a custo mas já rolavam apostinhas sobre a escapada do dito, se daria as caras ou não. Fôsse o professor Eurípedes ou mesmo o Toniquinho, alguém soltaria a piadinha avisando, porém o temor obrigava-os tão somente ao aguardo, ao desfecho do infausto e aberto fecho. Torcida repartida nas duas possibilidades. O braço ereto, nos dêdos o giz saracoteando no quadro – suspense – ameaçou sentar-se na mesa – “agora sai!”- levantou a perna… recuou. Suspiro geral, de alívio e decepção.

Interessava ao Joel naquele instante, apenas provar a veracidade da tese no teorema sôbre a igualdade dos ângulos opostos pelo vértice comum de Pitágoras. Provou uma vez. A experiência lhe revelou que a turma estava voando, sem entender. Repetiu. Uns risinhos amoitados principiaram a incomodá-lo. Tornou a repetir, desde o enunciado, toda a teoria geométrica dos ângulos iguais. Caprichou, inventou exemplos de tesouras e cruzamentos rodoviários, somou exaustivamente os graus até o resultado único de noventa. Perfeito. Simples. Direto.

– Aprenderam?

Alguns balançares tímidos de cabeça, sentiu que não.

Anotou mentalmente que precisava alertar o Paulão Diretor para a falta de concentração, de motivação daquela classe. Atribuir o avoamento à idade? De jeito nenhum porque não havia acontecido antes. Falha sua? Tinha a certeza e a consciência tranquila que não.

 

Caiu o apagador… O Joel se abaixou, provocando a interrupção completa e irrestrita da respiração coletiva. Todos expiraram profundamente assim que se levantou.

 

Rostinhos espinhentos, espichados pescoços, expectativa frustrada. Nada acontecera. O ganso continuava preso, só na ameaça de fuga.

Frustrado também o professor por não se fazer entendido nas explicações. Por que aqueles pirralhos insistiam nas conversinhas, se lhes dava as costas? Por que os risinhos